quinta-feira, 31 de março de 2016

E há aqueles dias em que tentamos furiosamente estacionar como deve ser, alinhando o nosso carro com o da frente e o de trás, para fazer esquecer o preconceito da mulher condutora. E tentamos até à exaustão e depois de exaustas desistimos, porque não somos capazes, porque o carro não alinha nem por nada com o de trás, meu Deus, onde falhei eu nas aulas de condução, afinal é verdade, sou mulher logo não condutora... E saímos do carro. Frustradas, de cabeça baixa, sem coragem para olhar em frente... 

E percebemos que o carro de trás está estacionado com uma das rodas em cima do passeio...

terça-feira, 22 de março de 2016

há sempre, sempre, sempre, mais do que um lado da mesma história

Mesmo que doa, assume. Mesmo que custe, não vires a cara a este facto óbvio. Não és só tu que sabes a história, não foste só tu a vivê-la. Se não a viveste, então esquece, não sabes da missa a metade, mesmo que acredites que ta contaram toda. Porque ninguém sabe a história toda, nem os que a viveram na primeira pessoa. Porque até esses se esquecem de ouvir o outro lado da história.

A presunção de que possuímos algo na totalidade nunca é boa. Muito menos quando estamos a falar de uma perspectiva sobre um facto. Quando nos toca, só queremos saber da parte que nos toca, de mais nada. E ainda bem que assim é, não nos queria a todos transformados na estátua da justiça, de olhos fechados e sempre com a balança na mão. Somos humanos, somos imparciais. Para mais que a venda nos olhos não resolvia o problema: não é só a ver que vemos apenas o que nos interessa, é também a ouvir. E a viver, e a escolher os amigos e naquilo em que acreditamos. Mesmo quando achamos que não, estamos a escolher, estamos a ser parciais.

E depois? Depois nada. Como tudo na vida esta atitude tem consequências, especialmente se levada ao extremo. Mas para qualquer extremo. Reconhecer que somos parciais deve manter-nos no equilíbrio possível, porque ao tentarmos ser totalmente imparciais contrariaremos a nossa condição de humanos. Não percebemos tudo, não temos de entender tudo e também não obteremos de aceitar. Temos limites que devemos respeitar. Só olharmos para o próprio umbigo também dá raia, porque há um mundo em torno, que nos toca e a quem tocamos. Que não pode nem deve ser ignorado, pela ferocidade com que pode reagir.

Ouçam-se. Por muito que doa. Que dói. Mas também há verdade do outro lado da história.