terça-feira, 18 de novembro de 2014

Memória olfactiva

com as primeiras chuvas do outono, as primeiras a sério, o mundo cheira mal. há um cheiro nauseabundo no ar. que se entranha no nariz e que me faz pensar que esta chuva está a lavar os males que o calor deixou, que nos está a limpar antes do mundo entrar na sua hibernação suposta, no seu momento de resguardo, no seu momento de pausa para que depois, quando o calor começar a dar lugar ao frio, nos possamos encontrar verdadeiramente recuperados para dar nova vida à vida. este cheiro faz-me pensar no que de mau há, no que de mau quero deixar para trás, no que de mau me aconteceu, no que de mau quero deixar de pensar, no que a chuva me pode ajudar a lavar.
as más coisas que trazemos dentro não se lavam com água, lavam-se com bons pensamentos,mas as coisas más que trazemos às costas lavam-se bem com uma boa chuvada, e assim se renova o mundo. não só quando coisas novas nascem, mas também quando se prepara o terreno, muito tempo antes de elas poderem sequer ser pensadas, limpando-o das ervas daninhas que não podem ocupar o espaço das coisas boas.

cheira mal mas eu gosto. gosto porque lava. e resolve. põe o teu coração nas mãos de quem o possa segurar e os pés no caminho que te mostrarem que deves percorrer. entrega a quem te possa orientar o que de mau tens, sentes e pensas, para que esse peso te possa ser retirado. dá o que receberes, reconhecendo as mãos que te ampararam mesmo quando não pediste. aceita sem sacrifício, porque há sentidos que não vemos, significados que só encontramos depois, mas que já lá podem estar escritos. e no fim, sorri.

Não me lembro de alguma vez ter chovido no meu dia de anos

Isto que está escrito no título não é inteiramente verdade. É uma meia verdade. Lembro-me que houve um ano que o dia terminou a chover. Acho que fazia 20 anos. Mas não tenho bem a certeza.

No meu dia de anos pode estar frio, e até pode ter chovido durante a noite. Mas em geral está um dia de outono invernal, com algum sol, naquela luz de dias frios que a mim me diz muita coisa. Gosto do outono (ou da réstia de outono que nos deixou esta maníaca alteração climática que está a tornar Portugal num país tropical). Gosto de sol com camisolas, daquele solinho bom que não chega para tirar o casaco mas nos põe as bochechas coradas. Gosto deste início de inverno, gosto do meu mês.

Passou quase uma semana. Tempo certo para olhar agora com calma para mais um fim/início, fazer balanços e planos. A idade nunca me assustou, muito provavelmente porque sempre me deram mais idade do que a que tinha o que me terá, se calhar, preparado para o momento em que essa idade chegaria.

Roubaram-me as lágrimas. A tranquilidade e o distanciamento que a idade me deu roubaram-me as lágrimas. E agora aqui estou, e estarei. Mesmo que magoada, mesmo que a sofrer, mesmo sem alternativas à vista. aqui estarei. A aceitar que a vida é assim, que existem momentos de agonia intensa que têm de ser vividos e em que outros contam connosco. E quando a loucura se instala, alguém tem de manter o sangue frio. E eu não choro (muito) e vivo em modo piloto automático, a manter as rédeas da situação (da forma que o cérebro e o coração me deixam, à beira da loucura interna, porque o sangue frio é só aparato exterior). Sei de tudo isto por mim. Mas também pelos outros que me dizem repetidas vezes que não aguentariam. E eu, que me sinto no limiar das forças penso, quando ouço a opinião alheia, que tem de ser. Que se as lágrimas não vêm por alguma razão é. Ora então aguentemos. Pior que está pode sempre ficar, mas ainda vou acreditando que isso não vai acontecer. Não por mim, porque eu sei que aguentaria. Bicho sem sangue, eu cá estarei. Para o que der e vier. Mas pelos outros que talvez mereçam mais que eu. Melhor que eu.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

I was there in your darkest nights

And I am still. But that changes people. From the inside. And to gather your tears you have to hide some of your smiles, or else you will not make it. And that changes people. And I am changed. From the inside.

And sometimes I am sorry. And afraid of the future. Because if there is no ability to smile there is no ability to live. I was there in your darkest nights. And still am. But something has changed. In my inner side.