com as primeiras chuvas do outono, as primeiras a sério, o mundo cheira mal. há um cheiro nauseabundo no ar. que se entranha no nariz e que me faz pensar que esta chuva está a lavar os males que o calor deixou, que nos está a limpar antes do mundo entrar na sua hibernação suposta, no seu momento de resguardo, no seu momento de pausa para que depois, quando o calor começar a dar lugar ao frio, nos possamos encontrar verdadeiramente recuperados para dar nova vida à vida. este cheiro faz-me pensar no que de mau há, no que de mau quero deixar para trás, no que de mau me aconteceu, no que de mau quero deixar de pensar, no que a chuva me pode ajudar a lavar.
as más coisas que trazemos dentro não se lavam com água, lavam-se com bons pensamentos,mas as coisas más que trazemos às costas lavam-se bem com uma boa chuvada, e assim se renova o mundo. não só quando coisas novas nascem, mas também quando se prepara o terreno, muito tempo antes de elas poderem sequer ser pensadas, limpando-o das ervas daninhas que não podem ocupar o espaço das coisas boas.
cheira mal mas eu gosto. gosto porque lava. e resolve. põe o teu coração nas mãos de quem o possa segurar e os pés no caminho que te mostrarem que deves percorrer. entrega a quem te possa orientar o que de mau tens, sentes e pensas, para que esse peso te possa ser retirado. dá o que receberes, reconhecendo as mãos que te ampararam mesmo quando não pediste. aceita sem sacrifício, porque há sentidos que não vemos, significados que só encontramos depois, mas que já lá podem estar escritos. e no fim, sorri.
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