segunda-feira, 30 de novembro de 2015

este post tem instruções

Para ler este post é preciso:

estar a ouvir o "Hopeless Wanderer" dos Mumford & Sons.
ler a letra do "Hopeless Wanderer"

"You heard my voice I came out of the woods by choice
Shelter also gave their shade
But in the dark I have no name

So leave that click in my head
And I will remember the words that you said
Left a clouded mind and a heavy heart
But I was sure we could see a new start

So when your hope's on fire
But you know your desire
Don't hold a glass over the flame
Don't let your heart grow cold
I will call you by name
I will share your road

But hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
And hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer

I wrestled long with my youth
We tried so hard to live in the truth
But do not tell me all is fine
When I lose my head, I lose my spine

So leave that click in my head
And I won't remember the words that you said
You brought me out from the cold
Now, how I long, how I long to grow old

So when your hope's on fire
But you know your desire
Don't hold a glass over the flame
Don't let your heart grow cold
I will call you by name
I will share your road

But hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
And hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
I will learn, I will learn to love the skies I'm under
I will learn, I will learn to love the skies I'm under
The skies I'm under"


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a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. eu havia de ir para onde sopra o vento e voltar a ir sempre que ele roda. eu havia de ir onde muda a primavera e onde o rio se transforma em chuva. eu havia de usar os pés e as asas e ir onde o mundo roda. eu havia de andar o mundo tanto como ele anda sobre si. eu havia de ser ar e vento e chuva e as cores do arco íris. eu havia de ter sido feita de natureza, eu havia de não ter corpo nem olhos, eu havia de sentir e pertencer só, só sentir. sentir quando o vento chama e eu tinha de ir. eu havia de ir porque ele me chama muitas vezes. eu havia de ser solta, eu havia de estar com eles, eu havia de ser só, sem estar. 

a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. e deram-me um coração e umas mãos e uns pés. e um coração para amar. e muitos corações para amar. e eu em vez de ir fiquei. a mim deram-me corações para amar e eu já só ouço o vento às vezes. é mentira. eu ouço-o sempre que ele muda e sempre que ele me diz que vai. ou que vem. mas a mim deram-me corações para amar e eu já só o quero ouvir às vezes. quando quero sentir o que ele me dá. quando quero ser solta. e só sentir. a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. e eu hei de ir. quando for hei de dar tantas voltas ao mundo quantas ele dá sobre si. 

agora tenho corações para amar. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Na escola das mães...

Na escola das mães que não existe, ninguém nos ensina que vamos ser mães que fazem chorar os filhos. Mais: ninguém nos ensina que vamos ter de os magoar e fazê-los chorar, às vezes mais do que uma vez por dia. 
Ninguém nos diz que uma febre ou um dente a nascer são suficientes para nos cortar o coração ao meio, porque é preciso o supositório, é preciso o médico, é preciso o creme. Ninguém nos disse que obrigar as crianças a tolerar estas situações é impossível: elas não as toleram. Elas gritam e choram e, certamente, odeiam-nos porque não querem saber do que nós sabemos. E nós sabemos que as temos de obrigar, e ignorar o choro delas, e forçá-las a sentar e estar quietas, a pôr o supositório ou o creme, a abrir a boca para o médico ver as amígdalas. 
Ninguém nos disse que vamos ter de fazer isso tudo a ouvi-los chorar aos berros nos nossos ouvidos e mesmo assim fazer de conta que nada se passa. E continuar a obrigá-los. E continuar a fazê-los chorar. Mesmo quando nos pedem. Mesmo quando já choram ainda antes de estarmos ao pé deles. Só por nos sentirem chegar ou porque dizemos alguma coisa em particular. Ninguém nos disse que os vamos odiar nesses momentos porque nós odiamos a nós próprias e a esses momentos. Porque eles não percebem e podiam perceber. Que tudo o que fazemos é por eles e que, na verdade, está a custar-nos muito mais a nós do que a eles. Porque eles não percebem nem acreditariam em nós, que mantemos a cara serena e os gestos decididos. A fazê-los chorar e sofrer. Porque tem de ser. Porque só assim melhoram. Porque sim. 
Na esca das mães que não existe esqueceram-se de por muita matéria no programa.