Ninguém nos diz que uma febre ou um dente a nascer são suficientes para nos cortar o coração ao meio, porque é preciso o supositório, é preciso o médico, é preciso o creme. Ninguém nos disse que obrigar as crianças a tolerar estas situações é impossível: elas não as toleram. Elas gritam e choram e, certamente, odeiam-nos porque não querem saber do que nós sabemos. E nós sabemos que as temos de obrigar, e ignorar o choro delas, e forçá-las a sentar e estar quietas, a pôr o supositório ou o creme, a abrir a boca para o médico ver as amígdalas.
Ninguém nos disse que vamos ter de fazer isso tudo a ouvi-los chorar aos berros nos nossos ouvidos e mesmo assim fazer de conta que nada se passa. E continuar a obrigá-los. E continuar a fazê-los chorar. Mesmo quando nos pedem. Mesmo quando já choram ainda antes de estarmos ao pé deles. Só por nos sentirem chegar ou porque dizemos alguma coisa em particular. Ninguém nos disse que os vamos odiar nesses momentos porque nós odiamos a nós próprias e a esses momentos. Porque eles não percebem e podiam perceber. Que tudo o que fazemos é por eles e que, na verdade, está a custar-nos muito mais a nós do que a eles. Porque eles não percebem nem acreditariam em nós, que mantemos a cara serena e os gestos decididos. A fazê-los chorar e sofrer. Porque tem de ser. Porque só assim melhoram. Porque sim.
Na esca das mães que não existe esqueceram-se de por muita matéria no programa.
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