Há momentos em que recordar é reviver. Mesmo. Há horas em que a memória nos subtrai à nossa realidade e nos leva a um sítio do contínuo espaço/tempo que não existe a não ser na nossa cabeça e naquele momento. E voltamos a estar num sítio que já não existe, como se estivéssemos com o fantasma do passado do conto do Dickens. Mas no presente.
Tudo na vida tem um sentido. Mesmo que só tenha sentido naquele momento - momento em que normalmente não nos faz assim tanto sentido quanto isso. Pareço confusa mas não estou. Pensem num momento da vossa vida que foi estranho, mau e bom ao mesmo tempo. Encontram-no de certeza. De certeza que também se lembram que foi um momento difícil, que muitas vezes vos desesperou e que muitas vezes vos fez pedir que não estivessem ali. Só agora, tempo passado, conseguem recordar com um sorriso nos lábios o que passou. Mas não querem lá voltar, já não faz sentido. Só fez quando aconteceu e quando estava a acontecer não fazia assim tanto sentido.
Há tempos tive um momento desses. Foi bom. Desses tempos guardo comigo memórias tão intensas e boas como guardo pessoas boas - essas mais do que memórias, trouxe-as comigo. Por tudo o que foi vivido nesse passado, marcámo-nos umas às outras. Somos só mulheres. Caímos ali, e para não cairmos lá de todo, agarrámo-nos umas às outras. Unhas e dentes, para não arrancarmos os nossos próprios cabelos. Não sei se chorámos muito, mas lembro-me que desesperámos muito.
Mas o que nós rimos. O que ainda conseguimos rir hoje, a lembrar de tudo o que era mau e ao mesmo tempo bom. Era só mau na altura, mas como as relações que ficaram são boas, de repente as memórias são só boas. Já não interessam as noites não dormidas, os insultos e insinuações estúpidas, a incompetência e as virilhas totais. Já passou. Agora é só riso. E as memórias que nos trazem um sorriso aos lábios. Mesmo aquelas das quais temos alguma vergonha.
Há momentos da vida que só fazem sentido uma vez. Mas ainda bem que podem ser vividos.