sábado, 26 de dezembro de 2015

Isto também é um post de Natal

Já fez dois anos que aderi ao PROVE. É um sistema através do qual, por uma quantia bastante simpática, tenho quinzenalmente um cabaz de verduras e frutas, tudo biológico. Gosto de encontrar as lagartas e os caracóis quando lavo os verdes. E de sacudir a terra das raízes. Sinto que estou a comer coisas a sério.

Vou buscar o cabaz ao CSP de SJB. À frente, um nível abaixo, estão as capelas mortuárias da igreja. Fui buscar o caba para o Natal: as couves, as batatas e as cenouras que competem ao bacalhau. Vinha carregada ao sair, satisfeita por saber que ia lavar couves com caracóis ou lagartas. E depois olhei para baixo. E à porta da capela mortuária estava um conjunto, não muito pequeno, de pessoas. Dia 23.

Não me mete medo a morte. Nem morrer. Hei de o fazer, espero e peço que tranquilamente. Mas esse estado de tranquilidade que peço não é só para mim. Peço-o também para quem fica. Mais até para quem fica do que para mim, que tenho algumas convicções sobre o que vou encontrar, convicções essas que me deixam relativamente tranquila. Pelo menos agora. A esta distância da morte (penso que ainda é alguma).

Morrer no Natal. É matar involuntariamente todos os Natais que hão de vir para os que cá ficaram. Se não todos, pelo menos muitos do Natais dos que cá ficam. O Natal é a família e morrer nesta altura é o corolário da expressão "só Deus tem os que mais ama". O Natal é a família e morrer no Natal é por à prova a família, a sua força e a capacidade de continuar a festejar o que o Natal é: a família. Que foi partida no momento da sua própria festa. Morrer no Natal é desafiar a força da união que existe entre os que ficam e o que vai, para que se continue a acreditar que esse laço continua a existir e por isso a família não partiu, só se distanciou, continua a ser quem é, quem sempre foi e há de ser.

Feliz Natal.

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