terça-feira, 20 de maio de 2014

Quando o passado quer ser presente

O que vivemos molda-nos. Vivemos a maior parte das situações que vivemos porque escolhemos. Escolhemos na maior parte das vezes condicionados por muitas coisas. Por guerras que não queremos comprar, por saltos que temos de dar, pelas expectativas que nos rodeiam e pelos nossos próprios objectivos.
A nossa vida construí-mo-la. É a nossa obra. Às vezes não ficamos satisfeitos com o resultado. Podemos sempre reformular, reconstruir. Com o preço que há obviamente a pagar, pelo investimento anterior, pelo tempo a investir para ver até onde teremos de reformular, ou se podemos retocar sem deitar abaixo. Mas a alternativa existe. Está lá.

Mas é a nossa. Influencia a de outros mas não a deve condicionar. Foram as nossas escolhas, que não as de outros, que não têm de nos compreender ou fazer igual.

Às vezes é tão simples, tão simples. O passado trazê-mo-lo para a frente é certo mas não se resolve no presente nem na vida alheia. O passado é para resolver internamente, para guerrear de forma consciente, olhando-o de frente sem mentiras ou medos do que somos ou do que podemos encontrar.

Gosto da realidade da minha pessoa. Do que sei mal e do que posso melhorar. Sem vergonha do que não sei gerir e dos meus defeitos. Gosto de pensar no que me causou assim. E às vezes não gosto do que concluo. Nem do que tenho de fazer para mudar e do que tenho de comprar para o resolver.

É a minha cabeça.

domingo, 11 de maio de 2014

in my time, when something was broken, we'd fix it

a nossa vida muda porque o mundo está sempre a mudar. são-nos permitidas coisas actualmente impensáveis há um par de décadas, e à medida que a globalização nos torna num planeta cada vez mais pequeno também os nossos limites se vão esfumando. Transforma-mo-nos todos os dias em indivíduos mais capazes de atingir objectivos, também porque as possibilidades e os meios são mais e maiores e mais eficazes.
Gosto desta ideia. De o facto de sonhar e trabalhar nos poder levar efectivamente mais perto do que sonhámos e planeámos. Mas como tudo o que acontece, há uma parte menos boa, eu acho, de tudo isto. Como somos capazes de mais e melhor, é isso que queremos, sempre, e às vezes temo, a qualquer custo.
As relações humanas não são perfeitas, são cheias de coisas más, difíceis, que facilmente causam dor. No outro dia um jornal português publicou um artigo em que expunha uma nova categoria de solteiros, os que o era porque não queriam a monotonia, queriam o máximo das emoções sempre, todos os dias. Como? Não me quero apresentar velha do Restelo, porque não vejo qualquer interesse nos casamentos do antigamente, em que os anos passavam e se já desde quase o início havia pouco em comum, no final o casal era apenas duas pessoas juntas por comodismo, quando não existiam os mais que conhecidos casos de abuso, adultério, mentiras e outras situações que tal. Mas uma relação é uma construção. À vista, sem planos ou engenharia, sujeita a todos os tipo de intempérie, influenciada pelos ventos, temperaturas e movimentos alheios. Mas é possível. Não é sempre uma obra bonita, nenhuma obra é bonita sempre, mas é possível ver a sua beleza, nem que seja na capacidade de a construirmos. A quatro mãos sempre que possível, às vezes a duas, porque nem sempre as coisas nos correm de feição.
Há tempos ouvi a frase que deu título a este post. E percebi como me assusta esta sociedade de consumo imediato, em que a pasta de dentes pode ser causa para uma separação. Não sei se a minha relação vai durar para sempre, não sei o que é o sempre, sei também que não tolerarei tudo e que não a manterei a qualquer custo (que exemplo daria eu então às crianças). Sei que me quero esforçar para que resulte, com todos os maus momentos que dela resultam e que a acompanham, com todas as coisas boas que às vezes são só pequenos apontamentos. Como um sorriso ou uma festa no cabelo. Não é fácil, não somos todos os dias muito felizes, às vezes nem felizes somos. Mas podemos ser. E para isso há que trabalhar. Noutro sítio escrevi que a palavra relação em inglês explica muita coisa: relationship = relation + ship = um navio que é preciso levar a bom porto.
A companhia na idade adulta é tão precisa, o poder acreditar que se vive bem sozinho certas e determinadas fases da vida é uma ilusão que o meu trabalho me roubou há muito. A morte quando se anuncia, é tão mais fácil de receber se estivermos bem acompanhados. E esta é uma verdade inegável, sem rodeios e frontal. Somos animais sociais, mas nos maus momentos, o quente que o amor nos traz é insubstituível. E esse quente não vem porque a outra pessoa é a perfeita para nós. Será quem se melhor se adequa ao nosso lado, mas é também a que ficou, a que viveu connosco os altos e baixos e soube nos baixos lembrar-se dos altos e ajudar a relação a perdurar. Foi perfeita porque trabalhámos para isso, porque vimos objectivos comuns (às vezes, não sempre) e não desanimámos em demasia. Um não faz o que dois não querem, mas dois podem fazer o que se quer feito. Com maior ou menor dificuldade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Toma lá

Toma a decisão.

Como se tomam decisões? Quando é que as nossas motivações nos empurram para além da linha que divide o pensamento da acção? Como é que o empurrão acontece e quando acontece?

Há os prós e os contras, e o preço que se tem obviamente de pagar por qualquer alteração de vida que se faça. E estás ou não disposto a pagar o preço...? E o preço paga-lo tu ou também quem te rodeia?

Friamente, qual será a posição adequada, a forma de estar? Onde está a coragem? Será esse o nome da coisa que falta?

Poderás ser bom numa coisa em que não queres ser bom, onde não queres investir, ao que só queres voltar as costas por cansaço, por desilusão? Fará sentido? E o que pensas que queres, se não fores bom nisso? Como farás? O que validas? O reconhecimento, teu e de terceiros, do que sabes que fazes bem e de onde poderás tirar frutos presentes e futuros ou a ideia concreta de que a vida são dois dias e que chegar ao fim com dúvidas é só estúpido? Mas a vida é para ser vivida ou pesada, pesada ou leve, fazes ou estás parado?

segunda-feira, 5 de maio de 2014

a propósito do dia da mãe

sim dia da mãe é todos os dias, como são os dias do pai, da mulher, dos filhos e de tudo e tudo e tudo o que somos e fazemos na vida. somos todos os dias o que somos, todos os dias. também somos mãe, no meio do resto. coleccionei mães ao longo da vida, a minha, as postiças da famílias, as postiças que se tornaram família, as que mantenho perto e as que a vida afastou, quando eu deixei. agora eu também sou mãe, e sei o que é já não ter apenas o papel de filha. sei o que é pensar todos os dias e todos os segundos no impacto que as minhas decisões e acções têm na vida de outras pessoas, mais pequeninas mas tão mais importantes.
este último ano tem sido um desafio. constante. já deixei de contar quantas vezes me apeteceu desistir (isto em mim quer dizer muito pouco, porque desisti de muito pouca coisa na vida, às vezes à custa de muitas cabeçadas). já perdi a conta das vezes em que achei que não era capaz, que nem sequer queria ser capaz. já lhes perdi a conta. às hormonas descontroladas que me tiram e dão o sono quando querem, em conjunto com as noites mal dormidas em que me apetece sair porta fora quando assim que me deito tenho de me levantar outra vez. já não saberia viver com a ideia de não ser mãe, mas às vezes é demasiada areia para a minha camioneta. tenho vestidos que ainda não estreei porque ainda não fui jantar fora e não sei quando irei, porque os dias metem.se uns nos outros e a meio da semana não dá e ao fim de semana se não é neste no outro já não dá e o tempo passou. mas a felicidade é grande, e é alcançada com um sorriso duma boca desdentada.

hoje ajudei, não voluntariamente, a magoar mais um coração de mãe. duma forma irreversível, tão profunda que não há fim para o buraco que se há de abrir naquele coração que eu ajudei a magoar, sentada, com palavras cordiais e pomposas. e agora estou a ver o Veronika decide morrer e a perceber lentamente tanta coisa na minha cabeça.