A "beata" que eu mais respeito falou-me do seu primeiro filho. Ela tem duas filhas. Meninas. O primeiro filho dela é o casamento. Ela tem razão. O primeiro fruto concreto que nasceu do aproximar daquelas duas pessoas foi a sua relação, o seu casamento. E se o seu primeiro filho não "crescer saudável" é provável que as suas filhas venham a ser filhas de pais separados. Provavelmente não vão ouvir falar com frequência do seu "irmão mais velho" e vão demorar alguns anos a reconhecer a importância da sua existência, demorando também a entender qual a importância do tempo do casal a sós.
Ter um filho é um desafio. Constante, todos os dias. Mas não é só porque de repente somos responsáveis por uma pessoa pequenina, com necessidades específicas, mas também porque essa mesma pessoa pequenina demora uns anos a entender o que lhe explicamos. Essa pessoa pequenina também vem com o seu próprio feitio, virtudes e defeitos. Mas não é só por causa disto tudo (que já só em si é uma imensidão de coisas) que ter um filho é um desafio. Ter um filho é um desafio porque as noites mal dormidas, os choros, os sorrisos e as preocupações facilmente nos fazem concentrar as nossas atenções exclusivamente nas crianças. Que são daquele casal, que são amadas e queridas pelos dois e que os dois compreendem os sacrifícios que cada um faz para estar com elas e dar-lhe o que elas precisam e gostam.
Mas o "filho mais velho" pode não se compadecer da ausência de atenção que lhe reserva este novo casal. O fenómeno está estudado há anos: o síndrome do ninho vazio - acontece quando um casal se mantém junto pelos filhos e que, na sua ausência, olhando um para o outro, não se reconhecem e têm de admitir que os laços que os uniram há muito que se desvaneceram.
Intimida-me isto. Esta ideia de estar junta pelos miúdos. Mas a batalha constante contra o multitasking, o cansaço físico, os horários e as obrigações tem um impacto bastante significativo nos primeiros anos de uma criança. Um desafio diário para "alimentar" emocionalmente este "filho mais velho". Imagino que não existam receitas mágicas para ultrapassar esta situação. Mais: sei que não as há. Parte de cada um ter a consciência da importância desta situação na vida conjugal e tentar compreender, apoiar, dar espaço e estar presente quando o outro precisa. Mas é preciso que cada um reconheça também a importância de ter um papel activo quanto a continuar a ser o companheiro do outro adulto, com tudo o que isso implica. Esquecemo-nos muitas vezes é que este investimento não é apenas no outro ou no casal: é também em nós.
Por mim falo: sabe-me bem arranjar-me para sair só com o meu marido, ser a mulher dele e estarmos só os dois. Ainda nos faltam uns tempos para os 3 anos do nosso filho mais novo - altura em que, dizem os estudos, os níveis de felicidade do casal voltam ao normal - mas temo-nos esforçado. Uns dias piores outros um bocadinho melhor. Desejo que nos mantenhamos assim, a tentar manter-nos enquanto casal, não apenas enquanto pais. Porque gosto da ideia de poder envelhecer ao lado da pessoa com quem casei.
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