terça-feira, 6 de outubro de 2015

Para ficar escrito

Há muito que não mantenho os registos. 

De repente os dois anos demonstraram-se em força. Dizes tudo, com muitos pontapés no português, mas toda a gente te percebe. E quando não percebe tu repetes, repetes até à exaustão, até conseguirmos nós dizer o que tu querias dizer. És o terrorista mais terrorista e mais fofinho que existe: tudo quando queres e te dá jeito. Teimoso. Tão teimoso. De birras com saltinhos e dança irritante à mistura. Os pesadelos que me matam as noites e o cérebro e me fazem ansiar por entrar em coma profundo, para conseguir descansar. 

Ama-la tanto que dói. Hoje doeu-me. Quando percebeste que ela não vinha. Mais uma birra. Mas esta doeu. Tanto amor concentrado em tão pouca quantidade de gente é brilhante.

Ela já é pessoa inteira. Tão inteira que me faz temer pela adolescência inteira dela. Vou morrer tantas vezes, antecipo já todas as mortes. Pela roupa, pelo cabelo, pelos sapatos, pelos amigos. Deus. As mulheres são mesmo outra coisa, doutra qualidade. Vejo-a querer ser mais e mais depressa do que devia ser: fui eu também assim? Quero ser crescida, porque é que nasci pequenina? Respondi-lhe que vai passar o tempo de pequenina a querer ser grande e o de grande a querer ser pequenina. Que cenas maradas se passam por aqui. 

Educar é ensinar a cair, deixar cair, ajudar a levantar, sacudir a poeira e ensinar a aprender com os erros da queda. E depois deixar cair outra vez, confiando na capacidade cada vez maior de se levantarem sozinhos. Para conseguirem crescer e voar sempre, mesmo quando não estivermos por perto. Educar é ensinar a olhar para aqui e lá para a frente, ensinar que cada passo certo é medido e que cada salto é um risco, e que ambos devem fazer parte de como andamos para a frente. Educar é amar os defeitos e tentar dobrá-los para que não os magoem a eles, que nós amamos ainda mais.

Crescem tão depressa que se não escrever não vou ser capaz de me lembrar.

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