se eu soubesse que ia ser assim, acho que tinha feito tudo de forma diferente. não sei se tinha, ninguém sabe com certeza, porque a vida é só uma e não se vive em alternativa. mas acho que tinha. tinha feito tudo de forma diferente. se eu soubesse que ia ser assim, não me tinha agarrado a ti para depois te deixar, não te tinha arrastado no meio de tanta lama para depois te abandonar ao esquecimento e aos caídos nem sei onde, já não me lembro onde foi, tal era a desgraça que estava a minha cabeça. estava e está. a minha cabeça e a minha alma, não sei onde te abandonei e não tenho a certeza se sei porquê. se eu soubesse, tinha feito tanta coisa de forma diferente.
não sei se sinto o que digo, nem sei sequer sei se sinto. queria que não fossem verdade estas palavras, queria dizer que é tudo diferente, mas não é. sei que não devia ter feito o que fiz mas não sei se sinto tristeza ou arrependimento, só sinto consciência, mas a consciência é justiça, não é sentimento. sei que não fiz bem, mas é mentira dizer que me sinto mal. também não me sinto bem, só não sinto nada e queria ter feito tudo diferente. para agora, se calhar, poder sentir. sentir alguma coisa para lá deste embrutecimento, deste acumular de paragens a que obriguei o coração que agora já não sabe sentir. se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito muita coisa diferente.
não te vou pedir perdão, porque não sei bem o que aconteceu, e onde parou a minha mente, para te ter feito o que fiz. não sei onde te deixei, perdi-te, melhor para ti, provavelmente, porque se não sei de ti agora, se te perdi, de que te adiantava andar comigo, se não te soube trazer comigo? também não sei bem onde dei por tua falta, por isso posso ter-te deixado há tanto que não sei há quanto foi isso. adormeci ou parei, não sei, sei que não sei de nada e que se soubesse, ah, se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito tudo diferente. se não tudo, muita coisa, poderia eu ser o que não fui e o que não sou agora, seria eu melhor do que tu perdeste. como te perdi, agora que não sei onde estás. não sei tanta coisa que nem sequer sei se me conto mentiras e se na verdade não fui eu que te perdi, mas tu que me deixaste, depois de me veres arrastar-me na lama e a puxar-te para lá. não sei se me deixaste aos caídos porque viste finalmente que não sei andar de pé e que sou um peso inevitável e incomportável e me deixaste a mim, só a mim, e te foste andar para onde pudesses ser livre.
este saber de nada aprisiona-me e traz-me sempre onde sei que estou sem saber onde é e de como aqui se sai. estou nos meus limites e aqui estarei sempre, porque volta não volta, dou de fronte com paredes que não posso transpor. que são eu e que não mudam, porque se eu soubesse o que não sei, ah, se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito tanta coisa diferente. tinha feito tudo diferente e tu estavas aqui, e havíamos de rir sobre estes devaneios, e não seriam devaneios a única coisa que a minha cabeça sabe fazer.
se eu soubesse que ia ser assim, tinha-te apertado a mão e tinha-te dito coisas bonitas, tinha-te acariciado o cabelo e tinha-te beijado os lábios, tinha sido contigo e comigo, o presente e o futuro. se eu soubesse que ia ser assim não me tinha perdido, tinha-me encontrado e mantido comigo, tinha sido firme e inabalável e não este peso insustentável que é a única coisa que sinto ser. sou um peso demasiado pesado, nem a cabeça consigo levantar, que trago o coração aos pés e só o consigo arrastar. se eu soubesse que ia ser assim, um deserto à minha frente para andar todo sem ti, se eu soubesse que ia ser assim, não tinha corrido para fora de ti, não te tinha escorraçado ou eu sei lá o que fiz, que não sei nada e queria saber como te fiz o que fiz, sei lá o que fiz, mas tu não estás aqui e algum perdão eu deveria ter de pedir.
se eu soubesse que as palavras chegavam para te trazer a mim, escreveria linhas sem fim, com todo o sentido que lhes quisesses dar, que lhes quisesses ler, porque sei que fiz mal, só não sei como, o quê nem quando, sei que não sei quem sou e por isso sei que todo o mal que te fiz foi real. só não me lembro qual foi. se eu soubesse que ia ser assim, pedia mil vezes perdão, mesmo que não o sinta, porque afinal alguma coisa sinto, e é a tua ausência em mim, aqui ao pé de mim, a saudade que me sufoca e me aperta. e agora que sei que não estás, nem onde, nem há quanto tempo, por mim que te quero aqui, sei que faria tanta coisa diferente, faria tudo, tudo do princípio até ao fim, para que o presente não fosse este, e o futuro todo um mundo que afinal não se há de abrir.
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