quando andava na primária tinha uma colega chamada Inês. Lembro-me que era muito alta, tinha o cabelo muito encaracolado curtinho e costumava usar fitas no cabelo. vermelhas. é engraçado o que nos lembramos das pessoas. a Inês foi minha colega até ao 6º ano. não faço ideia do que lhe aconteceu, provavelmente passaria por ela sem a reconhecer. provavelmente já o fiz. lembro-me vagamente de onde fica a casa dela, porque lá fui uma vez, só não me lembro porquê nem como (não me lembro de ter autorização para sair da escola...).
a Inês vivia com a mãe e com o paizão. mas também tinha o pai dela. porque o paizão era o padrasto. que a Inês adorava profundamente, daí o nome: paizão. um pai muito grande ou um pai muito maior. lembro-me de contar isto em casa e de me terem alertado para as origens do amor: o coração e não o sangue. lembro-me bem disso, e agradeço que mo tenham mostrado, porque também foi por mo terem mostrado dessa forma que agora, tantos anos depois, a minha família aceitou e acolheu a minha Inês.
e agora sou madrasta. e agora percebo o peso deste papel, onde só há deveres reconhecidos, mas muito poucos direitos oficiais, só aqueles que com o coração conquistamos junto das crianças que ajudamos a criar. primeiro é o peso da outra pessoa. da ideia sempre presente que o nosso marido teve um passado e que ele é palpável: anda, fala, e de vez em quando faz birras de nos tirar do sério. depois é o peso dos olhos: somos observadas ao milímetro, sempre na suspeita constante que podemos tratar a criança de maneira diferente, menos calorosa, amorosa, sempre no receio de que possamos tratar a criança mal. é isto, sem rodeios. somos observadas ao milímetro sempre na expectativa que possamos tratar mal a criança. e quando surge outra criança, os olhos são ainda mais atentos. mantém a compostura, não resvales. afinal, és mesmo mais que mãe: não podes nunca falhar, estar cansada ou tomar más decisões - é sempre possível que vejam isso de outra forma. se falhares com os teus, tudo bem. mas não está tudo bem se falhares com os dos outros. que por acaso, mas só por acaso, são também um bocadinho teus, porque também lhes trocas as fraldas, limpas o vomitado, aturas as birras e acordas a desoras quando têm pesadelos. isso não interessa. escolher este papel significa escolher uma tonelada com mais de mil quilos de deveres. e sem qualquer tipo de garantias quanto a direitos. se te divorciares (bate na madeira muitas vezes), mesmo que tenhas a melhor relação do mundo com a criança, esquece possibilidade de visitas. a tua relação morreu naquele momento. se o teu casamento continuar, esquece estar presente em acontecimentos marcantes, ou ter um papel de relevo nos mesmos: mãe é mãe, e tu não és. és a madrasta.
na história das novas famílias, há muita gente a ter de morder a maçã envenenada da história da madrasta...
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