terça-feira, 19 de abril de 2016

vamos só ali ao Calçado Guimarães

viagem simples, não fosse ir com as crianças. que depois de correrem a loja toda e estarem cansadas se decidem sentar. eis senão quando o mais pequeno acha que o melhor mesmo é subir para um dos bancos e sentar-se. eis senão quando o mais pequeno é pequeno demais para subir sem ajuda para cima do banco e ao fazê-lo se desequilibra. eis senão quando, para não cair, toma uma decisão que pretende conservar a sua integridade física. eis senão quando essa decisão passa por procurar apoio com as mãos. eis senão quando o apoio que encontra são as caixas de sapatos. que caem. e batem na próxima fila de caixas, que batem na próxima, que batem na próxima, que batem na próxima. e depois há doze pilhas de caixas de sapatos no chão. vezes 5 caixas por cada pilha. fora os sapatos que estão fora das caixas.
juro que foi um momento da minha vida em câmara lenta. Eu até me dirigi às caixas no primeiro segundo, que foi o tempo que demorei a entender que não valia a pena: aquele puzzle de dominó de caixas de sapatos a cair. e os olhos da funcionária atrás de mim, a olhar para a minha criança. a odiá-la de certeza. tenho a certeza.
arrumei tudo em tempo recorde, juro. fui uma funcionária do Calçado Guimarães altamente competente durante 10 minutos, a arrumar uma loja completamente desfeita em 3 segundos. não tive expressão emocional face à criança: afinal não acontece só aos outros. e quando acontece aos outros acredito que lhes aconteça o que aconteceu dentro da minha cabeça: o meu cérebro não conseguiu aceitar que aquilo fosse real, que estivesse mesmo a acontecer. portanto, não temos reacção. ficamos só a assistir, como se não fosse nada connosco. depois tentamos remediar a situação o mais depressa possível, para que o estado de dormência seja de tal forma que não tenhamos de processar a realidade e aquilo tudo seja só um momento de sonho de olhos abertos.
vamos só ali. sem vocês.  

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