há momentos na vida em que para chegar a todo o sítio temos de nos manter rigorosos à agenda. não vale a pena pensar de outro modo. temos de nos esquematizar interna e externamente para que tudo funcione, se não, tudo vai berrar. tudo. e não só o cumprimento de objectivos. a nossa sensação de frustração vai começar-nos a berrar à séria. e aos ouvidos.
depois começa o jogo de cintura e da paciência. ainda não percebi muito bem o que é que comanda o quê: se a cintura a paciência ou se a paciência a cintura. explico: nem tudo depende de nós. há muito que é da nossa responsabilidade, da nossa iniciativa, da nossa agenda. que temos de marcar e cumprir acérrimamente face à possibilidade das consequências já anteriormente descritas. mas depois há o que não se cumpre por falta alheia. mas que temos de cumprir. o que leva ao reagendamento de um acontecimento que influencia todo o dia. e toda a semana. reagendamentos em cima de reagendamentos, objectivos que se querem cumpridos por cumprir. num loop que de repente parece tornar-se maré e tomar conta deste mar. e que o torna inavegável.
há momentos em que ao sabor da maré não faz mal. sabe bem. o tempo parece-nos o do mundo e uma mudança aqui e ali não faz mal. depois o nosso tempo muda e já o sabemos contado e importante. e uma mudança aqui e ali já é mais do que só uma mudança. sem sermos rígidos queremos ser rigorosos. precisamos de ser. precisamos de ver o nosso tempo bem posto, bem usado, rendido o mais que pode. precisamos de tempo concreto, concretizado, com resultados palpáveis para mostrar. e para além de não ser sempre possível, porque os imprevistos não são controláveis, o que insulta a nossa agenda é a aparente displicência com que alguns a tratam: ahh, esqueci-me, podemos remarcar? ahhh tem de cá estar exactamente às tantas horas e só lhe damos 5 min de tempo de antena... ahhh afinal estamos atrasados e vai ter de esperar... ahhh eu sei que disse que era imprescindível mas afinal vamos ter de modificar o que disse... ahh que porra pah! que enguiços são estes??? o tempo é contado e se não o podemos controlar, a ele e aos imprevistos, então controlemo-nos a nós, à nossa lista de prioridades e ao que efectivamente achamos que vamos conseguir fazer e ao que imprescindivelmente temos de fazer. o tempo é o que temos, não se fabrica, não estica, não se multiplica. o que fazemos com ele meus amigos... já é outra história.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
a propósito de conversas sérias (e da minha capacidade para as ter)
tenho um irmão. e dois primos. e a família acaba por aí no que diz respeito a miudagem (vamos imaginar que estamos na fase em que eu ainda era miúda). quando a minha prima (que é a mais nova) cresceu, o Natal deixou de ter aquela "cena" de Natal, aquele deslumbramento que o Natal tem (vejam o "The Rize of the Guardians"). nessa altura, havia (e ainda há) um "jogo" (não sei se podemos chamar-lhe jogo, mas não me ocorre outra palavra) que se fazia para prever quantos filhos ou filhas iríamos ter. eu e o meu irmão fizemo-lo e, no conjunto, nasceriam 7 crianças. lembro-me de o meu pai dizer que se viesse a ter 7 netos daria prenda de Natal a um de cada vez.
lembro-me também que, na altura, a ideia me pareceu fantástica. 7 crianças era um número espectacular. primos próximos, como seriam os meus filhos e os filhos do meu irmão. afinal não seria só capacidade da Filipa Vacondeus de alimentar 10 pessoas com 3 bifanas. lembro-me disto perfeitamente.
e depois crescemos e a vida mostra-se tal como é. nunca se mostra de outra maneira. e a ideia de ter tantas criancinhas perde um pouco o "cor-de-rosa" que a tinha enfeitado. as exigências são tantas e o tempo sempre o mesmo que faz confusão como se conseguiam organizar as mulheres do antigamente, que tinham as crianças em casa até aos 7 anos (quando entravam para a primária) e cuidavam da casa sem as ajudas que temos hoje. e todas as crianças vingaram e todas sobreviviam e muitas conseguiam chegar longe. a vida era diferente. e nós também, essa é que é a realidade. optar por umas coisas fará sempre com que outras caiam da nossa lista de prioridades. as opções também são tantas, actualmente, que fica difícil fazer escolhas, na verdade. e também há todo um outro nível de exigência que se tem sobre os pais e que os pais têm sobre os filhos. todos queremos ter filhos educados, bem formados, que frequentem actividades que os ajudem a desenvolver as suas capacidades. queremos que os nossos filhos tenham futuro, e isso exige dedicação de todas as partes envolvidas. porque a vida não é só a paternidade, nem pode ser: para que todas as opções e possibilidades se construam é preciso uma almofada (não só financeira) que permita aceder a tudo isto.
a isto junta-se o desejo do desenvolvimento e evolução profissionais, que nos fazem dedicar muito tempo ao trabalho. e o tempo é sempre o mesmo: 24h em cada dia, nem mais nem menos. o tempo que passamos com os nossos filhos se não tiver qualidade não interessa na quantidade. é verdade. mas as outras coisas existem para fazer, e a quantidade acaba por influenciar a qualidade. inevitavelmente. estamos cansados e as tarefas acumulam-se, os prazos e os objectivos também.
acumula-se o cansaço e eu sei bem o que o cansaço me faz. e a qualidade volta a ser posta em causa.
será mais fácil do que isto. claro que sim. é sempre mais fácil do que nós pensamos, na generalidade dos casos. parte sempre da forma como queremos espremer os limões que a vida nos dá: com mais ou menos agrura.
o desafio da eterna superação: como consigo ser hoje melhor que ontem, superar mais este degrau? como consigo aceitar o desafio e fazer uma limonada que para além de doce, refresque e anime? e com filhos à mistura, com crianças que nem sempre entendem o conceito do tempo esgotável, contado nas 24h?
com algum humor, vejam algumas estratégias que poderão ajudar no imediato.
http://www.ted.com/talks/nigel_marsh_how_to_make_work_life_balance_work
lembro-me também que, na altura, a ideia me pareceu fantástica. 7 crianças era um número espectacular. primos próximos, como seriam os meus filhos e os filhos do meu irmão. afinal não seria só capacidade da Filipa Vacondeus de alimentar 10 pessoas com 3 bifanas. lembro-me disto perfeitamente.
e depois crescemos e a vida mostra-se tal como é. nunca se mostra de outra maneira. e a ideia de ter tantas criancinhas perde um pouco o "cor-de-rosa" que a tinha enfeitado. as exigências são tantas e o tempo sempre o mesmo que faz confusão como se conseguiam organizar as mulheres do antigamente, que tinham as crianças em casa até aos 7 anos (quando entravam para a primária) e cuidavam da casa sem as ajudas que temos hoje. e todas as crianças vingaram e todas sobreviviam e muitas conseguiam chegar longe. a vida era diferente. e nós também, essa é que é a realidade. optar por umas coisas fará sempre com que outras caiam da nossa lista de prioridades. as opções também são tantas, actualmente, que fica difícil fazer escolhas, na verdade. e também há todo um outro nível de exigência que se tem sobre os pais e que os pais têm sobre os filhos. todos queremos ter filhos educados, bem formados, que frequentem actividades que os ajudem a desenvolver as suas capacidades. queremos que os nossos filhos tenham futuro, e isso exige dedicação de todas as partes envolvidas. porque a vida não é só a paternidade, nem pode ser: para que todas as opções e possibilidades se construam é preciso uma almofada (não só financeira) que permita aceder a tudo isto.
a isto junta-se o desejo do desenvolvimento e evolução profissionais, que nos fazem dedicar muito tempo ao trabalho. e o tempo é sempre o mesmo: 24h em cada dia, nem mais nem menos. o tempo que passamos com os nossos filhos se não tiver qualidade não interessa na quantidade. é verdade. mas as outras coisas existem para fazer, e a quantidade acaba por influenciar a qualidade. inevitavelmente. estamos cansados e as tarefas acumulam-se, os prazos e os objectivos também.
acumula-se o cansaço e eu sei bem o que o cansaço me faz. e a qualidade volta a ser posta em causa.
será mais fácil do que isto. claro que sim. é sempre mais fácil do que nós pensamos, na generalidade dos casos. parte sempre da forma como queremos espremer os limões que a vida nos dá: com mais ou menos agrura.
o desafio da eterna superação: como consigo ser hoje melhor que ontem, superar mais este degrau? como consigo aceitar o desafio e fazer uma limonada que para além de doce, refresque e anime? e com filhos à mistura, com crianças que nem sempre entendem o conceito do tempo esgotável, contado nas 24h?
com algum humor, vejam algumas estratégias que poderão ajudar no imediato.
http://www.ted.com/talks/nigel_marsh_how_to_make_work_life_balance_work
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Uma pessoa que eu conheço disse, muitas vezes, uma frase que complementa esta. A frase é: "por dentro a água não lava". É como a frase da imagem. Não há maquilhagem que te ponha bonita por dentro, como não há água que lave o que por dentro é feio. Feio por fora maquilha-se, feio por dentro não passa, não sai. Não é que não dê para disfarçar, dá. é possível. Mas disfarça apenas até a "pintura" estalar. E quanto mais feio se é, mais depressa ela estala, de tantas camadas tiveram de ser pintadas.
Penso muito sobre este tipo de fealdade. Penso no porquê de ela se manter, nas suas causas e distingo-a forçosamente da doença mental. Há maldades no mundo que se originam na doença mental não diagnosticada. Durante muito tempo o preconceito com os psiquiatras, os malucos e o que é a doença mental fez com que as próprias famílias e amigos, vítimas de situações problemáticas causadas por pessoas que deveriam ser acompanhadas adequadamente, escondessem ou desvalorizassem o que acontecia, para não trazer o estigma social para a sua porta. Muito foi calado, ignorado e activamente esquecido. Havia medo do que os vizinhos iam dizer, medo do que significava ter uma pessoa destas em casa e, mais do que isso, o que não tem nome não existe, e por isso, quanto menos se falasse ou desse atenção a estes momentos e comportamentos, menor expressão e impacto tinham sobre a vida.
Não é disto que falo. Falo da fealdade porque sim. Da tristeza e frustração que são transformadas em cosias feias que vivem cá dentro e se direccionam para outras pessoas. Da falta de amor que se teve, do amor que não se guardou, das desilusões que nos corroeram os sonhos. De todas estas coisas que transformam as pessoas e as fazem feias. A inveja, o ciúme, o orgulho. O medo. Da satisfação de ver a miséria alheia, do querer que os outros percam coisas suas para que as possamos ter só para nós. Desta feiura que se pode maquilhar, mas que, como toda a fealdade maquilhada, mais dia menos dia é vista tal como é, sem truques nem pinturas. No seu esplendor aterrorizador.
Não me sinto só revoltada ou zangada com estas coisas, que também me sinto. O que me sinto também é triste. Deve ser triste viver assim. Sinto-me perdida, porque não compreendo, não entendo. Faz-me espécie, como se diz.
Visualmente parecem-me alambiques, destilando lenta e eficazmente o fel. O alambique também é bonito. Os de cobre então são lindos. Não deixam de alterar quem deles bebe. Não deixam de lhes alterar a visão. O juízo, a vida. Será que a maldade pode ser um vício?
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Embalada agora não travo
Ora bem..... Pegando e continuando com o tema do post anterior, que isto é material para render mais dois posts, com sorte e com jeitinho, raistaparta também devia ser uma palavra. Porque raistaparta (ou raistapartissem) não é a mesma coisa que raios te partam. Não é. Não é a mesma ideia, conceito, sentimento. Quando se ouve um raistaparta pensam-se outras coisas do que quando ouvimos um raios te partam. Inventam tanta coisa, podiam deixar-nos acrescentar o dicionário. Mas como não estou a pedir cortes, só aumentos, não me devem atender.
Em período de acrescentos, acrescentaria também o célebre (para os alunos de psicologia do meu ano) fascisnada - não me perguntem, é uma homenagem. Mas será uma mistura entre fascinada e excitada imagino eu. Acho que a pessoa que o disse também não sabia muito bem o que queria dizer. Não sabia nunca nem naquele momento. Brilhantismos de uma longa carreira académica.
Os meus actuais alunos teriam imensas palavras para acrescentar: méquié ( que também não é a mesma coisa que como é que é), soa (com um pequeno estalido de língua no início da palavra, diminutivo óbvio de pessoa), entre muitas outras. Na realidade, se calhar era preciso um dicionário só para eles, para suportar uma língua só deles. Porque não lhes chega sequer o dicionário de calão já existente. É todo um outro potencial linguístico, acreditem. Não nos metamos nisso, portanto. Já nos basta um português a ser corrigido por um acordo que claramente não reúne consenso, para ainda nos termos a braços com um outro tipo de português. Que escreve "tar" e "precisa mos" e "esperiência". Sem dó nem piedade nem remorso. Bola para a frente que agora há corretores automáticos em tudo o que se usa, que ninguém lê textos muitos extensos (dez linhas são a nova definição de livro), e que escrever enquanto se anda, estuda, come ou qualquer outra coisa não permite grande elaboração artística.
Confusionista
Não percam tempo. Não me enganei, está bem escrito. E para quem como eu pensava desenganem-se. Confusionista existe, é uma palavra, o Priberam dá os seus significados (quem sabia que existia mantenha-se calado, qu'isso agora não interessa nada).
Ora bem, eu, que acreditava que a minha empregada andava armada em Mia Coito, "brincriando com as palavras", vejo-me na situação de discordar da definição do Priberam. Gosto muito mais da definição que eu criei na minha cabeça para uma palavra que eu, no momento em que a ouvi, julguei que não existia.
Assim, esqueçam o Priberam. Para mim, confusionista - que é quem tem tendência a confundir ou misturar - vai ser sempre uma mistura entre "confusão" e "ilusionista". E, sigam o meu raciocínio, tem muito mais lógica. Um confusionista é um mestre na criação da confusão. Não se limita a ter uma tendência, ele sabe fazê-lo. Ele torna as confusões a sua obra de arte, que deixa todos os que o rodeiam de boça aberta, espantados e banzados com as maravilhas que a mente e o engenho humano conseguem alcançar. No negativo, é claro.
Para mim, na definição que eu criei para uma palavra que eu achava que não existia, um confusionista nunca é apanhado na sua própria teia. Ele sabe onde a ilusão vai começar, onde e quando, e sabe que a confusão vai estalar, onde e quando. Por isso, um confusionista escapa habilmente, qual Houdini, das situações por si criadas, deixando os seus espectadores enleados em situações tristes, difíceis ou quase impossiveisnde resolver. Imagino o confusionista de capa e cartola, quiçá até bengala, bem falante e sedutor, lançando o isco que outros hão de morder.
Para mim, no fim do espectáculo o confusionista escapa-se, sem esperar por aplausos, rindo sozinho e com o ego aumentado por saber que ninguém viu chegar a confusão, da mesma forma que ainda ninguém viu como dela vai sair. E o confusionista já vai longe, pensando no próximo truque, na próxima apresentação, no próximo público.
Assim é o meu confusionista. Que não é o do Priberam.
quinta-feira, 5 de maio de 2016
viver é uma arte
insistir, persistir e não desistir. viver é um arte que exige um complexo e cansativo trabalho. viver não é sobreviver. para sobreviver o trabalho já é algum, mas de pouca complexidade. pode até ser um trabalho exigente, porque nos dias de hoje, até para sobreviver nos vemos em trabalhos. mas para viver, há toda uma outra quantidade de universos que se abre. portas e portas de opções, nem todas oportunidades, muitas vezes só provas de esforço. testes à paciência. ou lições que poderiam ser aprendidas de forma muito mais tranquila do que a forma como realmente as aprendemos.
viver é uma arte. uma escultura, um quadro, uma composição musical. onde todos os pormenores contam e tornam uma peça diferente da outra. viver é uma arte, uma obra de arte em construção, onde o autor não é sozinho, mas não sendo sozinho, porque não é o único a contribuir para o resultado final, tem de fazer como se fosse, assumindo as responsabilidades totais pelos resultados que quer obter. um teste à tolerância à frustração e à capacidade de insistir, persistir e não desistir. viver é a arte de fazer tudo isto. com desânimos e desistências à mistura. com desilusões e ilusões, desejos e sonhos interrompidos ou abandonados. viver é a arte de fazer acontecer o impossível com o possível que temos à mão, viver é a arte de nos transformarmos no que queremos ser todos os dias, quase como um teatro onde o personagem se vai moldando ao actor e o actor se torna, no fim, a personagem que construiu. viver é a arte de ser o que se quer antes de se ser e de passar a ser o que se desejou ser quando o trabalho acaba. que não acaba nunca.
viver é uma arte. uma escultura, um quadro, uma composição musical. onde todos os pormenores contam e tornam uma peça diferente da outra. viver é uma arte, uma obra de arte em construção, onde o autor não é sozinho, mas não sendo sozinho, porque não é o único a contribuir para o resultado final, tem de fazer como se fosse, assumindo as responsabilidades totais pelos resultados que quer obter. um teste à tolerância à frustração e à capacidade de insistir, persistir e não desistir. viver é a arte de fazer tudo isto. com desânimos e desistências à mistura. com desilusões e ilusões, desejos e sonhos interrompidos ou abandonados. viver é a arte de fazer acontecer o impossível com o possível que temos à mão, viver é a arte de nos transformarmos no que queremos ser todos os dias, quase como um teatro onde o personagem se vai moldando ao actor e o actor se torna, no fim, a personagem que construiu. viver é a arte de ser o que se quer antes de se ser e de passar a ser o que se desejou ser quando o trabalho acaba. que não acaba nunca.
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