segunda-feira, 23 de maio de 2016
Uma pessoa que eu conheço disse, muitas vezes, uma frase que complementa esta. A frase é: "por dentro a água não lava". É como a frase da imagem. Não há maquilhagem que te ponha bonita por dentro, como não há água que lave o que por dentro é feio. Feio por fora maquilha-se, feio por dentro não passa, não sai. Não é que não dê para disfarçar, dá. é possível. Mas disfarça apenas até a "pintura" estalar. E quanto mais feio se é, mais depressa ela estala, de tantas camadas tiveram de ser pintadas.
Penso muito sobre este tipo de fealdade. Penso no porquê de ela se manter, nas suas causas e distingo-a forçosamente da doença mental. Há maldades no mundo que se originam na doença mental não diagnosticada. Durante muito tempo o preconceito com os psiquiatras, os malucos e o que é a doença mental fez com que as próprias famílias e amigos, vítimas de situações problemáticas causadas por pessoas que deveriam ser acompanhadas adequadamente, escondessem ou desvalorizassem o que acontecia, para não trazer o estigma social para a sua porta. Muito foi calado, ignorado e activamente esquecido. Havia medo do que os vizinhos iam dizer, medo do que significava ter uma pessoa destas em casa e, mais do que isso, o que não tem nome não existe, e por isso, quanto menos se falasse ou desse atenção a estes momentos e comportamentos, menor expressão e impacto tinham sobre a vida.
Não é disto que falo. Falo da fealdade porque sim. Da tristeza e frustração que são transformadas em cosias feias que vivem cá dentro e se direccionam para outras pessoas. Da falta de amor que se teve, do amor que não se guardou, das desilusões que nos corroeram os sonhos. De todas estas coisas que transformam as pessoas e as fazem feias. A inveja, o ciúme, o orgulho. O medo. Da satisfação de ver a miséria alheia, do querer que os outros percam coisas suas para que as possamos ter só para nós. Desta feiura que se pode maquilhar, mas que, como toda a fealdade maquilhada, mais dia menos dia é vista tal como é, sem truques nem pinturas. No seu esplendor aterrorizador.
Não me sinto só revoltada ou zangada com estas coisas, que também me sinto. O que me sinto também é triste. Deve ser triste viver assim. Sinto-me perdida, porque não compreendo, não entendo. Faz-me espécie, como se diz.
Visualmente parecem-me alambiques, destilando lenta e eficazmente o fel. O alambique também é bonito. Os de cobre então são lindos. Não deixam de alterar quem deles bebe. Não deixam de lhes alterar a visão. O juízo, a vida. Será que a maldade pode ser um vício?
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