quinta-feira, 16 de junho de 2016

ó mar salgado

Tenho um mar salgado e imenso dentro de mim. Feito das lágrimas não choradas, engolidas e caladas. É um mar, que afoga e que se formou por vontade de afogar tristezas. Umas tão profundas quanto o mar sabe ser, tão devastadoras como ele pode ser. O meu mar ocupa em mim o mesmo espaço que o mar ocupa na Terra. O meu mar sabe ser mar. Tem muitas tempestades, mas sabe ser mar e mantê-las ao largo, onde as vagas não conseguem atingir terra e onde a vida que há em mim não se apaga nem é ameaçada por elas. O meu mar aprendeu a ser mar porque se foi o mar que deu berço à vida na terra também o meu a sabe alimentar. O meu mar não tem medo nem vergonha de existir. Se foi formado do que magoa sabe transformar-se e ser energia do que é bom. O mar é força, é abismo, é movimento e maré. É capricho, é onda e vida. Em si, por si e para quem dele precisa. O meu mar é feito de tristezas lavadas e despidas, agora mais puras do que já foram, tristezas que sabem que o que são é demasiado importante para se deixarem cair no esquecimento. O meu mar inunda e lava, o meu mar purifica. O meu mar no seu poder violento protege e absorve o impacto de tudo o que dentro de mim acontece, desvanece a energia nos seus círculos concêntricos, cada vez mais largos e suaves. E sempre que é preciso engole o que é preciso que desapareça da vista. Sem lhe perder o rasto, sem esquecer onde se afundou aquele pedaço de vida. Que não morre e que pode dar mais vida à vida que dentro do meu mar vive. O meu mar é estrada para destinos nunca antes vistos, basta que o queira navegar. Basta perder o medo de enfrentar tormentas e posso chegar onde não me conheço, com todas as riquezas que lá posso encontrar. Basta querer e o meu mundo é meu. Basta arriscar. O meu mar de tristezas feito pode ou não ser fronteira intransponível. Basta eu querer.

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