quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nem só de planos vivem as batalhas

Começar e acabar alguma coisa deve respeitar um plano. É muito mais provável que consigamos cumprir um objectivo se tivermos um plano acerca do mesmo. Um plano que tenha sido pensado cuidadosamente e tenha em conta as diferentes variáveis que atravessam o caminho que existe entre nós e o sucesso. Passamos muito da nossa vida a planear. E se não passamos, devíamos passar.
Mas, como tudo na vida, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Cingir-nos exclusivamente ao plano fará com que não tenhamos capacidade de improviso. Jogo de cintura. E na verdade, a adaptação de um plano às contrariedades da realidade que encontra poderá, com toda a certeza, criar uma solução mais adequada e resistente do que a que foi inicialmente antecipada.
Logo, começar e acabar uma coisa deve ter um início simples, que é o do conhecimento sincero e extenso sobre as nossas forças, facilidades e dificuldades. Sabermos exactamente do que somos capazes e do que não somos, reconhecer onde com toda a probabilidade vamos falhar e onde teremos sucesso será o início do melhor plano. Sem vergonha, sem o idealismo do politicamente correcto, sem a ideia absurda do absolutismo em qualquer das suas formas. A olhar para dentro e para fora, para o reflexo dos nossos olhos no espelho e saber honestamente o que lá está. Sem precisarmos de elaborar ou pintar de outra forma o que é. Reconhecendo-lhe as arestas e as falhas, mas também todo o seu potencial de crescimento. Somos a matéria prima de todos os nossos planos, porque nós somos efectivamente a única variável do plano que teremos a certeza que vamos controlar. Não vale a pena fingir. É na nossa natureza que reside o nosso futuro, a direcção para onde o nosso caminho se aponta. Se a matéria prima é uma, não podemos contar que o caminho se incline para o seu lado contrário.
E isto não quer dizer que estamos determinados inexoravelmente a um dado percurso, porque a mudança existe e somos bem capazes dela. Mas também esta capacidade de ouvir, sentir e fazer a mudança tem de ser da nossa natureza. Têm de estar em nós a coragem, a humildade e a inteligência necessária à mudança. 
Fazer planos para caminhar face a um objectivo é também, assim, mudar. Planeamos para deixar de estar onde e como estamos, planeamos quase sempre para melhor (ou então para evitar o pior). 
Planeiem olhando não só para fora, em tentativas inúteis de controlar o incontrolável. Planeiem olhando para dentro, criando úmeros de qualidades, capacidades e mais-valias internas. Planeiem olhando para a vossa tolerância à frustração, pensando e sentindo onde boa vais ajudar e vos vai falhar. Planeiem pensando onde irão buscar mais forças para continuar, quando as variáveis incontroláveis tomarem conta do vosso plano e, tantas vezes, do vosso mundo. Planeiem sem receio de falhar, porque é tão provável que isso aconteça..., planeiem sem receio de falhar porque ao conhecerem as vossas forças, capacidades e recursos, torna-se difícil que o vosso plano falhe. Mesmo que acabe por ser um plano completamente diferente do original, mesmo que o ponto da meta real diste quilómetros do ponto da meta pensado.
Planeiem-se e façam-senão caminho. Porque o plano somos só nós.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Disclaimer

Este post é sobre o processo eleitoral da Ordem dos Psicólogos, que já começou e que há de culminar em eleições ainda este ano.

Muitos sabem que faço parte, desde a sua criação, da Assembleia de Representantes da Ordem. O primeiro processo eleitoral, que se seguiu à publicação da lei que criava a Ordem dos Psicólogos, foi um processo grande e moroso porque envolveu a inscrição na Ordem de todos os psicólogos portugueses e só depois as eleições propriamente ditas. 
Tenho a sorte de conhecer o Bastonário. Tenho a sorte de o ter conhecido antes de ser Bastonário, tenho a sorte que tenha sido meu professor. Tenho a sorte de ter aprendido várias coisas com ele. Foi um processo difícil, que ele liderou. E foi só ele que apareceu com uma lista candidata. Só ele, mesmo quando já existiam vozes discordantes. 
Se só há uma lista é obviamente essa lista que ganha. As eleições foram pouco participadas, pensou-se que por esse facto. Mas nas eleições seguintes, com muitas vozes discordantes mais uma vez, só apareceu mais uma lista. Novo processo eleitoral, difícil, a lavar roupa suja. E somos psicólogos, profissionais treinados para criar soluções para os outros. Claramente não para nós, enquanto classe.
Vai começar outra vez, novo processo eleitoral. Até agora com duas listas candidatas. E já começou a lavagem da roupa suja. Por favor votem. Por favor informem-se. Não vou defender aqui , pelo menos não neste momento, qualquer candidato. Vou defender algo que parece que não conseguimos fazer: organização e coesão interna. Informação e não desinformação.
Sejamos agentes activos e conscientes no processo de crescimento necessário à nossa Ordem. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

E agora para uma coisa totalmente antiga....

O tribunal decidiu que o nosso ex-ministro Miguel Relvas não é licenciado. Aliás, o título da notícia era "Miguel Relvas perde a licenciatura por decisão do tribunal administrativo". Perdeu-a. Se calhar deixou-a cair e o tribunal não o deixou apanhá-la do chão. É isto? Claro que não. Não a perdeu, nunca a teve. Adquiriu uma licenciatura porque vivemos no país dos doutores, em que para nos ser reconhecido valor temos de ser doutores. Se não fosse dr não podia ser ministro, vá lá acontecer uma coisa dessas, um ministro competente (calma gente que não estou a avaliar o Relvas) não poderia ser sem ser dr. 
Aquele prefixo dr antes do nome faz diferença, sabe-se lá porquê. Não garante inteligência - sabemos disto - não garante trabalho - sabemos bem disto - e não garante felicidade. Também não garante avanço de espécie nenhuma, porque num país de licenciados, só licenciados, quem faz? Quem faz acontecer?
Sou totalmente contra a massificação das licenciaturas. Porque haverá esse de ser um objectivo do país? Alguém entende que obrigar quem não quer a tirar uma licenciatura - ou quem não consegue - não traz nada de bom ao país? Alguém entende que quando apresentamos este como o único factor de sucesso estamos rapidamente a desvalorizar todos os outros planos e projectos de vida? As cabeleireiras e os ladrilhadores não têm direito a ver reconhecido o seu valor enquanto profissionais? E as senhoras da limpeza ou as empregadas domésticas? As pessoas que trabalham nos departamentos da higiene urbana nas câmaras municipais ou nas empresas de recolha de resíduos? Será que estas vidas tem de ser avaliadas negativamente porque não têm uma licenciatura pelo meio? 
A inteligência não vem agarrada aos livros. Não é à toa que está já demonstrado que a inteligência se pode avaliar por diferentes é muito variadas vertentes, que tornam cada um de nós mais ou menos especialista numa determinada competência, em detrimento de outras. A escola e a formação escolar não dá muitas vezes a inteligência necessária à sobrevivência na sociedade actual. Não é a escola que dá isto. Também não é a escola que dá riqueza interior, aquela que também é necessária ao desenvolvimento e progresso de cada um enquanto pessoa e profissional. E por isso as cabeleireiras e os ladrilhadores podem ser pessoas muito mais competentes que muitos dos licenciados que por aí há. Conheço muitos.
Hoje, ao ouvir falar de formação profissional, penso em como seria bom que as licenciaturas não pudessem rótulos de "produto melhor" nas pessoas. Como seria bom que nos despedíssemos desta ideia errónea do prestígio social das licenciaturas. Título: Dr. Profissão: desempregado. 
Ser dr a qualquer custo, só porque sim, como se não houvesse percepção que um investimento de 4 anos (e alguns milhares de euros) tem consequências, e nem sempre positivas, para o resto da vida. Uma das coisas que mais me orgulho na vida profissional é ter conseguido ajudar a convencer uma das minhas "alunas" a seguir o que queria e não Psicologia. Pessoas felizes na sua profissão são mais activas, empenhadas, envolvidas e por isso mais rentáveis. Sem licenciaturas a atormentar o caminho. Não há que ter vergonha do que somos bons a fazer. É preciso é desenvolver essas competências, e não investir onde não vamos conseguir ter frutos. Sem medos. A pensar no desenvolvimento. Porque não é a insistir no mau que evoluímos. De todo. É a potenciarmo-nos nas nossas potencialidades que crescemos. Não todos pela mesma bitola, não todos com os mesmos padrões, recursos ou objectivos. E está tudo bem. Não somos todos iguais nem temos de ser. Temos de ser bons no que fazemos e, por aí sim, estabelecer uma igualdade de evolução. 

Respeitem os tempos!!!! Por favor

Post curto para indicações práticas sobre a importância de respeitar os tempos numa conferência, apresentação, seminários.... O que seja.

Antes disso, assumamos, nem todos fomos feitos para falar em público. De todo. Há quem fale durante horas com capacidade para manter o público atento, interessado, envolvido. É verdade. Mas também há quem vá perdendo, logo desde o início da sua intervenção, o público. Porque não se preparou, porque fala do que não sabe ou fala sem paixão. Há outros erros que vão acontecendo pelo meio, como observações dirigidas ao público incorrectas ou desadequadas... Já vi e ouvi tanta coisa... Enfim. Mas ainda por cima, cereja em cima do bolo, não respeitam o tempo.

E depois o público começa a ficar impaciente. Remexe-se na cadeira, olha para o lado, mexe no telemóvel. Viva o Wi-Fi que nos liberta a mente para outras coisas que não o que se passa a nossa frente. Em mau, muito mau. Ora bem, pessoas fofinhas: quando vocês não respeitam o tempo, as pessoas depois não fazem perguntas. Querem com todas as suas forças o coffee break, querem levantar-se, falar com quem está ao seu lado sem ser baixinho. Portanto vão bater palmas durante meio minuto - falsas, meus amigos, falsas, não tenham ilusões, são palmas de alívio - e debandar da sala. Assim mesmo, em debandada. Sem quererem saber de esclarecer dúvidas, fazer perguntas ou  o que seja. E a vossa comunicação foi assim estéril. Totalmente. O conhecimento nasce da partilha e da discussão. Não da declamação. Declamar não é comunicar. Poupem-se: a voz e o tempo. Cumpram o tempo. E o universo do conhecimento anda para a frente.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O título do post anterior não tem nada a ver com o post em si.

Embora pareça, e até encaixe. Parece porque encaixa, claro. Mas não tem mesmo nada a ver.
O título fala dum momento da minha vida que é quase sempre atormentador: o momento de adormecer. Que às vezes corre de forma muito suave e tranquila. E outras vezes é um terror. Porque o meu cérebro começa a produzir posts. A um ritmo alucinante. Aliás, acho que consigo ver as letras a aparecer numa suposta folha. E depois surge o momento crítico: tento lembrar-me ao máximo do que quero escrever (e logo tenho de pensar o post quase até ao fim) ou agarro em qualquer coisa e escrevo fisicamente o post (e adio o sono outra vez)? Isto acontece-me muito. Pior que isso, chega a acontecer-me com 2 posts ao mesmo tempo. 
São raras as vezes em que os escrevo no momento. Arrependo-me sempre. São sempre muito melhores na sua versão original, a que não escrevo, do que são na versão memorizada, aquela que escrevo. 
Acho que os meus posts são resultado do emaranhado que vive na minha cabeça durante o dia. Em que penso milhares de coisas em simultâneo, em que as coisas para fazer deviam cumprir uma lista mas acabam por se sentar umas ao colo das outras comigo a tentar acabá-las todas ao mesmo tempo. Acontece muito poucas vezes: acabarem todas ao mesmo tempo, claro. Ainda não me atraso muito, mas fico muito insatisfeita. Porque as coisas são muitas, todas importantes. E eu só uma. 
E é, acho, por isso que a minha veia artístico-literária se guarda para quando o silêncio se começa a instalar na minha cabeça. As palavras são para serem ouvidas, não feitas, e o meu cérebro sabe disso. E por isso guarda-as para o silêncio. 
E eu com tanto sono...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Isto às vezes não é fácil, é difícil. Muito mesmo.

Agora que já passou o mais entusiasmo, falemos da conquista do campeonato europeu de futebol pela selecção portuguesa. Não que nos tenha passado o entusiasmo a nós, mas que tenha passado o entusiasmo mais aos que contra nós marcharam. Avidamente, de línguas afiadas e palavras que pretendiam mortíferas. Não foram, como se demonstra: afinal fomos campeões. Antes de continuar, porque efectivamente quero falar mais de outras coisas do que de futebol, acho que há uma pergunta que não foi feita a todos os críticos: se jogámos assim tão mal, porque é que ninguém nos conseguiu ganhar? Vi os jogos todos e não vi porrada, não jogámos só à defesa, com toda a equipa dentro da área. Portanto... Não fomos melhor que eles, se calhar, porque não ganhámos os jogos em tempo regulamentar (mas ganhámos os jogos que interessavam, depois do tempo regulamentar, quando os jogos eram a eliminar). Mas eles também não foram melhores que nós. Tanto não foram que fomos nós os campeões. Viva Portugal!
Agora falemos do que também importa, do que este jogo nos mostra das piores qualidades humanas, dos que pequeninos não conseguem explicar os seus fracassos e empurram a responsabilidade para o sucesso dos outros. Desvalorizando-o, atribuindo-o à sorte, ridicularizando um brilho óbvio e tentando, sempre que possível, extingui-lo. O que isto me incomoda. Não fazem ideia. A pequenez humana nesta vertente é odiosa, vergonhosa, assassina. De que vale não saber dizer "ele é melhor do que eu a fazer isto"? Ou sequer dizer que "ele é tão bom como eu a fazer isto". Que ganho eu com isso, a não ser um inimigo? Como ajudo eu o mundo a avançar se ponho o avanço para trás das minhas costas, escondendo com a minha figura o sucesso de outra pessoa? O que a França fez, em conjunto com tantos outros jornalistas de diferentes nacionalidades, foi não saber lidar com a sua frustração, com a sua incapacidade de lidar com uma equipa coesa de futebol, como se viu, em que os jogadores entenderam finalmente que o conjunto é sempre maior do que a soma das partes, e que o espírito de equipa tem uma força mais do que extraordinária, sobre-humana. A maledicência foi só a reacção pequenina de quem não tem os ditos no sítio para dizer que foi pior do que o outro. Que não lhe chegou aos calcanhares. Aliás... Parece-me que pequenino e feio foi o futebol de Payet, jogada encomendada para matar o que eles sabiam que não iam conseguir contornar. Do que tinham medo. Depois a pisadela ao Quaresma e as jogadas sobre o Nani. Isso é ser pequenino é feio. Como sabemos que tantas pessoas fazem, comentários pelas costas a denegrir outras, a minar trabalho e relações, a assumir louros de coisas que não foram as suas mãos que fizeram. O que isto me incomoda. Não fazem ideia. Depois é difícil controlar o orgulho desmensurado de termos ultrapassado o campo de minas, de termos chegado ao fim vitoriosos, de podermos olhar para trás e fazer-lhes o manguito de lágrimas nos olhos. Filhos da puta que não nos viram como o que realmente somos: bons. Capazes. Esforçados e envolvidos. Filhos da puta que nos quiseram matar os sonhos com palavras e sem acções. Porque se sabam incapazes de nos parar. Filhos da puta.
A França foi espelho da arrogância que mascara o medo. E se eles me passarem à frente? O que faço eu? Como me mantenho capaz de prosseguir o meu caminho, sem me deixar morrer por causa de uma frustração, uma só? Ou mais que uma, como sabemos do Éder? As vidas difíceis não deviam ser demonstração que o sucesso é possível sempre? Mesmo que não como o imaginámos, mesmo que abrindo mão das nossas primeiras expectativas. Caralho para a pequenez humana. Que não sabe beber da felicidade alheia e procurá-la para si, sem querer a que é dos outros. Viram os islandeses? Quando perderam? Aquilo é ser grande em todos os momentos. Aceitar que ganhar implica perder. Sempre. Para sermos melhores, aprendermos sobre as nossas falhas e crescermos. Aprendam a humildade que vos atirará para a riqueza de espírito. Os islandeses vão continuar a trabalhar para atingir os seus objectivos. Aquilo foi um sonho, sim. Mas são estes sonhos que abrem a porta para a realidade do que é possível. 
Muitas vezes não estamos em equipa. Muitas vezes não estamos muitos contra o mundo, muitas vezes somos só nós.tambem não contra o mundo, mas contra uma alminha pequenina e desprezível que nos quer mal, que nos quer arrasar do seu caminho, porque já percebeu que não sabe como nos ultrapassar. Sem sequer considerar que muito mais ganharia se caminhasse connosco. Para onde fosse. Mas todos nós somos um mundo. Acreditem. E as palavras são vento. E poucos são os ventos que uma árvore não tolera. Acreditem.