terça-feira, 14 de março de 2017

Parte 1

Fizeram-nas da cor da terra, às casas. Não se percebem ao longe, só quem as sabe lá. Mesmo ela, às vezes, tinha dificuldades em vê-las ao longe. Sorri.

Sorrio porque ainda me lembro de me ter perguntado onde estavam as casas, quando aqui cheguei pela primeira vez. Foi isso que me convenceu a ficar. Esta era uma cidade para pessoas escondidas, esta onde as casas não se vêem. Pessoas como eu. 
Foi há muito tempo. Não fui eu. Eu não sou a pessoa que tomou a decisão de ficar. Essa morreu quando tomou a decisão. Nasci eu nesse imediato, por necessidade, para poder ficar por aqui, escondida, embora não andasse ninguém atrás de mim. Já tinha passado demasiado tempo para alguém ainda me procurar. 

Abriu a porta e entrou. Não sabia o que dizer por isso foi sincera: preciso de ajuda. Preciso ficar aqui. O café estava vazio e o dono ficou uns instantes a olhar para ela, pensando se lhe falhava a memória e se aquela era, afinal, uma pessoa conhecida. Não era. Estava velho mas não era alguém que ele conhecesse. E de quem se pudesse ter esquecido. Tinha a certeza. Era uma rapariga ainda nova, sem os 40 anos feitos. Só não era normal porque ali não vinha parar ninguém novo assim. Muito menos a pedir ajuda. Mas o pedido era genuíno: os ombros baixos em derrota não deixavam margem para dúvidas. Não soube o que lhe dizer. Entre a estranheza, a desconfiança, o medo e a surpresa ficou mudo. O silêncio manteve-se. Não via grandes razões para a mandar embora mas não sabia como lhe dizer que por ele podia ficar, porque também não sabia bem o que isso queria dizer, ou como é que isso se fazia.  Ela disse: posso ajudar. O café estava vazio. Por isso ele encolheu os ombros. Ela percebeu: também posso ajudar com coisas em casa, a cuidar de alguém, a costurar, o que for.

Já não aguentava mais, essa é que é a verdade, e quando ela disse que podia cuidar de alguém, percebi que já não precisava de mais desculpas para a deixar ficar. Quis que ela ficasse assim que ela disse que queria, mas uma pessoa não abre assim a porta a alguém que acaba de aparecer, só porque sim. Estava farto de não ter com quem falar. Os dias eram eternos. No café todos me perguntavam por ela, todos queriam saber como ela estava ou como estava eu. Mas nunca ninguém se apresentou como uma verdadeira ajuda. Não posso dizer que era coscuvilhice. Também não era ausência de interesse. Só que a verdadeira ajuda nunca apareceu, nunca ninguém deu o passo que eu precisava que tivessem dado, porque nunca consegui pedir ajuda. Nunca lhes consegui dizer que precisava de ajuda eu, a história era tão má que ninguém se quis aproximar e eu também não sabia falar do que aconteceu. Toda a gente sabia e o assunto foi comentado até à exaustão. Sempre nas minhas costas. Nunca ninguém me disse nada, para além das trivialidades que se dizem sempre nestas ocasiões. Palavras meias sussurradas, frases meio comidas, que não se terminam. Eu percebia-os. Foi muito difícil. Tão difícil que nunca consegui falar sobre o que aconteceu. Com ninguém. Portanto, alguém que não soubesse o que tinha acontecido era a pessoa ideal para ficar connosco, para tratar dela. 

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