terça-feira, 21 de março de 2017

Parte 2

Não foi fácil nem foi difícil. As pessoas olharam de lado e franziram o sobrolho, mas poucas tiveram a ousadia de fazer perguntas. As poucas que tiveram a coragem de as fazer, fizeram-nas de forma subtil, a tentar ver quando, na conversa, sobrava alguma informação que ajudasse a deslindar o caso.

Ao princípio era estranho. Só isso. Eu entrava e o silêncio aparecia comigo. Eu ouvia as pessoas respirar, à espera das minhas palavras. Não sei se alguma vez esperaram que eu começasse, em público, a contar a minha história. Se calhar algumas esperaram, por muito idiota que essa possibilidade fosse. Depois achei que, se calhar, esperavam relatos do que se passava lá em casa, como se eu servisse de agente infiltrado à sua curiosidade. Não sei.

No início foi o silêncio. Ele disse-lhe: sabe cuidar de pessoas que precisam? Ela respondeu: sei. Se não precisarem de cuidados específicos, sei. Ele abanou a cabeça. Ela não entendeu ao início, mas esse início durou poucos segundos. Ele endireitou-se, arrumou umas poucas coisas em cima do balcão e fechou a porta do café. Correu umas persianas e disse: podemos entrar em casa por trás. Era um filme, pensou ela. Foi o que ela pensou, tudo demasiado irreal para estar a acontecer. Mas estava, e ele já ia a sair pela porta ao lado das casas de banho e ela seguiu-o, depressa, com medo que ele se arrependesse. O corredor era escuro e saíram subitamente para a rua. Ficaram ambos encadeados e, nesse momento, em simultâneo, ambos pensaram que tudo aquilo era uma péssima ideia. A mão dele demorou-se nas chaves, que já estavam na fechadura. Isto é uma má ideia, mas a porta abriu-se e ambos entraram. Outra vez para a escuridão, que ficou ainda maior quando a porta se fechou na decisão de entrarem.

Foi uma loucura. Mas eu estava louca. Estava e estou, nunca me curei. Fiz o impensável e passei todos os momentos da minha vida, acordada e a dormir, a pensar nisso. Todos os momentos. Por isso aqueles tempos iniciais, de silêncio, foram bons. Eu não sabia falar, não sabia quem era, não sabia o que dizer. Não tinha inventado nenhuma história, não queria inventar, só queria estar calada Vivi todos os dias da minha vida à beira dum ataque de lágrimas e de arrependimento que nunca aconteceu. Não posso ser boa pessoa, não sou. Fiz o impensável e vivi com isso, morta por dentro, todos estes anos.

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