quarta-feira, 5 de abril de 2017

Parte 4

Ninguém soube de mim nos primeiros 6 meses. Não saí de casa. Ou melhor, não saí do perímetro da casa. Cheguei no início da primavera, lembro-me bem, e vinha ao quintal estender a roupa e respirar ar. A ver se me limpava por dentro com aquele ar não poluído. Falava pouco. Muito pouco. Ela não falava e ele mal o via. O café abria cedo e fechava tarde, por causa da fábrica. Durante o dia quase não havia clientes, mas o início da manhã e o final da tarde eram sempre muito concorridos. Se havia jogo na televisão, ainda mais. Por isso ele saía cedo e entrava tarde.


Aquele silêncio ajudava-me. Eu não pensava, tinha o cérebro desligado. Funcionava em piloto automático e não tenho outras palavras pra me descrever. Era algo forçado, imposto. Sabia que no dia que me deixasse pensar morria a sério, me matava, rebentava de dor. Recalquei tudo, não deixava que nada surgisse na minha cabeça. Acreditava que não existia, que nada daquilo era real. Acho que acreditei que estava num sonho e que iria acordar, essa crença ajudava-me. Nada disto é real, daqui a pouco acordas. 

Ela não gostava de mim. Diziam os olhos dela. Colaborava em tudo. Banho, levantar e sentar da cama. Comia pela própria mão sem se queixar ou fazer cara feia. 

Nunca perguntei porque é que estava assim. No dia em que cheguei, ele desceu as escadas e disse: ela concorda. E foi só. Nunca os via juntos, não sabia se ela falava com ele. Não sabia porque não se mexia, mas sabia que era fita. No início desconfiava, porque ela tinha força nas pernas. Ajudava a mudar-se para a cama e para a cadeira e havia dias em que era capaz de jurar que não estava como a tinha deixado. Depois houve coisas que começaram a mudar de sítio. Coisas que eu era capaz de jurar que não estavam como as tinha deixado. 

Um dia, estava de costas para a porta, a lavar a louça, no piso de baixo, e ela disse-me: a mim fizeram-me mal, mas tu fizeste mal a alguém.

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