Virei-me para ela, encostei-me ao lava-louça e vi-a, de pé pela primeira vez.
Devia ter vergonha, porque tenho a certeza que lhe faz mal a ele, com o seu silêncio, e este teatrinho de não se conseguir mexer. Quem é que no seu juízo perfeito se faz de paraplégica? Quem é que no seu juízo perfeito fica dias e dias em silêncio, numa casa como esta, com a tralha a acumular-se à sua volta? Quem é que deixa que a vida esteja parada só porque se quer deixar de mexer? Quem, diga lá? Eu fiz mal a alguém? O que é que você sabe disso? Eu estava a fazer mal a alguém, estava a fazer mal a muita gente. E fiz mal a mim própria, e depois decidi deixar de fazer. Se calhar fiz, e foi muito mal num só momento, mas muito menos mal se não o tivesse feito. Sofro, sofro, vivo em sofrimento e em silêncio, a minha cabeça não funciona, não a deixo funcionar. Você sabe lá o que eu passei, o que me aconteceu, como eu não sei o que lhe aconteceu a si, e nunca abri a boca para dizer nada. E agora você vem e diz o que quer, assim, sem mais, e espera ter só razão? Não, não a tem. É mentira.
Pensei tudo isto, enquanto olhei para ela, olhámos uma para a outra, depois baixei os olhos, abanei a cabeça e disse-lhe: se calhar somos mais iguais do que pensa. Queria chorar. Queria que me dessem colo, queria que alguém me dissesse que estava tudo bem, que era normal o que tinha acontecido, o que eu tinha decidido. Que a minha decisão tinha sido boa e tinha beneficiado toda a gente que eu amava. Sabia que isso nunca ia acontecer. Não há perdão. Ninguém mo pode dar, porque eu também não mo dou, não mo permito.
O silêncio fez-se, ela voltou para cima. Das escadas disse: ele sabe e perdoa-me.
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