Nessa noite quis fugir. Sentiu-se presa numa mentira que não era sua, enrolada que já estava na sua própria história. Tudo era irreal. Nada daquilo fazia sentido ou poderia alguma vez vir a fazer. Imaginou o futuro e viu-se velha e seca, em silêncio profundo, sem palavras que a pudessem por em contacto com as pessoas. Não havia o que dizer, porque nenhuma palavra poderia mudar as ações, o presente traçado pelo passado mal calculado.
Que má decisão a minha. Que péssima decisão, que péssima pessoa. Que merda de gente sou eu, que se acobarda mais uma vez, num canto que não é o meu, longe do que me era querido e que agora de certeza me odeia. Que merda de gente. Que merda de pessoa. Olho para os meus olhos no espelho e não sei o que vejo. Sou uma caixa vazia, ou totalmente opaca, mesmo para mim, que vivo cá dentro. Não vejo porque não quero ver, não me quero olhar, tenho vergonha de mim, do que fiz e faço. Estou nesta casa, neste quarto, com estas pessoas e não sei nada delas, não sei o que me passa pela cabeça, não sei o que faça mais ou agora. Nem para te matares serves. Podias matar-te, já o devias ter feito. Estás morta de qualquer maneira, não tens quem te ame e quem não é amado não vive.
Respirou fundo e não dormiu. No dia seguinte não se matou. Despachou as coisas do costume, entrou no café pela porta que tinha atravessado há 6 meses atrás e disse: vou dar uma volta. Não esperou resposta nem sabia onde ia. Antes de sair, ele disse: leve isto. E estendeu-lhe umas notas para a mão. Ela guardou-as e saiu.
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