segunda-feira, 28 de setembro de 2015

a propósito de Sísifo... ou keep rolling, rolling, rolling yeah

ora as conversas às vezes são inteligentes, valha-nos isso, e até a mitologia grega consegue ser citada. não estamos mal e podemos, de vez em quando, orgulhar-nos das nossas capacidades.

ora então voltemos a Sísifo e às suas pedras. e ao movimento inútil das suas pedras. ontem, por causa do post de ontem, e por causa dos buracos onde nos encontramos e onde perduramos, falou-se de Sísifo e a questão levanta-se: o que ensina Sísifo? A capacidade de não desistir ou a persistência no erro?

Ninguém sai do seu buraco a não ser que queira. A não ser que dentro de si alguma campainha toque e determine que está na hora de andar para a frente. ninguém se mexe a não ser que, mais ou menos de repente, a sua cabeça e o seu coração reconheçam como erro o que se andou a fazer repetidamente. isso sei eu. eu sou psicóloga e sei que as pessoas põe os pés ao caminho quando querem - e este quando querem quer também dizer quando conseguem, quando finalmente as coisas passam a fazer sentido ou a deixar de o ter. o que os outros nos vão dizendo, à medida que vamos cavando o nosso buraco tem pouco que se lhe diga, tem pouco efeito, pouco impacto. no fundo, no fundo, lá no fundo do nosso buraco, não lhes reconhecemos capacidade ou valor ou sequer conhecimentos para que possam alvitrar sobre o que se passa connosco. e continuamos a cavar.

mas na realidade, em muitos momentos, sabemos que eles têm razão. até podemos achar que. a viver a nossa vida, cavariam um buraco tão grande, ou até maior, do que o nosso. sabemos que falam da boca para fora, mas sabemos que têm razão. que o erro existe, está lá, para toda a gente ver. para nós às vezes é tão doloroso que nos entra pelos olhos dentro. persistimos porque queremos ou porque não conseguimos deixar de persistir. estamos como Sísifo agarrados às nossas pedras e ao seu movimento inútil. e continuamos a cavar, mesmo quando metade da nossa cabeça já nos grita: PÁRA. e nós continuamos.

para mim, é deixar as pedras onde estão. saltar-lhes por cima, sacudir a cabeça e as mãos e pensar que não temos de morrer com tudo resolvido. às vezes, há coisas que não se resolvem. pelo menos não neste tempo de vida. saltar-lhes por cima usando-as como degraus: transformar fraquezas em forças, assumir o porquê de termos cavado o buraco, assumir as razões feias, porcas e más que nos levaram a cavar o buraco e usar isso como escudo, como lança e como bengala e andar para a frente sabendo do que nos faz cair. sem medo. as pedras hão de resvalar, todos sabemos. nada na vida se mantém, tudo é temporário. já o disse tantas vezes: até a vida é temporária.

Sísifo não ensina, porque Sísifo estava a aprender: o seu arrastar de pedras foi castigo de se meter com quem mais mandava. quem mais manda que eu aqui, só eu. só eu me posso condenar a arrastar pedras.    

domingo, 27 de setembro de 2015

às vezes a vida aponta-nos uma arma à cabeça (dos buracos onde nos metemos sem nos apercebermos)

Avisos: este post contém calão. Este post é teu X.

Nunca senti o frio de uma arma apontada à cabeça. Felizmente, Nunca estive numa situação limite dessas. Mas não é preciso isso para sentir que tenho uma arma apontada à cabeça. A vida faz o favor de me fazer isso de vez em quando. Só para me mostrar quem manda. Ou para me mostrar a merda que fiz durante não sei quanto tempo e que fui ignorando. E que agora se transformou nesta linda situação onde me encontro e de onde não me posso mexer.

É mentira. É claro que me posso mexer. Não há arma. E a vida não tem propriamente um corpo. Portanto não vai disparar, bater-me ou correr atrás de mim. Posso sair daqui. É só dar um passo em frente. Aliás, há todo um coro de vozes das pessoas que dizem que gostam de mim e que se preocupam comigo que pedem para eu me mexer.

Fodasse, e para onde? Para onde é a saída que eu estou aqui a magicar há tempos infindos e ainda não a vi? Para onde é, digam lá almas iluminadas? Como é que eu saio deste filhadaputa de buraco que fui cavando, sem pá e sem deixar entulho (para onde foi o entulho? Um buraco deste tamanho só pode causar imenso entulho. Onde está o entulho que eu não o vejo porra)? Um buraco muito bonitinho, muito arranjadinho e limpinho (já perguntei onde está a merda do entulho??), mas um buraco, um buraco onde eu não quero estar, de onde eu queria tanto sair.

E quando eu tenho esta ideia vem a vida lembrar-me de todos os avisos que me foi fazendo, a cabra. Eu sei que me avisou. Eu sei. Não sei porque não a ouvi, mas agora ela passou-se dos cornos e deixou-me aqui, a mim, que me esforcei sempre e tanto para que tudo corresse bem, para que todos estivessem satisfeitos, para que não houvesse problema algum. E a vida foi-me avisando: olha para ti. Olha para ti. Olha para ti. E eu não olhei. Se tivesse olhado tinha de ter feito qualquer coisa. E não fiz. Havia já demasiado em jogo. Muita coisa a perder. Muita coisa difícil de ganhar. Muito mais luta, muito mais esforço. E tudo isto cansa. E cansa muito.

Ninguém tem forças sempre e para sempre e para tudo. Uma pessoa cansa-se. Quero cá saber da arma. Estou aqui e daqui não me vou mexer. Chamem-lhe comodismo ou maluquice. Quero cá saber. Falar é fácil. Cavei um buraco, é verdade. E depois? Adianta chorar sobre o leite derramado? Não. A vida não volta para trás por pena de nós. Pelo contrário, a puta até se põe a gozar connosco. Hás de aprender, nem que seja à força, é o que ela nos diz. Acreditem em mim e não confiem nela. a vida é do caralho e no fim, ganha sempre ela: nós morremos e ela continua.

É o meu buraco. Fui eu que o fiz. Deixa-mo cá gozar. Afinal, é fruto do meu trabalho.   

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Por comparação

Por comparação sou a pessoa mais feliz do mundo - calma gente, não estou a dizer que sou infeliz, nem muito nem pouco, que não sou: fazer o favor de ler o post até ao fim.
Medir-nos usando a régua dos outros é um dos maiores erros que podemos fazer. É isto. E isto funciona quer quando nos medimos pela régua dos que estão melhores que nós, quer quando nos medimos pela régua de quem está pior do que nós. 
Em palavras simples, eu sei que estou muito melhor do que as pessoas que, neste momento, atravessam alguns países da Europa, ao frio e à fome, com os filhos nos braços, para tentarem chegar a outro país, com uma língua distante da sua onde, com sorte, serão aceites e encontrarão melhores condições do que as que tinham no seu país. Digo com sorte porque até mesmo atingindo o objectivo da chegada poderão não atingir o objectivo da permanência. Eu sei que nem sequer sei o que é pensar estar assim.
Também sei que há pessoas que estão melhor do que eu: mais felizes, menos preocupadas, mais tranquilas do que eu. Com mais segurança no futuro, menos dúvidas e ansiedades quanto ao que conseguiremos fazer ou dar aos filhos.
Mas saber isto adianta pouco à minha vida. No limite, pode prejudicar os meus próprios planos para o futuro, se me deixar enredar quer no comodismo que deriva da ideia "há pessoas muito piores do que eu, não me posso queixar de nada, deixa-te lá estar quieta". Ou se me deixar no negativismo que a inveja pode causar "nunca hei de ter o que aquela tem, por isso mais vale estar quieta". Viver em comparação põe em comparação o que está por fora. E não o que está por dentro. Não conseguimos comprar o que somos e a nossa história com a história de qualquer outra pessoa. Não somos essa pessoa, não lhe vivemos a vida. Vivemos a nossa. 
Por favor não me interpretem mal. A tragédia humanitária dos refugiados não me passa ao lado. O que estou a escrever tem outro propósito e outro motivo. O que estou a escrever é para me relembrar que quero ter sempre um outro sítio onde chegar: que me faça melhor, a mim e a quem me rodeia. E para me relembrar que para esse objectivo acontecer são os meus pés que lá me vão levar. Isto tudo porque ando a passar alguns dos meus dias com miúdos que não têm objectivos. Que não têm expectativas. Que não se têm respeito porque nunca foram respeitados, porque as pessoas que as rodeiam não se respeitam. Porque, como percebi hoje, vivem em comparações inúteis e autodestrutivas que as mantêm num ciclo sem futuro. Para elas e para quem vem a seguir a elas. É triste como é fácil matar para sempre a vida futura de alguém. De uma família inteira, durante muitas gerações. 
Até aparecer alguém que tenha a coragem de quebrar o ciclo. Só que quebrar estes ciclos é difícil, porque quem os quer quebrar há de ser encarado como uma ovelha negra, como um maniento, arrogante, não há de ter apoios e há de ser olhado com desconfiança. É triste ver isto acontecer. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Já houve muita maneira de o pôr

Já disseram "isto é uma droga". Já disseram "podem tirar as pessoas dos paliativos mas não os paliativos das pessoas". É um bicho que nos muda por dentro. Tipo bicho da Madeira, mas que em vez de destruir constrói. Ou destrói o que lá estava para construir uma cosia nova.

Este texto vem muito fora de tempo. Vem muito tarde. Desculpem. Mas mesmo agora, a escrevê-lo, sei que as minhas palavras não vão chegar para dizer tanta coisa que só nós sabemos. Melhor assim talvez. Imagino que o V., se alguma vez ler isto, se ria e fale do excesso de sentimentalismo. Talvez tenha razão. Talvez seja um exagero, mas na verdade, foi exageradamente que senti a minha saída. Vir-me embora não foi difícil. Difícil foi vocês ficarem. Não porque acho que fiquem mal ou por outra razão qualquer. Apenas porque não vos pude trazer comigo. 

Já lá estive. Já não sei aquelas paredes como minhas, já não sei aqueles toques, aqueles truques, já nada daquilo sou eu, a minha vida. Já nem sequer desejo ou tenho saudades. Não sei se alguma vez sequer senti saudades. Mas vocês são outra história. Vocês são a minha história, a história dos meus últimos 9 anos. Das caras novas, e foram tantas para mim, das discussões velhas, dos desafios e dos fracassos. Os almoços, os jantares, os casamentos e os miúdos. Nove anos de mudança constante e de constantes constâncias. Vocês são outra história. Das conversas pseudo consultas, dos cigarros e das escadas. Dos risos às gargalhadas, dos doces, da louça desaparecida ou suja no lava louça, nunca arrumada nos sítios certos. Sabe Deus o mistério dos talheres desaparecidos.

Acontecem tantas coisas em nove anos. Tantas que não têm conta nem dão para contar. Ficam cá dentro. Para não esquecer. Porque vocês são outra história.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Top 5 dos arrependimentos no fim de vida

1 - ter vivido a vida que os outros esperavam que vivesse, ao invés da vida que queria ter vivido

2 - ter trabalhado de mais

3 - não ter expressado as emoções da melhor forma

4 - não ter mantido o contacto com os meus amigos

5 - não me ter permitido ser mais feliz.

Isto não é invenção minha. a fonte é o The Guardian, que publicou um estudo realizado por uma enfermeira britânica, em Unidades de Cuidados Paliativos, e que nas suas conversas com os seus doentes, recolheu a informação necessária para construir este top 5.
Eu já sabia isto. Eu já vi isto, eu já ouvi isto. Muitas vezes, de muitas formas, até quando uma pessoa que teve uma carreira brilhante, das mais brilhantes que conheci, me disse que nada disso interessava, compreendia agora, porque não tinha acompanhado a família.
Mas ler um estudo, publicado numa outra língua, com validade científica, é outra coisa. Tem outro impacto. Sobre mim, que me habituei a seleccionar muito bem o que lia e a veracidade do que era dito. E ao ter sobre mim, tem forçosamente sobre a minha vida. Tem de ter. É obrigatório que tenha. "Sê a mudança que queres que aconteça". Temos de pensar sobre isto. A vida é a que há. Não há rosas, nem nuvens de algodão doce. Há o que há. E nem sempre é fácil olhar para o que há e descobrir-lhe algo de positivo, ou de bom. Mas o esforço é uma obrigação. Se quero a minha vida melhor. O queixume e a lamuria, a falta de planeamento e empenho, o cansaço de que tudo o que é mau, de tudo o que tolhe e encolhe, de todas as decisões que nos sentimos obrigados a tomar fazem-nos pequenos. Cada vez mais pequenos. Temos medo, porque achamos conforto no que não nos obriga a arriscar.

Um dia, vi no TED uma palestra sobre como podemos utilizar o medo a nosso favor. Recorrendo à "productive paranoia", uma estratégia que nos obriga a enunciar tudo o que pode correr mal e o que poderemos fazer para ultrapassar ou evitar esses acontecimentos. Fi-lo. Estou numa situação privilegiada, não tenham dúvidas, que eu também não as tenho. Não tive só coragem, tive e tenho muitas ajudas. Mas podia não o ter feito. Podia ter assumido que o risco era demasiado grande e que era preciso esperar pela melhor altura. Pelas condições certas. Podia ter esperado. E no fim os meus arrependimentos fazerem parte daquele top 5.

Juntem-se. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

no meio das coisas todas que existem para dizer, ouça-se primeiro isto

You say you're not gonna fight
'Cause no one would fight for you
And you think there's not enough love
And no one to give it to
And you're sure you've hurt for so long
You've got nothing left to lose
So you say you're not gonna fight
'Cause no one would fight for you

You say the weight of the world
Has kept you from letting go
And you think compassion's a flaw
And you'll never let it show
And you're sure you've hurt in a way
That no one will ever know
But someday the weight of the world
Will give you the strength to go

Hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
So hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
So hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
Just hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
 lamechiches via "Robot Boy" dos Linkin Park

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Estou a tentar voltar

Normalmente não me calo por não ter nada para dizer. Na amador parte das vezes é exactamente o contrário. 
Calo-me porque tenho a cabeça cheia de coisas, pensamentos, dúvidas e cenas semelhantes, que se enrodilham, misturam, dão nós. Esta sobrepopulação cerebral só por si é cansativa, o que me deixa depois sem energia para tentar desembaraçar o que para aqui vai.
Foi o que me aconteceu agora. Cenas a mais na mesma vida, só uma voz para as contar, e aí uma pessoa para as resolver. Passou o mais tumultuoso, vem aí o pior. Para depois chegar ao melhor, espero. 
Voltei. E há tanta coisa para dizer.