Medir-nos usando a régua dos outros é um dos maiores erros que podemos fazer. É isto. E isto funciona quer quando nos medimos pela régua dos que estão melhores que nós, quer quando nos medimos pela régua de quem está pior do que nós.
Em palavras simples, eu sei que estou muito melhor do que as pessoas que, neste momento, atravessam alguns países da Europa, ao frio e à fome, com os filhos nos braços, para tentarem chegar a outro país, com uma língua distante da sua onde, com sorte, serão aceites e encontrarão melhores condições do que as que tinham no seu país. Digo com sorte porque até mesmo atingindo o objectivo da chegada poderão não atingir o objectivo da permanência. Eu sei que nem sequer sei o que é pensar estar assim.
Também sei que há pessoas que estão melhor do que eu: mais felizes, menos preocupadas, mais tranquilas do que eu. Com mais segurança no futuro, menos dúvidas e ansiedades quanto ao que conseguiremos fazer ou dar aos filhos.
Mas saber isto adianta pouco à minha vida. No limite, pode prejudicar os meus próprios planos para o futuro, se me deixar enredar quer no comodismo que deriva da ideia "há pessoas muito piores do que eu, não me posso queixar de nada, deixa-te lá estar quieta". Ou se me deixar no negativismo que a inveja pode causar "nunca hei de ter o que aquela tem, por isso mais vale estar quieta". Viver em comparação põe em comparação o que está por fora. E não o que está por dentro. Não conseguimos comprar o que somos e a nossa história com a história de qualquer outra pessoa. Não somos essa pessoa, não lhe vivemos a vida. Vivemos a nossa.
Por favor não me interpretem mal. A tragédia humanitária dos refugiados não me passa ao lado. O que estou a escrever tem outro propósito e outro motivo. O que estou a escrever é para me relembrar que quero ter sempre um outro sítio onde chegar: que me faça melhor, a mim e a quem me rodeia. E para me relembrar que para esse objectivo acontecer são os meus pés que lá me vão levar. Isto tudo porque ando a passar alguns dos meus dias com miúdos que não têm objectivos. Que não têm expectativas. Que não se têm respeito porque nunca foram respeitados, porque as pessoas que as rodeiam não se respeitam. Porque, como percebi hoje, vivem em comparações inúteis e autodestrutivas que as mantêm num ciclo sem futuro. Para elas e para quem vem a seguir a elas. É triste como é fácil matar para sempre a vida futura de alguém. De uma família inteira, durante muitas gerações.
Até aparecer alguém que tenha a coragem de quebrar o ciclo. Só que quebrar estes ciclos é difícil, porque quem os quer quebrar há de ser encarado como uma ovelha negra, como um maniento, arrogante, não há de ter apoios e há de ser olhado com desconfiança. É triste ver isto acontecer.
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