ora as conversas às vezes são inteligentes, valha-nos isso, e até a mitologia grega consegue ser citada. não estamos mal e podemos, de vez em quando, orgulhar-nos das nossas capacidades.
ora então voltemos a Sísifo e às suas pedras. e ao movimento inútil das suas pedras. ontem, por causa do post de ontem, e por causa dos buracos onde nos encontramos e onde perduramos, falou-se de Sísifo e a questão levanta-se: o que ensina Sísifo? A capacidade de não desistir ou a persistência no erro?
Ninguém sai do seu buraco a não ser que queira. A não ser que dentro de si alguma campainha toque e determine que está na hora de andar para a frente. ninguém se mexe a não ser que, mais ou menos de repente, a sua cabeça e o seu coração reconheçam como erro o que se andou a fazer repetidamente. isso sei eu. eu sou psicóloga e sei que as pessoas põe os pés ao caminho quando querem - e este quando querem quer também dizer quando conseguem, quando finalmente as coisas passam a fazer sentido ou a deixar de o ter. o que os outros nos vão dizendo, à medida que vamos cavando o nosso buraco tem pouco que se lhe diga, tem pouco efeito, pouco impacto. no fundo, no fundo, lá no fundo do nosso buraco, não lhes reconhecemos capacidade ou valor ou sequer conhecimentos para que possam alvitrar sobre o que se passa connosco. e continuamos a cavar.
mas na realidade, em muitos momentos, sabemos que eles têm razão. até podemos achar que. a viver a nossa vida, cavariam um buraco tão grande, ou até maior, do que o nosso. sabemos que falam da boca para fora, mas sabemos que têm razão. que o erro existe, está lá, para toda a gente ver. para nós às vezes é tão doloroso que nos entra pelos olhos dentro. persistimos porque queremos ou porque não conseguimos deixar de persistir. estamos como Sísifo agarrados às nossas pedras e ao seu movimento inútil. e continuamos a cavar, mesmo quando metade da nossa cabeça já nos grita: PÁRA. e nós continuamos.
para mim, é deixar as pedras onde estão. saltar-lhes por cima, sacudir a cabeça e as mãos e pensar que não temos de morrer com tudo resolvido. às vezes, há coisas que não se resolvem. pelo menos não neste tempo de vida. saltar-lhes por cima usando-as como degraus: transformar fraquezas em forças, assumir o porquê de termos cavado o buraco, assumir as razões feias, porcas e más que nos levaram a cavar o buraco e usar isso como escudo, como lança e como bengala e andar para a frente sabendo do que nos faz cair. sem medo. as pedras hão de resvalar, todos sabemos. nada na vida se mantém, tudo é temporário. já o disse tantas vezes: até a vida é temporária.
Sísifo não ensina, porque Sísifo estava a aprender: o seu arrastar de pedras foi castigo de se meter com quem mais mandava. quem mais manda que eu aqui, só eu. só eu me posso condenar a arrastar pedras.
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