Primeiro dia fora de casa. Tudo pareceu diferente. O sol, o cheiro do ar, os movimentos do corpo. Tinha dinheiro na mão e podia sair dali. Mas não encontrava justificação forte o suficiente para o fazer. Que diferença faria ali ou noutro sítio qualquer? Estava condenada a quem não fizesse perguntas, e as únicas pessoas que não as fazem são as que também não querem dar respostas.
Lembrou-se de dias longe, de uma viagem com amigos, em que tinha tomado consciência da simplicidade da felicidade. Iam passar o dia juntos fora da cidade, era muito cedo, mas só tinham dinheiro para irem de comboio. A alternativa foi então sair de madrugada. Mas entre o sono, a dificuldade em começar conversas e os bancos desconfortáveis, ao olhar em volta soube a felicidade.
Aqui as possibilidades eram imensas. Estava presa a nada, podia o que quisesse. O preço desta falsa liberdade seria eternamente pago, e não só por ela, mas a verdade é que a liberdade, falsa ou não, existia.
Deu por si parada e com olhos em cima de si. Olhos que a tinham visto sair de uma casa onde ninguém entrava, mas que todos olhavam com curiosidade. E ela, a única que lá entrava dentro, para além do casal que lá vivia, claro está, era também a única que não tinha qualquer ideia sobre os motivos de toda aquela curiosidade.
Andou pelos passeios. A vila era maior do que se lembrava, do que se tinha apercebido quando chegou. Havia algumas lojas e passou por 2 escolas. A maior parte das casas eram vivendas, mas se levantasse os olhos via ao fundo, mais para o lado da fábrica, bairros onde os prédios tinham 3 e 4 andares. Voltou a olhar para a porta de onde tinha saído, e na verdade o que se via era um café normal, com uma entrada arranjada e cuidada. Perguntou-se porque não teria mais movimento do que o nocturno, e depois respondeu-se "por causa daquilo, claro". Só que não sabia o que era aquilo.
Sentiu-se estúpida e sem saber o que fazer. Percebeu que tinha andado às voltas, se não não estaria no mesmo lugar. Andou mais. Até ter frio.
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