Este texto vem muito fora de tempo. Vem muito tarde. Desculpem. Mas mesmo agora, a escrevê-lo, sei que as minhas palavras não vão chegar para dizer tanta coisa que só nós sabemos. Melhor assim talvez. Imagino que o V., se alguma vez ler isto, se ria e fale do excesso de sentimentalismo. Talvez tenha razão. Talvez seja um exagero, mas na verdade, foi exageradamente que senti a minha saída. Vir-me embora não foi difícil. Difícil foi vocês ficarem. Não porque acho que fiquem mal ou por outra razão qualquer. Apenas porque não vos pude trazer comigo.
Já lá estive. Já não sei aquelas paredes como minhas, já não sei aqueles toques, aqueles truques, já nada daquilo sou eu, a minha vida. Já nem sequer desejo ou tenho saudades. Não sei se alguma vez sequer senti saudades. Mas vocês são outra história. Vocês são a minha história, a história dos meus últimos 9 anos. Das caras novas, e foram tantas para mim, das discussões velhas, dos desafios e dos fracassos. Os almoços, os jantares, os casamentos e os miúdos. Nove anos de mudança constante e de constantes constâncias. Vocês são outra história. Das conversas pseudo consultas, dos cigarros e das escadas. Dos risos às gargalhadas, dos doces, da louça desaparecida ou suja no lava louça, nunca arrumada nos sítios certos. Sabe Deus o mistério dos talheres desaparecidos.
Acontecem tantas coisas em nove anos. Tantas que não têm conta nem dão para contar. Ficam cá dentro. Para não esquecer. Porque vocês são outra história.
Este texto é fabuloso e faz-me acreditar que as palavras se recriam e reconstroem cada vez que as usamos. Que as usamos assim! Como dizia o poeta, nove anos é muito tempo, tanto, que nem cabe aí. E o mistério, esse, é aquilo que ao destruir vai construindo. É preciso estar atento para dar conta disso e a Cristina está. Que bom ter-me cruzado consigo. Luís Quintino
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