terça-feira, 23 de maio de 2017

Parte 9

Estava frio e não havia alternativas. Ou melhor, tinha todas as alternativas do mundo, era só escolher. Não tinha todas as alternativas do mundo, havia uma que não era uma alternativa. Nem sequer se podia pensar, nem dizer, muito menos desejar. No fim, deu por si a caminhar de volta à porta por onde tinha saído.
Não hesitou quando entrou. Não havia o que fazer. A ideia de que temos sempre alternativa é mentira. Às vezes ficamos presos, obrigados a andar apenas num sentido, sem poder procurar por onde fugir. Tinha pensado que o tempo fizesse coisas, não fazia, não tinha feito. Pelo menos em feridas tão profundas. Empurrou a porta e ficou mais consolada quando viu o café vazio. Ainda não eram horas de aparecerem os clientes regulares, só mais tarde, depois do jantar.

Quando a vi entrar fiquei mais descansado, a angústia desapareceu. Mas ela parecia mais desanimada do que quando tinha chegado da primeira vez. Olhei para ela enquanto se sentou, e vi a miséria humana personificada naquele corpo miudinho. Também tinha rugas como as da minha mulher. Não as da idade, as da tristeza e do sofrimento.

Estava vazia, sentia-me vazia, queria olhar para mim e não me via. Não sabia o que dizer nem o que pensar de mim. Não existia. Lembro-me de me sentar e olhar para o chão e sentir-me tonta, ter vómitos, sentir o mundo andar às voltas. Lembro-me de tudo isto. A vida passou-se muitas vezes em câmara lenta, para que eu tivesse sempre tempo de memorizar todos os detalhes dos momentos. Esse foi um deles. Lembro-me de estar sentada a sentir-me desmaiar e ter pensado que se calhar a misericórdia divina existia e aquele era o momento da morte. Não foi, claro. 

Só uma tontura, já passou. Desculpe ter demorado tanto tempo. Já há muito tempo que não sentia o ar da rua. Fez-me bem. Ela precisou de alguma coisa? 

Não, de nada. Está habituada a estar sozinha.

Não precisa de nada porque se mexe. Porque não é incapaz de fazer o que seja. Só de ser boa pessoa. Odeio-a. Pensou tudo isto, e nada disto disse, claro. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Perguntou: não têm filhos?

As lágrimas vieram-lhe aos olhos: já tivemos.

Eu também. Já tive. Não souberam quando se abraçaram nem como se chegaram junto um do outro. Ficaram assim, qual pai e filha, a consolarem-se das dores que não davam a conhecer.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Há tanto tempo que não falamos disto

Vamos lá espernear sobre a maternidade.

Cá por casa a coisa corre melhor, fora o facto de nos apercebermos que a pré adolescência está agora a começar aos 6 anos. Felicidade, que felicidade. Só nos falta subir a uma cadeira e cantar o Aleleuia. Enfim. Passemos à frente.
O que melhorou a sério, mas mesmo a sério, para grande alegria da minha vida e do meu cérebro e da minha sanidade mental foram as noites. Agora dorme-se cá em casa. A noite INTEIRA. Sim, isto tem direito a CAPS LOCK. Sem qualquer sombra de dúvida. Durmo, logo sou mais feliz. Mas.... no outro dia, ou melhor, na outra noite sucedeu que, no exacto momento em que eu ia adormecer, mas mesmo mesmo no exacto momento em que eu me passava para as terras de Orfeu, há choro que me arranca do sono. Mães deste mundo e o sofrimento que isto provoca? Acordarem-nos exactamente no momento em que o sono está a instalar-se? Dor. Dor. Dor.
Levantei-me e fui serenar os ânimos. Nada demais, tudo tranquilo. Adormeceu. Volta para a cama. E aqui vou eu. Olhos fechados, corpo na posição certa a relaxar, respiração cada vez mais profunda e... barulho de passos. Esta m... não me está a acontecer. Ca#%$£€ pá. Não, não são passos, estás é a alucinar. São. Tu não querias, mas são. São passos que se dirigem à tua cama. Abre os olhos e nega o sono. Mais uma vez. Cena seguinte: deito as mãos ao telemóvel para ter luz e, sem óculos, vejo a melhor cena do mundo a acontecer no meu quarto. A criança está de frente para a parede, no canto do quarto, qual filme de terror. Enganou-se no caminho e está presa entre o roupeiro e o puff. Ri-te, mas dos nervos e levanta-te. Acalma o choro, dá colo e leva a criança para a cama. Cérebro em modo pudim, a mendigar sono.
Vai dormir. Que se lixe, adormece mesmo nesta cama que não é a tua. Muahahahaha não. Eu sei que queres. Eu sei que tens mesmo de dormir. Eu sei que estou feito num 8, que estás toda queimadinha das carochas, que estás mesmo a começar a alucinar do cansaço. Caguei. Agora não me apetece dormir. É isto que o filho da p... do meu cérebro diz, depois de lhe ter negado o sono. Faz birra. E não se apaga. Melhor, viaja. E eu quero não pensar nas merdas todas que aconteceram, vão acontecer ou que eu tenho de fazer e ele não deixa. Tento tudo o que sei: exercícios respiratórios, de relaxamento, de imagética mental. Tudo. E nada. Sinto que já não tenho cérebro dentro da caixa craniana, que me dói, à séria. Dor. Dor. Dor.
Não sei como adormeço, nem quando, na minha cama. Mas sei que o despertador tocou. Tito antes do que devia. Afinal não, são mesmo horas de levantar.
Se Te olho sentada e sem baixar os olhos não duvides nunca da minha certeza de Ti. Nunca. Acredito sem medo nem dúvidas, mas com perguntas. Não por duvidar mas por querer saber de Ti. Não mais, porque o que Dás chega, mas por Te saber grande e querer aprender, pergunto para saber o sentido, para saber o quê e porquê. Num mundo que não acaba de decisões que tomas, misturadas que estão na liberdade que nos Dás para decidir sobre o que fazemos, pergunto muitas vezes para onde isto tudo vai. Para onde Deixas que tudo isto vá, para onde nos Deixas ir, e porquê. 

Duvido do que fazemos com 

a capacidade de visão que nos Deste, duvido da permanência do Amor que acredito ser a base do que Construíste, com todas as caras que acredito Teres escolhido tomar. Aqui e de todos os outros lados do mar, com uma ou muitas caras, com tantos nomes e em tantas línguas. Do Amor que temos de guardar aos outros, que não soubemos guardar dentro de nós para nos dar e aos outros. Amor que não está, que está esquecido, que deixámos algures para nos olharmos só, num espelho que não existe mas não nos deixa ver mais nada para além de nós. Para nos poupar das nossas inseguranças. Ganhou o medo, foi isto. A liberdade prendeu-nos no medo. E quando submersos no medo, há que manter as fronteiras seguras, há que concentrar energias e olhar apenas para o que se conhece, para o que conforta, para nada mais. 

Levanto os olhos e pergunto-me o que Pensas, onde Sorris e se há a possibilidade de Chorares. Será que Deus chora? Será que Deus lamenta e sente arrependimento ou frustração? Como será que se vive o processo de desaprendizagem que toda uma Criação está a viver? Levanto os olhos e sereno porque sei que Estás. Mas não sei se Vais ficar. Será que Te conseguiremos perder? Quando nos perdermos, que Te acontecerá? A delicadeza da causa humana depende de nós, não de Ti. E estamos de olhos fechados a isso. E de olhos fechados nada se vê, nada se cria, nada existe. E de olhos fechados poderemos morrer de pé e sozinhos, todos juntos, como uma floresta de árvores secas, de galhos estendidos para cima, à espera duma resposta.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Parte 8

Quando ela saiu, naquela primeira vez, e depois de lhe ter posto dinheiro na mão, acreditou que tinha ficado sozinho outra vez. Não soube sequer quanto tempo ficou a olhar para a porta, a pensar que lhe devia ter dito, que lhe devia ter pedido, para voltar. Por favor, não se vá embora.

Não sabia dizer de onde vinha aquela dependência súbita, nem sequer sabia dizer o que tinham representado aqueles seis meses na sua vida. Falavam pouco, raramente passavam tempo juntos, não sabia mais dela do que quando ela tinha chegado. Mas a sua existência, saber que ela lá estava, em casa, a acompanhá-la a ela, descansava-o. E dava-lhe uma folga que ele não tinha sentido durante anos, como se a carga fosse agora mais leve, mesmo que não fosse totalmente partilhada. O peso não era o de tratar da mulher. O que custava não era o banho, ou a cadeira de rodas. Era o silêncio imposto. Ainda se lembrava, claro que se lembrava, do dia em que, depois de ter acontecido o que aconteceu, alguns meses mais tarde depois daquela noite estúpida, a mulher ter olhado para ele, ter abanado a cabeça e ter dito, ao mesmo tempo que baixava os ombros: não posso mais. Não a conheceu nesse momento. Ela tinha sempre podido tudo. Tinham casado por causa disso, porque ela podia tudo. Tudo o que tinha acontecido desde o momento em que se tinham conhecido até àquele momento em concreto, até àquela frase, tinha acontecido porque ela tinha podido. Muitas vezes pelos dois. Tantas vezes pelos dois que muitas vezes ele se tinha perguntado porque é que ela precisava dele, ou porque é que ela o queria.

Ia fazer 70 anos. Não parecia, ninguém acreditava, nem ele. Não sabia onde se tinham enfiado os últimos 35 anos. O que tinha acontecido naqueles dias todos que perfaziam 35 anos, não sabia dizer. Tinham passado, só. Sem deixar marca. A marca daquela noite tinha sido tão grande, não tinha deixado espaço para mais nada. Estes anos todos tinham trazido muitas rugas à cara da mulher. Tinha-as visto chegar a todas. Todas as noites, quando ela já estava a dormir, ou a fingir, fingiam muito que dormiam, tanto ele como ela, olhava profundamente para ela. Queria ver para lá dos olhos fechados e da respiração mais descansada. E tinha-as visto chegar. Primeiro as da tristeza. Essas foram súbitas, a acompanhar as lágrimas. Depois as da realidade irrevogável, as que escreveram a certeza do sofrimento irreparável e perpétuo. Essas eram fundas, tinham alterado a cara, tinham impedido os sorrisos. Só depois tinham chegado as da idade. As últimas, que comparadas com as anteriores tinham significado nada.

Eram casados e tinham silêncio entre eles. E a chegada daquela mulher, daquela rapariga, tinha aliviado o peso desse silêncio. O peso da culpa de não querer estar em casa. O peso da culpa de achar que já tinha ultrapassado o que tinha acontecido, ao contrário da mulher, que estava presa num momento da vida que tinha já 35 anos.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Parte 7

Primeiro dia fora de casa. Tudo pareceu diferente. O sol, o cheiro do ar, os movimentos do corpo. Tinha dinheiro na mão e podia sair dali. Mas não encontrava justificação forte o suficiente para o fazer. Que diferença faria ali ou noutro sítio qualquer? Estava condenada a quem não fizesse perguntas, e as únicas pessoas que não as fazem são as que também não querem dar respostas. 
Lembrou-se de dias longe, de uma viagem com amigos, em que tinha tomado consciência da simplicidade da felicidade. Iam passar o dia juntos fora da cidade, era muito cedo, mas só tinham dinheiro para irem de comboio. A alternativa foi então sair de madrugada. Mas entre o sono, a dificuldade em começar conversas e os bancos desconfortáveis, ao olhar em volta soube a felicidade.
Aqui as possibilidades eram imensas. Estava presa a nada, podia o que quisesse. O preço desta falsa liberdade seria eternamente pago, e não só por ela, mas a verdade é que a liberdade, falsa ou não, existia.
Deu por si parada e com olhos em cima de si. Olhos que a tinham visto sair de uma casa onde ninguém entrava, mas que todos olhavam com curiosidade. E ela, a única que lá entrava dentro, para além do casal que lá vivia, claro está, era também a única que não tinha qualquer ideia sobre os motivos de toda aquela curiosidade. 
Andou pelos passeios. A vila era maior do que se lembrava, do que se tinha apercebido quando chegou. Havia algumas lojas e passou por 2 escolas. A maior parte das casas eram vivendas, mas se levantasse os olhos via ao fundo, mais para o lado da fábrica, bairros onde os prédios tinham 3 e 4 andares. Voltou a olhar para a porta de onde tinha saído, e na verdade o que se via era um café normal, com uma entrada arranjada e cuidada. Perguntou-se porque não teria mais movimento do que o nocturno, e depois respondeu-se "por causa daquilo, claro". Só que não sabia o que era aquilo.

Sentiu-se estúpida e sem saber o que fazer. Percebeu que tinha andado às voltas, se não não estaria no mesmo lugar. Andou mais. Até ter frio.