terça-feira, 16 de maio de 2017

Parte 8

Quando ela saiu, naquela primeira vez, e depois de lhe ter posto dinheiro na mão, acreditou que tinha ficado sozinho outra vez. Não soube sequer quanto tempo ficou a olhar para a porta, a pensar que lhe devia ter dito, que lhe devia ter pedido, para voltar. Por favor, não se vá embora.

Não sabia dizer de onde vinha aquela dependência súbita, nem sequer sabia dizer o que tinham representado aqueles seis meses na sua vida. Falavam pouco, raramente passavam tempo juntos, não sabia mais dela do que quando ela tinha chegado. Mas a sua existência, saber que ela lá estava, em casa, a acompanhá-la a ela, descansava-o. E dava-lhe uma folga que ele não tinha sentido durante anos, como se a carga fosse agora mais leve, mesmo que não fosse totalmente partilhada. O peso não era o de tratar da mulher. O que custava não era o banho, ou a cadeira de rodas. Era o silêncio imposto. Ainda se lembrava, claro que se lembrava, do dia em que, depois de ter acontecido o que aconteceu, alguns meses mais tarde depois daquela noite estúpida, a mulher ter olhado para ele, ter abanado a cabeça e ter dito, ao mesmo tempo que baixava os ombros: não posso mais. Não a conheceu nesse momento. Ela tinha sempre podido tudo. Tinham casado por causa disso, porque ela podia tudo. Tudo o que tinha acontecido desde o momento em que se tinham conhecido até àquele momento em concreto, até àquela frase, tinha acontecido porque ela tinha podido. Muitas vezes pelos dois. Tantas vezes pelos dois que muitas vezes ele se tinha perguntado porque é que ela precisava dele, ou porque é que ela o queria.

Ia fazer 70 anos. Não parecia, ninguém acreditava, nem ele. Não sabia onde se tinham enfiado os últimos 35 anos. O que tinha acontecido naqueles dias todos que perfaziam 35 anos, não sabia dizer. Tinham passado, só. Sem deixar marca. A marca daquela noite tinha sido tão grande, não tinha deixado espaço para mais nada. Estes anos todos tinham trazido muitas rugas à cara da mulher. Tinha-as visto chegar a todas. Todas as noites, quando ela já estava a dormir, ou a fingir, fingiam muito que dormiam, tanto ele como ela, olhava profundamente para ela. Queria ver para lá dos olhos fechados e da respiração mais descansada. E tinha-as visto chegar. Primeiro as da tristeza. Essas foram súbitas, a acompanhar as lágrimas. Depois as da realidade irrevogável, as que escreveram a certeza do sofrimento irreparável e perpétuo. Essas eram fundas, tinham alterado a cara, tinham impedido os sorrisos. Só depois tinham chegado as da idade. As últimas, que comparadas com as anteriores tinham significado nada.

Eram casados e tinham silêncio entre eles. E a chegada daquela mulher, daquela rapariga, tinha aliviado o peso desse silêncio. O peso da culpa de não querer estar em casa. O peso da culpa de achar que já tinha ultrapassado o que tinha acontecido, ao contrário da mulher, que estava presa num momento da vida que tinha já 35 anos.

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