Não hesitou quando entrou. Não havia o que fazer. A ideia de que temos sempre alternativa é mentira. Às vezes ficamos presos, obrigados a andar apenas num sentido, sem poder procurar por onde fugir. Tinha pensado que o tempo fizesse coisas, não fazia, não tinha feito. Pelo menos em feridas tão profundas. Empurrou a porta e ficou mais consolada quando viu o café vazio. Ainda não eram horas de aparecerem os clientes regulares, só mais tarde, depois do jantar.
Quando a vi entrar fiquei mais descansado, a angústia desapareceu. Mas ela parecia mais desanimada do que quando tinha chegado da primeira vez. Olhei para ela enquanto se sentou, e vi a miséria humana personificada naquele corpo miudinho. Também tinha rugas como as da minha mulher. Não as da idade, as da tristeza e do sofrimento.
Estava vazia, sentia-me vazia, queria olhar para mim e não me via. Não sabia o que dizer nem o que pensar de mim. Não existia. Lembro-me de me sentar e olhar para o chão e sentir-me tonta, ter vómitos, sentir o mundo andar às voltas. Lembro-me de tudo isto. A vida passou-se muitas vezes em câmara lenta, para que eu tivesse sempre tempo de memorizar todos os detalhes dos momentos. Esse foi um deles. Lembro-me de estar sentada a sentir-me desmaiar e ter pensado que se calhar a misericórdia divina existia e aquele era o momento da morte. Não foi, claro.
Só uma tontura, já passou. Desculpe ter demorado tanto tempo. Já há muito tempo que não sentia o ar da rua. Fez-me bem. Ela precisou de alguma coisa?
Não, de nada. Está habituada a estar sozinha.
Não precisa de nada porque se mexe. Porque não é incapaz de fazer o que seja. Só de ser boa pessoa. Odeio-a. Pensou tudo isto, e nada disto disse, claro. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Perguntou: não têm filhos?
As lágrimas vieram-lhe aos olhos: já tivemos.
Eu também. Já tive. Não souberam quando se abraçaram nem como se chegaram junto um do outro. Ficaram assim, qual pai e filha, a consolarem-se das dores que não davam a conhecer.
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