Hoje é dia 29 de Junho. Hoje, se fosse vivo o meu avô faria 83 anos.O meu avô morreu há quase 4 anos. Falo nele muitas vezes, porque o que lhe aconteceu no fim de vida e que. no limite, causou a morte dele foi de livro. Como trabalho na área em que trabalho, o que aconteceu ao meu avô e com o meu avô marcou-me de muitas maneiras. E mostrou-me o que é importante fazermos na vida. O meu avô foi operado duas vezes, porque quis, sempre sabendo que podia morrer. E fê-lo porque a vida não tem, nem deve, de ser vivida só porque sim, ou só nas condições em que se apresenta. Às vezes é preciso arriscar, mesmo que isso queira dizer que pomos em risco a vida em si.
Hoje, por muitas razões, ainda bem que era o aniversário dele. Porque, de outra maneira, teria sido muito difícil ver este dia acabar.
Não vou dizer parabéns avô. Espero que ele tenha conseguido seguira sua vida e que não viva agarrado ao que e a quem cá deixou (sim, eu acredito nestas coisas). E por isso não o quero prender como meu. Já foi. Mas ainda bem que hoje é o dia em que ele fazia anos. E ainda bem que foi meu avô.
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Eu e o Walt Disney
Nas histórias de encantar as madrastas são más. bem, não são só más: a da Branca de Neve era bruxa e tentou matá-la, o que cai um bocadinho para lá da categoria de má. Nós, portugueses, temos uma expressão que demonstra o lado habitualmente negativo desta palavra: "a vida é madrasta". Tantas vezes dita, esta frase feita é dita sem termos muita atenção às palavras que a constituem.
E aqui começa a minha saga.
As amigas da minha enteada começam a perceber que eu existo. E a dar-me importância. Na realidade, acho que encaram a experiência de falar comigo quase como eu encaro a experiência da montanha russa. Olho para ela e sei que é um desafio, sei que é assustadora, sei que me vai custar e me vai por o coração aos pulos. Mas vou na mesma, só para no fim me poder rir e dizer: consegui.
É neste espírito que me abordam estas pessoas pequeninas, Um misto de "eu não tenho medo de ti mas é melhor que não te chegues muito perto que eu não tenho a certeza que a coragem chegue para tudo". Olham para mim e começam pela pergunta de teste "és a mãe?" (já sabem a resposta, estão só a testar-me). Respondo que não e dou seguimento à conversa, tal como querem que aconteça: "sou a madrasta". Sorriem: encontraram o bicho e o bicho assumiu-se. Vitória, primeira vitória. Às vezes repetem a palavra, em estilo interrogativo "a madrasta?". Sim, sou eu. E depois apressam-se a perguntar "mas és boazinha não és?". Acho que precisam de se assegurar que a amiga não está nas mãos de uma psicopata qualquer que vai tentar sufocá-la com uma fruta qualquer. Na última conversa, tive de explicar o que é uma madrasta. como é que ela surge. Tentem explicar a uma criança que sou madrasta porque vivo com o pai da criança: como é que uma figura tão má como é a de uma madrasta nasce da convivência entre duas pessoas na mesma casa. É brilhante. Tenho de sorrir. Este medo misto de assombro e de descoberta - afinal as histórias de encantar não contam a história toda - é maravilhoso. E assustador. Pressupõem que sou má porque nas histórias as madrastas são más. fazem mal e têm um péssimo fundo. E não entendem como pode ela fazer-me festas e dar-me beijinhos. O mundo delas entra em contradição na minha presença. Eu vou contra o meu papel, contra a herança que o Walt Disney me deixou, quando criou o filme da Branca de Neve, e depois da Cinderella e, mais recentemente, o da Rapunzel. Eu não sou o que o Walt Disney andou a dizer que as madrastas são.
Se vocês vissem a cara dos outros adultos que ouvem estas conversas quando eu as tenho. Não sei o que receiam mais: que eu não seja capaz de ter esta conversa adequadamente ou que eu seja capaz de a ter. Acho que mesmo quando somos adultos as dúvidas persistem quanto à qualidade das madrastas que por aí há. Mas eu sou das boazinhas, prometo.
E aqui começa a minha saga.
As amigas da minha enteada começam a perceber que eu existo. E a dar-me importância. Na realidade, acho que encaram a experiência de falar comigo quase como eu encaro a experiência da montanha russa. Olho para ela e sei que é um desafio, sei que é assustadora, sei que me vai custar e me vai por o coração aos pulos. Mas vou na mesma, só para no fim me poder rir e dizer: consegui.
É neste espírito que me abordam estas pessoas pequeninas, Um misto de "eu não tenho medo de ti mas é melhor que não te chegues muito perto que eu não tenho a certeza que a coragem chegue para tudo". Olham para mim e começam pela pergunta de teste "és a mãe?" (já sabem a resposta, estão só a testar-me). Respondo que não e dou seguimento à conversa, tal como querem que aconteça: "sou a madrasta". Sorriem: encontraram o bicho e o bicho assumiu-se. Vitória, primeira vitória. Às vezes repetem a palavra, em estilo interrogativo "a madrasta?". Sim, sou eu. E depois apressam-se a perguntar "mas és boazinha não és?". Acho que precisam de se assegurar que a amiga não está nas mãos de uma psicopata qualquer que vai tentar sufocá-la com uma fruta qualquer. Na última conversa, tive de explicar o que é uma madrasta. como é que ela surge. Tentem explicar a uma criança que sou madrasta porque vivo com o pai da criança: como é que uma figura tão má como é a de uma madrasta nasce da convivência entre duas pessoas na mesma casa. É brilhante. Tenho de sorrir. Este medo misto de assombro e de descoberta - afinal as histórias de encantar não contam a história toda - é maravilhoso. E assustador. Pressupõem que sou má porque nas histórias as madrastas são más. fazem mal e têm um péssimo fundo. E não entendem como pode ela fazer-me festas e dar-me beijinhos. O mundo delas entra em contradição na minha presença. Eu vou contra o meu papel, contra a herança que o Walt Disney me deixou, quando criou o filme da Branca de Neve, e depois da Cinderella e, mais recentemente, o da Rapunzel. Eu não sou o que o Walt Disney andou a dizer que as madrastas são.
Se vocês vissem a cara dos outros adultos que ouvem estas conversas quando eu as tenho. Não sei o que receiam mais: que eu não seja capaz de ter esta conversa adequadamente ou que eu seja capaz de a ter. Acho que mesmo quando somos adultos as dúvidas persistem quanto à qualidade das madrastas que por aí há. Mas eu sou das boazinhas, prometo.
Aviso à navegação
Hoje, em princípio, este blog será aumentado de forma considerável, fruto dos posts que ando a escrever, mentalmente, de há uns dias para cá. Aguentem-se.
Somas e subtracções
De sexta a sábado estive quase 21 horas acordada. As últimas 2 quase a entrar em desespero total. De olhos abertos mas já com o corpo a dormir, queria mexer-me e o esforço tinha de ser sobre-humano. A fabulosa frase "a maternidade faz parte duma experiência que pretende provar que o sono não é essencial à vida humana" ressoa muitas vezes na minas cabeça. Somam-se as horas de cansaço. Mais umas quantas nesta senda interminável da infância dos nossos filhos. A puxar a corda uma e outra vez. admiro como o corpo funciona depois duma noite daquelas. E o que é certo é que funcionou, mais um bocadinho menos um bocadinho.
O momento não foi de soma. Foi de multiplicação a potenciação. Até o coração rebentar e eu me ver a sentir coisas nunca sentidas. Os miúdos a ver televisão de mão dada. Assim, espontaneamente. Explode-me o coração neste turbilhão de sentimentos positivos. Afinal no meio das coisas menos positivas que me vejo a fazer, muitas condicionadas pelo sono, muitas pelos meus defeitos e muitas pelo que não sei fazer, estão a acontecer coisas positivas. Não as faço sozinha, não dependem só de mim, e muito depende unicamente deles, dos putos maravilhosos que eles são e que construíram, tão pequenos, uma relação como esta. Abraçam-se sem ninguém lhes dizer o que quer que seja, acordam-se e odeiam-se e amam-se como irmãos. Somam-se as coisas positivas. E ultrapassam o que perco com as subtracções constantes às minhas horas de descanso.
Um dia hei de dormir tudo. Na altura que se hão de odiar e discutir e eu de perder o sono outra vez, a pensar em estratégias para que voltem a ser o que são agora.
Se calhar as somas e subtracções anulam-se, no final das contas. Mas as marcas que deixam as somas são maravilhosas, para lá do explicável, e neste ponto que se assenta a maravilha de termos filhos.
O momento não foi de soma. Foi de multiplicação a potenciação. Até o coração rebentar e eu me ver a sentir coisas nunca sentidas. Os miúdos a ver televisão de mão dada. Assim, espontaneamente. Explode-me o coração neste turbilhão de sentimentos positivos. Afinal no meio das coisas menos positivas que me vejo a fazer, muitas condicionadas pelo sono, muitas pelos meus defeitos e muitas pelo que não sei fazer, estão a acontecer coisas positivas. Não as faço sozinha, não dependem só de mim, e muito depende unicamente deles, dos putos maravilhosos que eles são e que construíram, tão pequenos, uma relação como esta. Abraçam-se sem ninguém lhes dizer o que quer que seja, acordam-se e odeiam-se e amam-se como irmãos. Somam-se as coisas positivas. E ultrapassam o que perco com as subtracções constantes às minhas horas de descanso.
Um dia hei de dormir tudo. Na altura que se hão de odiar e discutir e eu de perder o sono outra vez, a pensar em estratégias para que voltem a ser o que são agora.
Se calhar as somas e subtracções anulam-se, no final das contas. Mas as marcas que deixam as somas são maravilhosas, para lá do explicável, e neste ponto que se assenta a maravilha de termos filhos.
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Vou dizer-te a ti o que não lhe disse a ela
Mas provavelmente não. Queria dizer-te que escrevi isto para ti. Como escrevi para ela, não isto, mas outras coisas, e não lhe disse. Não disse porque não podia, porque os limites são os limites e ainda existem alguns que não sei como quebrar, rodear, esticar. Não lhe disse como gostei de escrever as palavras dela, como me fizeram sentido e como me fizeram sentido as palavras que ela me disse. Todas elas.
A merda é mesmo nunca mais irem acontecer aquelas nossas boas conversas. Essa é que é a grande verdade. É tão difícil ter uma boa conversa sobre a vida que quando a vida nos rouba oportunidades para as ter, se torna só estúpido. Odiei quando me lembraste disso. Tens toda a razão. Nunca mais vamos ter aquelas conversas boas.
Não vais saber disto porque provavelmente ela vai morrer hoje. Se é que já não morreu. E amanhã, quando eu aí chegar, tu já não vais estar e provavelmente vamo-nos "perder" e, sem ela, será que as conversas vão ser as mesmas ou ter o mesmo sabor?
Claro que não. Íamos olhar uma para a outra e lembrarmo-nos de hoje, quando chorámos as duas agarradas e tivemos pena, tu claramente mais do que eu, e por razões óbvias, mas eu também muita, de ela ir morrer, estar a morrer.
Vou deixar-te então assim, na minha ideia guardada e perfeita de como foi conhecer-vos, de como tivemos boas conversas, daquelas raras, daquelas enormes, daquelas que me fazem sorrir e chorar ao mesmo tempo. Vou deixar-te como ela perfeita, porque foi o que vocês foram e transmitiram ao mundo: a perfeição possível quando o mundo desaba e nos foge o chão.
Merda.
O problema é ignorarmos o instinto
Vou dar um exemplo simples. Muitos de nós bebemos menos água do que deveríamos beber. Muitas vezes porque nos (des)educamos a não beber, das mais variadas formas. Se respeitássemos o nosso instinto, à partida, beberíamos a água necessária para estarmos bem: os restantes animais só bebem menos água do que a que devem quando a ela não têm acesso em quantidades suficientes.
A vozinha que vive dentro da nossa cabeça (que muitos descrentes nestas coisas desvalorizam), para mim, está lá a representar o nosso instinto para as situações mais evoluídas, para as situações humanas, as que nos diferenciam do restante mundo animal. A famosa expressão do "eu bem sabia" existe por alguma razão. A vozinha fala e orienta-nos. E nós vamos muitas vezes contra ela. Acreditar no instinto é um movimento de fé. Fé em nós, nas nossas capacidades, na avaliação inconsciente que já fizemos da situação, mesmo ainda antes de pensarmos conscientemente sobre ela. Acreditar que a vozinha está certa é um risco. Porque muitas vezes também ela nos lança numa direcção inesperada, numa direcção em que não tínhamos pensado com cuidado, lança-nos em direcção a um desafio maior do que aquele a que, conscientemente, nos propomos.
Acho que é perceptível, a esta altura do blog, que me interessa como a nossa parte animal nos afecta a parte humana (isto como se os humanos pudessem não ser animais). Gosto da ideia de sermos unos, coesos, uma parte refém da outra e vice versa, gosto de como a nossa parte humana consegue forçar a nossa parte animal a ultrapassar os seus limites. Mas gosto de como a nossa parte animal nos condiciona e nos molda e como encontrou formas de se manifestar mesmo agora, que tentamos a todo o instante provar que não somos animais. E esta vozinha é sem sombra de dúvidas (minhas é claro) uma dessas formas.
É de confiar? O que é o instinto, a vozinha? Será que, por muitas vezes que possa ter estado certa no passado, está certa agora, desta vez? Porque nos puxa tantas vezes para o desconhecido, ou simplesmente afasta do conhecido? E quando nos diz "não vás por aí", que está a querer assinalar?
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Acreditar em sinais
Tudo o que fazemos, vemos ou sentimos passa por um processo de interpretação - primeiro automático e inconsciente, um processo dos nossos órgãos dos sentidos e do cérebro. Depois um processo semi consciente, onde as nossas memórias ajudam a seleccionar quais as informações que são mais relevantes e têm mais impacto sobre nós. E depois um processo totalmente consciente, durante o qual reflectimos sobre a informação que nos rodeia, que nos chegou, e decidimos o que fazer com ela.
Tudo é interpretação e por isso tudo é enviesado. Somos sempre parciais na nossa própria vida, o que realmente não importa, porque não há sequer outra forma das coisas acontecerem.
Assim sendo, podemos livremente interpretar o que nos vai acontecendo e construir uma história que é a nossa, que também é o que geralmente fazemos. Nas coisas maiores, pelo menos. Tentamos encaixar as nossas escolhas num quadro amplo, que nos faça entender o passado e planear o futuro.
E depois acontecem pequenas coisas. Coisas que poderíamos deixar passar em branco, sem lhes atenção, pouca ou muita, que podíamos deixar cair no esquecimento. Coisas que para outros parecem insignificantes. Mas que se as seleccionarmos, se lhes dermos um papel no nosso quadro, passam a ser peças fundamentais para a harmonia da imagem final.
Podemos pensar a vida como nos dá jeito. E, às vezes, por nos dar jeito, podemos interpretar acontecimentos aleatórios como sinais de que estamos no caminho certo. Que mal haverá nisto? Nenhum, parece-me.
Hoje, fechei mais um pouco da porta, e fiquei um pouco mais tranquila.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
No rescaldo das festas
Em pós casamentos, é fácil retomar o tema do amor. Li o blog da Margarida Rebelo Pinto (não morri nem me caiu nenhum dentinho, mas estou a falar disto para evitar ideias de plágio e maldizer). Ela falava sobre as diferenças entre o amor é a paixão. Acho que era isto. Afinal acho que dizer que li o blog é dizer uma mentira: passei os olhos, de viés, por um post do blog dela, que alguém tinha postado através dum link no Facebook.
É fácil falarmos e escrevermos sobre o amor, a sua presença ou ausência, porque o amor é universal. Sentimo-lo por pessoas, animais de estimação, momentos ou coisas. O amor está cá dentro, como uma necessidade à espera de ser satisfeita.
Mas deste amor, do amor que acontece entre duas pessoas, há sempre mais alguma coisa a dizer. É sempre possível riscar mais algumas palavras no extenso conjunto de textos já escritos sobre a temática até porque, julgamos nós, e talvez acertadamente, a nossa história de amor é diferente das outras que já ouvimos.
Não sou romântica. Ou sou e não demonstro. O princípio do amor acontece. A continuação do amor construímos. Porque o amor é um sentimento de compromisso, não é um sentimento que caia há primeira contrariedade, ao primeiro dia menos bom. Não é sentimento que caia ao fim de um ano mau. Não cai e não o devemos deixar cair. Porque o amor enraíza e dá flor, é como uma árvore: está viva no inverno, quando é mais feia e sem folhas. Mas mesmo feia precisa de ser cuidada, precisa beber e ter sítio por onde crescer, precisa de quem o sabia podar, para rebentar mais forte da próxima vez.
O amor é assim, quase como a fé: não se explica e só se sente, às vezes nem o sentimos, mas sabemos que ele lá está, e não deixamos de acreditar nisso. Pomo-nos é a trabalhar para que ele volte a aparecer mais depressa. Às vezes perde-se no meio das outras coisas todas, às vezes é pequeno mas nós sabemo-lo enorme: é por isso que continuamos a dizer que amamos quando tudo parece perdido, é a essa bengala que nos agarramos para continuar e levantar depois de termos tropeçado, sozinhos ou juntos.
O amor perdura, é a árvore que há de voltar a florir quando o sol voltar.
sábado, 13 de junho de 2015
Somos muito mais e muito menos do que aquilo que pensamos ser
É o tempo a passar, a contar. Na minha necessária humildade de ser mais uma pessoa, no meio de tantas, cresce-me uma pressão dentro do peito. Passam os dias feitos anos e que tenho eu para amostra? As conversas últimas têm sido boas para pensar. Tento estar mais disponível para ouvir, para aprender e para mudar. Tento. Tento ver e ouvir para além do que acontece, ver a forma como o hoje se pode reflectir positivamente no futuro, se souber aceitar e viver o presente.
Ser mais uma pessoa, dentro de mais um corpo, com tudo o que a isso está associado devia lembrar-nos do nosso encaixe na ordem natural das coisas. Como eu há muitos mais. Não há problema. Mesmo. Foi assim que foi e é assim que há de ser, sempre. Acho que nos esquecemos muitas vezes desta nossa faceta incontornável: sermos humanos é sermos animais. E isto dá-nos à mercê da Natureza, sem alternativas. Somos capazes de criar a nossa liberdade até um certo ponto: até onde ela nos deixar. Vivo tranquila com essa ideia, da mesma forma que vivo tranquila que um dia o meu tempo deixará de contar, que acabará, vivo tranquila com a ideia de que hei de morrer.
Não me assusta o fim. Assusta-me chegar ao fim sem nada para mostrar de relevante. Quero chegar e fazer balanços positivos, orgulhar-me da maior parte das coisas que fiz e da pessoa em que me tornei. Persegue-me esta inquietação. Vejo vidas que não entendo e aponta-me o dedo do preconceito: quem sou eu para julgar? Que percebo eu? A vida é todos os dias diferente e todos os dias igual - se a vida é aprendizagem, há de se repetir até aprendermos. Aprender é fazer diferente, e isso é ja fazer melhor: quebrar o ciclo, andar para a frente. Mesmo que seja depois para rever o percurso.
Penso muito nisto. Penso na M e na P e na A e em como me puseram num lugar privilegiado para observar a essência da vida, para me obrigarem a pensar, questionar, bater com a cabeça e voltar a bater, e fazer diferente e melhor.
Aceitar os meus limites e reconhecer as minhas potencialidades e franzir o sobrolho enquanto me pergunto se não andamos todos às avessas: as minhas potencialidades humanas são infinitas na relação com o outro e não noutros sítios.
Penso muito nisto.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
segunda-feira, 8 de junho de 2015
Quando elas nos entram pelos olhos dentro, é difícil não as ver (à M e à P) - muitas asneiras daqui em diante
É fácil de dizer: tenho uma filha da puta cá dentro que me está a comer. Já me fez vomitar chorar querer morrer e querer viver só para lhe provar que sou melhor do que ela, mesmo enquanto se banqueteia com o meu corpo. Tenho uma merda cá dentro que me atormenta, que me assusta todos os dias, mesmo quando não penso nela. Mas penso nela há demasiado tempo, vivo com esta besta há demasiadas horas de demasiados dias de demasiados anos.
O tempo que às vezes parece todo igual não é. Hoje há tratamento, amanhã há esperança, depois só quero desaparecer e afogar-me nas minhas próprias lágrimas. Aprendi há muito tempo e rapidamente que facilmente morremos disto. Não desta merda em que o meu corpo se está a transformar. Morremos facilmente deste carrossel de emoções que nos traz a todos os extremos da mente humana no mesmo dia, duas e três vezes, às vezes mais.
Supero-me todos os dias. A pessoa que fui já nem me lembro de como era. Mas acho que já não me lembro de quem era a semana passada, já aconteceram tantas coisas entre esse dia e hoje que já sou outra pessoa. Sou uma pessoa muito diferente, espero ser uma pessoa melhor. As pessoas vêm e vão, novas e velhas, amigas de sempre e caras novas e todas falam do mesmo da mesma forma: que guerreira sou, que sorte têm de me conhecer, que grande testemunho vou deixar no mundo, com tão pouco tempo de passagem.
Caralho para esta merda toda. Às vezes dava a minha doença toda para ser uma pessoa medíocre, mas viva, uma pessoa medíocre viva, é uma ideia de realidade que tantas vezes me parece a melhor do mundo. Gostava de viver sem este medo de morrer hoje, agora ou daqui a bocado, de o meu corpo explodir ou implodir, ruim em porcaria putrefacta. Gostava que o ar me cheirasse ao que cheira o de todas as outras pessoas, e de não me cheirar maravilhosamente bem depois duma crise de falta de ar ou de dor que já passou, como se conseguir respirar normalmente fosse a melhor coisa do mundo. Quando para as pessoas medíocres, que não vão deixar nada de si no mundo, nem bom nem mau, que vão viver as suas vidinhas nem felizes nem infelizes, de quem ninguém se vai lembrar daqui a duas gerações, o ar cheira sempre ao mesmo, a coisas tranquilas, cômodas e monótonas. Falta-me a cor cinzenta na vida.
Na minha vida há um preto de fundo que tento todos os dias pintar de outras cores. Tudo o que leram até agora é verdade e mentira. É verdade porque nem sempre as forças me têm à tona de tal forma que não consiga ver só o preto e a degradação física que de mim se apoderou. Há momentos em que me podia enterrar viva e esperar a morte real, porque morta já estou, por dentro, por fora, sem pés para dar nem mais um passo. Há momentos em que eu já não existo, já cá não estou.
Mas depois há os momentos em que sou eu e esta pessoa nova que em mim nasceu e que já sou eu. Uma pessoa que decidiu mostrar a esta merda que me está a comer por dentro que o que come não sou eu, é só a carne onde eu por acaso vivo. Eu sou o que cá vou deixar, e o que cá vou deixar é do tamanho do mundo que eu sou, porque eu sou um mundo de coisas boas, de mudança, de objectivos alcançados. Eu construí o que aprendi e o que consegui ensinar com o que vivi.
Esta merda está-me a comer e vai matar-me. Eu sei. Todos sabem, e eu já cresci de tal maneira que já aceitei essa realidade, sem medos. Já morri tantas vezes durante este percurso que uma a mais ou a menos não faz diferença. Falo pouco disso. Não tenho medo mas estou assustada. Sei lá o que é morrer ponto final. De todas as vezes que morri, mesmo as mais más, foram só mortes temporárias. Sei lá eu o que me espera ou quem me espera, ou se é só um fim sem direito a epílogo. Vou morrer sem medo mas estou assustada de morte.
Tenho uma filha da puta cá dentro que me está a matar. Mas eu já nasci outra pessoa, e ela só está a matar quem já não existe.
terça-feira, 2 de junho de 2015
as trepadeiras
as trepadeiras são verdadeiros habitantes do mundo selvagem. gosto delas. gosto da maneira como crescem independentes do chão mas agarradas a tudo o que lhes possa servir de apoio. gosto de como são oportunistas mas o compensam com a beleza do cair das suas folhas ou do equilibrismo perfeito quando passam dum ponto de apoio pra o próximo, a criar um arco perfeito. Gosto da sua desorganização organizada, natural, de força a crescer para cima e para a frente e para onde der para crescer. Gosto de trepadeiras por serem aparentemente independentes mas daquele tipo de independência que gosta de mimo. Porque aprendem e aceitam quando as moldamos, e podemos facilmente levá-las a fazer os arcos e as voltas que queremos, dando-lhes os pontos de apoio que nos interessam. Continuam livres e fortes e selvagens, mas em convivência connosco, a seduzir-nós com a sua beleza e com a ideia de que as domámos, quando estamos nós domados por aquela força brutal que só estas plantas que crescem sabe Deus como nos fazem sentir.
se quiser, este espaço pode ser seu
Escrevo muito sobre outras pessoas e às vezes para uma pessoa em particular, seja ela quem for. Quem me inspirar ou me marcar. Ou só porque sim, às vezes sem grandes justificações - porque não as há.
No outro dia, no emprego, aconteceu uma coisa. E uma pessoa disse-me: "não me digas que agora também vou parar ao teu blog?!" e eu respondi: "podes ter a certeza!". Tenho a certeza que a maneira como ela pensou que poderia "cá vir parar" não é esta. Mas é assim que a cá vou por.
Trabalhamos a mil. A mais de mil, a gerir mais de mil coisas ao mesmo tempo, a pensar, fazer, perguntar e responder, tudo ao mesmo tempo, tudo com qualidade e um sorriso, mesmo quando estamos desfeitos ou preparados para nos atirarmos à jugular da pessoa que está à nossa frente. Trabalhamos e rimo-nos, para aliviar o stress constante e a pressão sempre em crescente. Para esquecer as nuvens cinzentas, tantas vezes negras, que pairam sobre a vida de quem nós ajudamos. Rimo-nos muito. As gargalhadas são sempre presentes, são presentes por serem prendas no nosso dia a dia, que nos levam para outros sítios, ou que pelo menos, por momentos, nos tiram dali.
Estou velha. De cada vez que vêm novos, vêm mais novos. Eu também estou mais velha. Riem muito os mais novos, e ainda bem. Rio-me muito com eles, e vejo-os crescer como profissionais como ninguém, a um ritmo impressionante, e com uma qualidade também ela impressionante. Vêm novos e trabalham como quase como se fossem velhos na profissão, em pouco tempo, a reagir duma forma estonteantemente positiva ao stress constante e à pressão sempre em crescente. Vêm novos e não saem velhos cansados, mas experientes no confronto diário de desafios constantes e dos mais difíceis: as pessoas em sofrimento e a capacidade própria de resistência à frustração. São quase heróis: trabalham horas a fio, noites a fio, dormem pouco e aceitam que têm de trabalhar muito para serem melhores.
Este espaço também é teu, que nunca viste os desenhos animados do Bocas ou que tinhas algumas dúvidas sobre o Mad Max original. Que és mais nova que o meu irmão. E provavelmente que a minha prima. E isto para mim é assustador. A tua idade. Mas rimo-nos muito. E isso é o mais importante.
No outro dia, no emprego, aconteceu uma coisa. E uma pessoa disse-me: "não me digas que agora também vou parar ao teu blog?!" e eu respondi: "podes ter a certeza!". Tenho a certeza que a maneira como ela pensou que poderia "cá vir parar" não é esta. Mas é assim que a cá vou por.
Trabalhamos a mil. A mais de mil, a gerir mais de mil coisas ao mesmo tempo, a pensar, fazer, perguntar e responder, tudo ao mesmo tempo, tudo com qualidade e um sorriso, mesmo quando estamos desfeitos ou preparados para nos atirarmos à jugular da pessoa que está à nossa frente. Trabalhamos e rimo-nos, para aliviar o stress constante e a pressão sempre em crescente. Para esquecer as nuvens cinzentas, tantas vezes negras, que pairam sobre a vida de quem nós ajudamos. Rimo-nos muito. As gargalhadas são sempre presentes, são presentes por serem prendas no nosso dia a dia, que nos levam para outros sítios, ou que pelo menos, por momentos, nos tiram dali.
Estou velha. De cada vez que vêm novos, vêm mais novos. Eu também estou mais velha. Riem muito os mais novos, e ainda bem. Rio-me muito com eles, e vejo-os crescer como profissionais como ninguém, a um ritmo impressionante, e com uma qualidade também ela impressionante. Vêm novos e trabalham como quase como se fossem velhos na profissão, em pouco tempo, a reagir duma forma estonteantemente positiva ao stress constante e à pressão sempre em crescente. Vêm novos e não saem velhos cansados, mas experientes no confronto diário de desafios constantes e dos mais difíceis: as pessoas em sofrimento e a capacidade própria de resistência à frustração. São quase heróis: trabalham horas a fio, noites a fio, dormem pouco e aceitam que têm de trabalhar muito para serem melhores.
Este espaço também é teu, que nunca viste os desenhos animados do Bocas ou que tinhas algumas dúvidas sobre o Mad Max original. Que és mais nova que o meu irmão. E provavelmente que a minha prima. E isto para mim é assustador. A tua idade. Mas rimo-nos muito. E isso é o mais importante.
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