Nas histórias de encantar as madrastas são más. bem, não são só más: a da Branca de Neve era bruxa e tentou matá-la, o que cai um bocadinho para lá da categoria de má. Nós, portugueses, temos uma expressão que demonstra o lado habitualmente negativo desta palavra: "a vida é madrasta". Tantas vezes dita, esta frase feita é dita sem termos muita atenção às palavras que a constituem.
E aqui começa a minha saga.
As amigas da minha enteada começam a perceber que eu existo. E a dar-me importância. Na realidade, acho que encaram a experiência de falar comigo quase como eu encaro a experiência da montanha russa. Olho para ela e sei que é um desafio, sei que é assustadora, sei que me vai custar e me vai por o coração aos pulos. Mas vou na mesma, só para no fim me poder rir e dizer: consegui.
É neste espírito que me abordam estas pessoas pequeninas, Um misto de "eu não tenho medo de ti mas é melhor que não te chegues muito perto que eu não tenho a certeza que a coragem chegue para tudo". Olham para mim e começam pela pergunta de teste "és a mãe?" (já sabem a resposta, estão só a testar-me). Respondo que não e dou seguimento à conversa, tal como querem que aconteça: "sou a madrasta". Sorriem: encontraram o bicho e o bicho assumiu-se. Vitória, primeira vitória. Às vezes repetem a palavra, em estilo interrogativo "a madrasta?". Sim, sou eu. E depois apressam-se a perguntar "mas és boazinha não és?". Acho que precisam de se assegurar que a amiga não está nas mãos de uma psicopata qualquer que vai tentar sufocá-la com uma fruta qualquer. Na última conversa, tive de explicar o que é uma madrasta. como é que ela surge. Tentem explicar a uma criança que sou madrasta porque vivo com o pai da criança: como é que uma figura tão má como é a de uma madrasta nasce da convivência entre duas pessoas na mesma casa. É brilhante. Tenho de sorrir. Este medo misto de assombro e de descoberta - afinal as histórias de encantar não contam a história toda - é maravilhoso. E assustador. Pressupõem que sou má porque nas histórias as madrastas são más. fazem mal e têm um péssimo fundo. E não entendem como pode ela fazer-me festas e dar-me beijinhos. O mundo delas entra em contradição na minha presença. Eu vou contra o meu papel, contra a herança que o Walt Disney me deixou, quando criou o filme da Branca de Neve, e depois da Cinderella e, mais recentemente, o da Rapunzel. Eu não sou o que o Walt Disney andou a dizer que as madrastas são.
Se vocês vissem a cara dos outros adultos que ouvem estas conversas quando eu as tenho. Não sei o que receiam mais: que eu não seja capaz de ter esta conversa adequadamente ou que eu seja capaz de a ter. Acho que mesmo quando somos adultos as dúvidas persistem quanto à qualidade das madrastas que por aí há. Mas eu sou das boazinhas, prometo.
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