segunda-feira, 8 de junho de 2015

Quando elas nos entram pelos olhos dentro, é difícil não as ver (à M e à P) - muitas asneiras daqui em diante

É fácil de dizer: tenho uma filha da puta cá dentro que me está a comer. Já me fez vomitar chorar querer morrer e querer viver só para lhe provar que sou melhor do que ela, mesmo enquanto se banqueteia com o meu corpo. Tenho uma merda cá dentro que me atormenta, que me assusta todos os dias, mesmo quando não penso nela. Mas penso nela há demasiado tempo, vivo com esta besta há demasiadas horas de demasiados dias de demasiados anos. 

O tempo que às vezes parece todo igual não é. Hoje há tratamento, amanhã há esperança, depois só quero desaparecer e afogar-me nas minhas próprias lágrimas. Aprendi há muito tempo e rapidamente que facilmente morremos disto. Não desta merda em que o meu corpo se está a transformar. Morremos facilmente deste carrossel de emoções que nos traz a todos os extremos da mente humana no mesmo dia, duas e três vezes, às vezes mais. 

Supero-me todos os dias. A pessoa que fui já nem me lembro de como era. Mas acho que já não me lembro de quem era a semana passada, já aconteceram tantas coisas entre esse dia e hoje que já sou outra pessoa. Sou uma pessoa muito diferente, espero ser uma pessoa melhor. As pessoas vêm e vão, novas e velhas, amigas de sempre e caras novas e todas falam do mesmo da mesma forma: que guerreira sou, que sorte têm de me conhecer, que grande testemunho vou deixar no mundo, com tão pouco tempo de passagem.

Caralho para esta merda toda. Às vezes dava a minha doença toda para ser uma pessoa medíocre, mas viva, uma pessoa medíocre viva, é uma ideia de realidade que tantas vezes me parece a melhor do mundo. Gostava de viver sem este medo de morrer hoje, agora ou daqui a bocado, de o meu corpo explodir ou implodir, ruim em porcaria putrefacta. Gostava que o ar me cheirasse ao que cheira o de todas as outras pessoas, e de não me cheirar maravilhosamente bem depois duma crise de falta de ar ou de dor que já passou, como se conseguir respirar normalmente fosse a melhor coisa do mundo. Quando para as pessoas medíocres, que não vão deixar nada de si no mundo, nem bom nem mau, que vão viver as suas vidinhas nem felizes nem infelizes, de quem ninguém se vai lembrar daqui a duas gerações, o ar cheira sempre ao mesmo, a coisas tranquilas, cômodas e monótonas. Falta-me a cor cinzenta na vida.

Na minha vida há um preto de fundo que tento todos os dias pintar de outras cores. Tudo o que leram até agora é verdade e mentira. É verdade porque nem sempre as forças me têm à tona de tal forma que não consiga ver só o preto e a degradação física que de mim se apoderou. Há momentos em que me podia enterrar viva e esperar a morte real, porque morta já estou, por dentro, por fora, sem pés para dar nem mais um passo. Há momentos em que eu já não existo, já cá não estou. 

Mas depois há os momentos em que sou eu e esta pessoa nova que em mim nasceu e que já sou eu. Uma pessoa que decidiu mostrar a esta merda que me está a comer por dentro que o que come não sou eu, é só a carne onde eu por acaso vivo. Eu sou o que cá vou deixar, e o que cá vou deixar é do tamanho do mundo que eu sou, porque eu sou um mundo de coisas boas, de mudança, de objectivos alcançados. Eu construí o que aprendi e o que consegui ensinar com o que vivi. 

Esta merda está-me a comer e vai matar-me. Eu sei. Todos sabem, e eu já cresci de tal maneira que já aceitei essa realidade, sem medos. Já morri tantas vezes durante este percurso que uma a mais ou a menos não faz diferença. Falo pouco disso. Não tenho medo mas estou assustada. Sei lá o que é morrer ponto final. De todas as vezes que morri, mesmo as mais más, foram só mortes temporárias. Sei lá eu o que me espera ou quem me espera, ou se é só um fim sem direito a epílogo. Vou morrer sem medo mas estou assustada de morte. 

Tenho uma filha da puta cá dentro que me está a matar. Mas eu já nasci outra pessoa, e ela só está a matar quem já não existe.

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