há muitos muitos anos, quando eu ainda não era uma mãe de família com vida social nocturna praticamente inexistente, eu gostava de ir ao Bairro Alto. minto. eu só gostava de ir sair à noite ao Bairro Alto. gostava de estar lá, gostava de olhar à minha volta e ver as pessoas, todas as pessoas, gostava de quando o tempo bom chegava, as ruas se enchiam e passávamos apertadinhos naqueles banhos de multidão. gostava de poder olhar de perto para as pessoas nesses momentos, de ouvir os momentos de conversa assim, perdidos sem contexto. gostava de estar de copo na mão na rua. tenho saudades.
quando saía para o Bairro era raro, mesmo muito raro, voltar para casa de mãos a abanar. existiam, na altura, umas colecções de postais publicitários. uma delas até os tinha numerados. tive (e tenho, porque não os deitei fora e estão dentro duma caixa de madeira algures numa arrecadação) pilhas de postais. um deles, a fazer publicidade a uma escola, tinha escrita a frase do título (espero sinceramente que isto chegue para reconhecimento dos direitos de autor da frase).
já a disse noutras alturas, noutros contextos, e tenho-a repetido muitas vezes nos últimos tempos. esta semana, para a completar, uma pessoa disse-me: às vezes é preciso ousar.
a crise trouxe muita coisa má às nossas vidas, às vidas das pessoas que nos rodeiam. a crise trouxe muita coisa má a todos, e a uns mais do que a outros. as histórias más multiplicam-se e continuam a aparecer. isso tornou-nos não só cautelosos como receosos. a crise demonstrou-nos duas coisas: a universalidade das desgraças e a efemeridade das coisas que muitas vezes damos como garantidas. a crise trouxe-nos o medo. e é com este sentimento que a crise há de conseguir perdurar. porque o pouco que temos queremos manter e mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
mas temos de reconhecer que, por muito que às vezes seja difícil de a reconhecer, existe uma linha divisória entre a cautela e o medo. a cautela implica respeito e planeamento face a uma dada situação. mas não tem o impacto emocional que a palavra medo tem. que implica que nos sentimos diminuídos nas nossas capacidades para enfrentar o que temos pela frente. o medo afecta a nossa auto estima e faz-nos recuar, quando temos capacidade para avançar.
e as crises são momentos de mudança. que devem ser olhados como momentos de criação. de um eu diferente, de uma vida diferente, de novas oportunidades, de novos desejos e objectivos. quando devidamente acautelados face ao futuro, porque não arriscar?
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