domingo, 31 de dezembro de 2017

I wish I could. I wish we could. I wish we could speak of it and do it simpler. I wish a little word could have a simple meaning. I wish it could have fewer consequences. But love is what it is and spreads around like it does. Around and through you and within you. And us. I wish love was always all around us. Filling us while we feel it truly. And breath it. I wish love was only simple and not bumpy. And troublesome. I wish it only brought smiles and cozy heartbeats.

But even with that, all I wish is love.


Até já comprei a agenda nova

Podia não escrever, mas escrever exorciza. 2017 foi um ano de merda, onde aconteceram algumas coisas muito boas. Mas assim de repente, não foi mesmo um ano brilhante. Foi um ano que me fez esticar os limites e aprender que há alguns que são mesmo impossíveis de esticar. E ainda bem. Porrada, meus amigos, foi o que senti que o ano trouxe. Pancada pelo corpo todo, e muitas vezes com violência.

Não só na minha vida. Ou sobre mim. Tantos que me são queridos a verem os seus limites desafiados por este ano de merda. Tantos e de tanta forma. Asneiras de 3 sílabas é o que apetece dizer. Das grandes e em contínuo. Espero que daqui a uns anos não nos lembremos em particular de 2017. Isso vai querer dizer que o que nos plantou de mau à porta não criou raízes. Mas agora, neste momento, ainda bem que fica para trás. 

Mudar de ano significa muito pouco na realidade, porque é só mais uma noite na passagem contínua do tempo. Mas as fronteiras emocionais também são importantes, e gosto desta ideia de poder fechar a porta e andar para a frente. 

As coisas más ajudam-nos a ver o que e quem realmente importa. Minimizar o que e quem não tem valor. E valorizar a nossa capacidade de sobrevivência, que nos faz pessoas vivas e por isso capaz de continuar. Sobreviver às vezes parece pouco mas dá-nos a possibilidade de continuar a tentar. Mesmo que seja em péssimas condições, podemos continuar a tentar. Um ano de merda faz-nos ver que a vida pode ser má e que nós temos de ser bons, muito bons, a fazer uma data de coisas quando só queremos cortar os pulsos ou amaldiçoar tudo e todos. 

2017 foi um ano de merda que me deitou ao chão duma forma inexplicável. Mas que me bateu tanto que me abriu os olhos. Sobrevivi e agora vou continuar a tentar. Espero que a todos nós seja dada esta oportunidade. Tentar.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Levantem-se que vão atuar os Aerosmith

Esta não é uma crónica musical. Não faço ideia de como se escreve uma crónica musical e, na realidade, o mais importante de ontem, do concerto de ontem não está na música. 
E é preciso dizer que os agudos do Tyler estão lá, intocados pela idade. Que o Perry está lá e esteve, durante 2h, incansável.
O mais importante é que em palco estiveram artistas com 47 anos de trabalho juntos. Que o Tyler tem 69 anos e o Perry 67. Que ambos devem ser a excepção à regra de que "as drogas duram matam precocemente", embora não possa atestar pela sanidade mental dos 2. Podemos todos os que lá estiveram ontem atestar pela ausência de gorduras abdominais de ambos, ou pela ausência de flapping nos antebraços. A meter nojo amigas, a meter nojo. 
Duas horas de concerto. Num determinado momento, sentados os 2 para 1 ou 2 músicas, olho para 2 pessoas que sabem que já fizeram (quase) tudo o que havia para fazer nesta vida e que sabem que já não precisam de provar nada a quem quer que seja. São o Steven Tyler e o John Perry. Os Aerosmith foram formados em 1970. Façam as contas aos concertos, festas, álcool e drogas que todos estes anos envolvem. Façam a conta aos milhões de pessoas que sabem quem estás duas pessoas são, que sabem trautear o Amazing, o Crazy, o I don't wanna miss a thing... são os Aerosmith.
Que deram uma lição de energia monumental aos monos que estavam à minha volta. Que nem o pézinho abanaram ao som da música. Como é que não se compreende que estão a ver história? Porque é disso que estamos a falar. Ontem tive a oportunidade de estar num momento histórico: eles vão morrer. Se calhar já estão mortos. Passámos o concerto a comentar que era bom que nenhum caísse, se não, lá ia o fémur para o galheiro. É como ir ver a Monalisa ao Louvre. É história. 
Portanto meus amigos, quando os Aerosmith cantam, nós levantamo-nos, abanamos a cabeça  e batemos palmas. Porque eles merecem. Batemos palmas, não consultamos o facebook e o instagram, não gravamos as músicas para as postar nas redes sociais. Levantamo-nos e batemos palmas. Não tiramos selfies a fazer cornos com a língua de fora (os Kiss não são estes) de costas para o palco. Eles vão morrer, se calhar já estão mortos, e vocês estão a assistir a história viva (não mentalmente saudável, mas fisicamente fit).
Portanto meus amigos, quando os Aerosmith cantam, nós levantamo-nos, abanamos a cabeça  e batemos palmas. Porque eles merecem. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Parte 9

Estava frio e não havia alternativas. Ou melhor, tinha todas as alternativas do mundo, era só escolher. Não tinha todas as alternativas do mundo, havia uma que não era uma alternativa. Nem sequer se podia pensar, nem dizer, muito menos desejar. No fim, deu por si a caminhar de volta à porta por onde tinha saído.
Não hesitou quando entrou. Não havia o que fazer. A ideia de que temos sempre alternativa é mentira. Às vezes ficamos presos, obrigados a andar apenas num sentido, sem poder procurar por onde fugir. Tinha pensado que o tempo fizesse coisas, não fazia, não tinha feito. Pelo menos em feridas tão profundas. Empurrou a porta e ficou mais consolada quando viu o café vazio. Ainda não eram horas de aparecerem os clientes regulares, só mais tarde, depois do jantar.

Quando a vi entrar fiquei mais descansado, a angústia desapareceu. Mas ela parecia mais desanimada do que quando tinha chegado da primeira vez. Olhei para ela enquanto se sentou, e vi a miséria humana personificada naquele corpo miudinho. Também tinha rugas como as da minha mulher. Não as da idade, as da tristeza e do sofrimento.

Estava vazia, sentia-me vazia, queria olhar para mim e não me via. Não sabia o que dizer nem o que pensar de mim. Não existia. Lembro-me de me sentar e olhar para o chão e sentir-me tonta, ter vómitos, sentir o mundo andar às voltas. Lembro-me de tudo isto. A vida passou-se muitas vezes em câmara lenta, para que eu tivesse sempre tempo de memorizar todos os detalhes dos momentos. Esse foi um deles. Lembro-me de estar sentada a sentir-me desmaiar e ter pensado que se calhar a misericórdia divina existia e aquele era o momento da morte. Não foi, claro. 

Só uma tontura, já passou. Desculpe ter demorado tanto tempo. Já há muito tempo que não sentia o ar da rua. Fez-me bem. Ela precisou de alguma coisa? 

Não, de nada. Está habituada a estar sozinha.

Não precisa de nada porque se mexe. Porque não é incapaz de fazer o que seja. Só de ser boa pessoa. Odeio-a. Pensou tudo isto, e nada disto disse, claro. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Perguntou: não têm filhos?

As lágrimas vieram-lhe aos olhos: já tivemos.

Eu também. Já tive. Não souberam quando se abraçaram nem como se chegaram junto um do outro. Ficaram assim, qual pai e filha, a consolarem-se das dores que não davam a conhecer.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Há tanto tempo que não falamos disto

Vamos lá espernear sobre a maternidade.

Cá por casa a coisa corre melhor, fora o facto de nos apercebermos que a pré adolescência está agora a começar aos 6 anos. Felicidade, que felicidade. Só nos falta subir a uma cadeira e cantar o Aleleuia. Enfim. Passemos à frente.
O que melhorou a sério, mas mesmo a sério, para grande alegria da minha vida e do meu cérebro e da minha sanidade mental foram as noites. Agora dorme-se cá em casa. A noite INTEIRA. Sim, isto tem direito a CAPS LOCK. Sem qualquer sombra de dúvida. Durmo, logo sou mais feliz. Mas.... no outro dia, ou melhor, na outra noite sucedeu que, no exacto momento em que eu ia adormecer, mas mesmo mesmo no exacto momento em que eu me passava para as terras de Orfeu, há choro que me arranca do sono. Mães deste mundo e o sofrimento que isto provoca? Acordarem-nos exactamente no momento em que o sono está a instalar-se? Dor. Dor. Dor.
Levantei-me e fui serenar os ânimos. Nada demais, tudo tranquilo. Adormeceu. Volta para a cama. E aqui vou eu. Olhos fechados, corpo na posição certa a relaxar, respiração cada vez mais profunda e... barulho de passos. Esta m... não me está a acontecer. Ca#%$£€ pá. Não, não são passos, estás é a alucinar. São. Tu não querias, mas são. São passos que se dirigem à tua cama. Abre os olhos e nega o sono. Mais uma vez. Cena seguinte: deito as mãos ao telemóvel para ter luz e, sem óculos, vejo a melhor cena do mundo a acontecer no meu quarto. A criança está de frente para a parede, no canto do quarto, qual filme de terror. Enganou-se no caminho e está presa entre o roupeiro e o puff. Ri-te, mas dos nervos e levanta-te. Acalma o choro, dá colo e leva a criança para a cama. Cérebro em modo pudim, a mendigar sono.
Vai dormir. Que se lixe, adormece mesmo nesta cama que não é a tua. Muahahahaha não. Eu sei que queres. Eu sei que tens mesmo de dormir. Eu sei que estou feito num 8, que estás toda queimadinha das carochas, que estás mesmo a começar a alucinar do cansaço. Caguei. Agora não me apetece dormir. É isto que o filho da p... do meu cérebro diz, depois de lhe ter negado o sono. Faz birra. E não se apaga. Melhor, viaja. E eu quero não pensar nas merdas todas que aconteceram, vão acontecer ou que eu tenho de fazer e ele não deixa. Tento tudo o que sei: exercícios respiratórios, de relaxamento, de imagética mental. Tudo. E nada. Sinto que já não tenho cérebro dentro da caixa craniana, que me dói, à séria. Dor. Dor. Dor.
Não sei como adormeço, nem quando, na minha cama. Mas sei que o despertador tocou. Tito antes do que devia. Afinal não, são mesmo horas de levantar.
Se Te olho sentada e sem baixar os olhos não duvides nunca da minha certeza de Ti. Nunca. Acredito sem medo nem dúvidas, mas com perguntas. Não por duvidar mas por querer saber de Ti. Não mais, porque o que Dás chega, mas por Te saber grande e querer aprender, pergunto para saber o sentido, para saber o quê e porquê. Num mundo que não acaba de decisões que tomas, misturadas que estão na liberdade que nos Dás para decidir sobre o que fazemos, pergunto muitas vezes para onde isto tudo vai. Para onde Deixas que tudo isto vá, para onde nos Deixas ir, e porquê. 

Duvido do que fazemos com 

a capacidade de visão que nos Deste, duvido da permanência do Amor que acredito ser a base do que Construíste, com todas as caras que acredito Teres escolhido tomar. Aqui e de todos os outros lados do mar, com uma ou muitas caras, com tantos nomes e em tantas línguas. Do Amor que temos de guardar aos outros, que não soubemos guardar dentro de nós para nos dar e aos outros. Amor que não está, que está esquecido, que deixámos algures para nos olharmos só, num espelho que não existe mas não nos deixa ver mais nada para além de nós. Para nos poupar das nossas inseguranças. Ganhou o medo, foi isto. A liberdade prendeu-nos no medo. E quando submersos no medo, há que manter as fronteiras seguras, há que concentrar energias e olhar apenas para o que se conhece, para o que conforta, para nada mais. 

Levanto os olhos e pergunto-me o que Pensas, onde Sorris e se há a possibilidade de Chorares. Será que Deus chora? Será que Deus lamenta e sente arrependimento ou frustração? Como será que se vive o processo de desaprendizagem que toda uma Criação está a viver? Levanto os olhos e sereno porque sei que Estás. Mas não sei se Vais ficar. Será que Te conseguiremos perder? Quando nos perdermos, que Te acontecerá? A delicadeza da causa humana depende de nós, não de Ti. E estamos de olhos fechados a isso. E de olhos fechados nada se vê, nada se cria, nada existe. E de olhos fechados poderemos morrer de pé e sozinhos, todos juntos, como uma floresta de árvores secas, de galhos estendidos para cima, à espera duma resposta.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Parte 8

Quando ela saiu, naquela primeira vez, e depois de lhe ter posto dinheiro na mão, acreditou que tinha ficado sozinho outra vez. Não soube sequer quanto tempo ficou a olhar para a porta, a pensar que lhe devia ter dito, que lhe devia ter pedido, para voltar. Por favor, não se vá embora.

Não sabia dizer de onde vinha aquela dependência súbita, nem sequer sabia dizer o que tinham representado aqueles seis meses na sua vida. Falavam pouco, raramente passavam tempo juntos, não sabia mais dela do que quando ela tinha chegado. Mas a sua existência, saber que ela lá estava, em casa, a acompanhá-la a ela, descansava-o. E dava-lhe uma folga que ele não tinha sentido durante anos, como se a carga fosse agora mais leve, mesmo que não fosse totalmente partilhada. O peso não era o de tratar da mulher. O que custava não era o banho, ou a cadeira de rodas. Era o silêncio imposto. Ainda se lembrava, claro que se lembrava, do dia em que, depois de ter acontecido o que aconteceu, alguns meses mais tarde depois daquela noite estúpida, a mulher ter olhado para ele, ter abanado a cabeça e ter dito, ao mesmo tempo que baixava os ombros: não posso mais. Não a conheceu nesse momento. Ela tinha sempre podido tudo. Tinham casado por causa disso, porque ela podia tudo. Tudo o que tinha acontecido desde o momento em que se tinham conhecido até àquele momento em concreto, até àquela frase, tinha acontecido porque ela tinha podido. Muitas vezes pelos dois. Tantas vezes pelos dois que muitas vezes ele se tinha perguntado porque é que ela precisava dele, ou porque é que ela o queria.

Ia fazer 70 anos. Não parecia, ninguém acreditava, nem ele. Não sabia onde se tinham enfiado os últimos 35 anos. O que tinha acontecido naqueles dias todos que perfaziam 35 anos, não sabia dizer. Tinham passado, só. Sem deixar marca. A marca daquela noite tinha sido tão grande, não tinha deixado espaço para mais nada. Estes anos todos tinham trazido muitas rugas à cara da mulher. Tinha-as visto chegar a todas. Todas as noites, quando ela já estava a dormir, ou a fingir, fingiam muito que dormiam, tanto ele como ela, olhava profundamente para ela. Queria ver para lá dos olhos fechados e da respiração mais descansada. E tinha-as visto chegar. Primeiro as da tristeza. Essas foram súbitas, a acompanhar as lágrimas. Depois as da realidade irrevogável, as que escreveram a certeza do sofrimento irreparável e perpétuo. Essas eram fundas, tinham alterado a cara, tinham impedido os sorrisos. Só depois tinham chegado as da idade. As últimas, que comparadas com as anteriores tinham significado nada.

Eram casados e tinham silêncio entre eles. E a chegada daquela mulher, daquela rapariga, tinha aliviado o peso desse silêncio. O peso da culpa de não querer estar em casa. O peso da culpa de achar que já tinha ultrapassado o que tinha acontecido, ao contrário da mulher, que estava presa num momento da vida que tinha já 35 anos.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Parte 7

Primeiro dia fora de casa. Tudo pareceu diferente. O sol, o cheiro do ar, os movimentos do corpo. Tinha dinheiro na mão e podia sair dali. Mas não encontrava justificação forte o suficiente para o fazer. Que diferença faria ali ou noutro sítio qualquer? Estava condenada a quem não fizesse perguntas, e as únicas pessoas que não as fazem são as que também não querem dar respostas. 
Lembrou-se de dias longe, de uma viagem com amigos, em que tinha tomado consciência da simplicidade da felicidade. Iam passar o dia juntos fora da cidade, era muito cedo, mas só tinham dinheiro para irem de comboio. A alternativa foi então sair de madrugada. Mas entre o sono, a dificuldade em começar conversas e os bancos desconfortáveis, ao olhar em volta soube a felicidade.
Aqui as possibilidades eram imensas. Estava presa a nada, podia o que quisesse. O preço desta falsa liberdade seria eternamente pago, e não só por ela, mas a verdade é que a liberdade, falsa ou não, existia.
Deu por si parada e com olhos em cima de si. Olhos que a tinham visto sair de uma casa onde ninguém entrava, mas que todos olhavam com curiosidade. E ela, a única que lá entrava dentro, para além do casal que lá vivia, claro está, era também a única que não tinha qualquer ideia sobre os motivos de toda aquela curiosidade. 
Andou pelos passeios. A vila era maior do que se lembrava, do que se tinha apercebido quando chegou. Havia algumas lojas e passou por 2 escolas. A maior parte das casas eram vivendas, mas se levantasse os olhos via ao fundo, mais para o lado da fábrica, bairros onde os prédios tinham 3 e 4 andares. Voltou a olhar para a porta de onde tinha saído, e na verdade o que se via era um café normal, com uma entrada arranjada e cuidada. Perguntou-se porque não teria mais movimento do que o nocturno, e depois respondeu-se "por causa daquilo, claro". Só que não sabia o que era aquilo.

Sentiu-se estúpida e sem saber o que fazer. Percebeu que tinha andado às voltas, se não não estaria no mesmo lugar. Andou mais. Até ter frio.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Parte 6

Nessa noite quis fugir. Sentiu-se presa numa mentira que não era sua, enrolada que já estava na sua própria história. Tudo era irreal. Nada daquilo fazia sentido ou poderia alguma vez vir a fazer. Imaginou o futuro e viu-se velha e seca, em silêncio profundo, sem palavras que a pudessem por em contacto com as pessoas. Não havia o que dizer, porque nenhuma palavra poderia mudar as ações, o presente traçado pelo passado mal calculado. 


Que má decisão a minha. Que péssima decisão, que péssima pessoa. Que merda de gente sou eu, que se acobarda mais uma vez, num canto que não é o meu, longe do que me era querido e que agora de certeza me odeia. Que merda de gente. Que merda de pessoa. Olho para os meus olhos no espelho e não sei o que vejo. Sou uma caixa vazia, ou totalmente opaca, mesmo para mim, que vivo cá dentro. Não vejo porque não quero ver, não me quero olhar, tenho vergonha de mim, do que fiz e faço. Estou nesta casa, neste quarto, com estas pessoas e não sei nada delas, não sei o que me passa pela cabeça, não sei o que faça mais ou agora. Nem para te matares serves. Podias matar-te, já o devias ter feito. Estás morta de qualquer maneira, não tens quem te ame e quem não é amado não vive. 


Respirou fundo e não dormiu. No dia seguinte não se matou. Despachou as coisas do costume, entrou no café pela porta que tinha atravessado há 6 meses atrás e disse: vou dar uma volta. Não esperou resposta nem sabia onde ia. Antes de sair, ele disse: leve isto. E estendeu-lhe umas notas para a mão. Ela guardou-as e saiu.

terça-feira, 18 de abril de 2017

parte 5

Virei-me para ela, encostei-me ao lava-louça e vi-a, de pé pela primeira vez.

Devia ter vergonha, porque tenho a certeza que lhe faz mal a ele, com o seu silêncio, e este teatrinho de não se conseguir mexer. Quem é que no seu juízo perfeito se faz de paraplégica? Quem é que no seu juízo perfeito fica dias e dias em silêncio, numa casa como esta, com a tralha a acumular-se à sua volta? Quem é que deixa que a vida esteja parada só porque se quer deixar de mexer? Quem, diga lá? Eu fiz mal a alguém? O que é que você sabe disso? Eu estava a fazer mal a alguém, estava a fazer mal a muita gente. E fiz mal a mim própria, e depois decidi deixar de fazer. Se calhar fiz, e foi muito mal num só momento, mas muito menos mal se não o tivesse feito. Sofro, sofro, vivo em sofrimento e em silêncio, a minha cabeça não funciona, não a deixo funcionar. Você sabe lá o que eu passei, o que me aconteceu, como eu não sei o que lhe aconteceu a si, e nunca abri a boca para dizer nada. E agora você vem e diz o que quer, assim, sem mais, e espera ter só razão? Não, não a tem. É mentira.

Pensei tudo isto, enquanto olhei para ela, olhámos uma para a outra, depois baixei os olhos, abanei a cabeça e disse-lhe: se calhar somos mais iguais do que pensa. Queria chorar. Queria que me dessem colo, queria que alguém me dissesse que estava tudo bem, que era normal o que tinha acontecido, o que eu tinha decidido. Que a minha decisão tinha sido boa e tinha beneficiado toda a gente que eu amava. Sabia que isso nunca ia acontecer. Não há perdão. Ninguém mo pode dar, porque eu também não mo dou, não mo permito.

O silêncio fez-se, ela voltou para cima. Das escadas disse: ele sabe e perdoa-me.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Parte 4

Ninguém soube de mim nos primeiros 6 meses. Não saí de casa. Ou melhor, não saí do perímetro da casa. Cheguei no início da primavera, lembro-me bem, e vinha ao quintal estender a roupa e respirar ar. A ver se me limpava por dentro com aquele ar não poluído. Falava pouco. Muito pouco. Ela não falava e ele mal o via. O café abria cedo e fechava tarde, por causa da fábrica. Durante o dia quase não havia clientes, mas o início da manhã e o final da tarde eram sempre muito concorridos. Se havia jogo na televisão, ainda mais. Por isso ele saía cedo e entrava tarde.


Aquele silêncio ajudava-me. Eu não pensava, tinha o cérebro desligado. Funcionava em piloto automático e não tenho outras palavras pra me descrever. Era algo forçado, imposto. Sabia que no dia que me deixasse pensar morria a sério, me matava, rebentava de dor. Recalquei tudo, não deixava que nada surgisse na minha cabeça. Acreditava que não existia, que nada daquilo era real. Acho que acreditei que estava num sonho e que iria acordar, essa crença ajudava-me. Nada disto é real, daqui a pouco acordas. 

Ela não gostava de mim. Diziam os olhos dela. Colaborava em tudo. Banho, levantar e sentar da cama. Comia pela própria mão sem se queixar ou fazer cara feia. 

Nunca perguntei porque é que estava assim. No dia em que cheguei, ele desceu as escadas e disse: ela concorda. E foi só. Nunca os via juntos, não sabia se ela falava com ele. Não sabia porque não se mexia, mas sabia que era fita. No início desconfiava, porque ela tinha força nas pernas. Ajudava a mudar-se para a cama e para a cadeira e havia dias em que era capaz de jurar que não estava como a tinha deixado. Depois houve coisas que começaram a mudar de sítio. Coisas que eu era capaz de jurar que não estavam como as tinha deixado. 

Um dia, estava de costas para a porta, a lavar a louça, no piso de baixo, e ela disse-me: a mim fizeram-me mal, mas tu fizeste mal a alguém.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Parte 3

A casa era escura, a escuridão da entrada não era só uma impressão. Ele disse: sou eu que cuido de tudo há demasiados anos. E eu não sei cuidar de nada. Ela só se apercebia de montes e montanhas de coisas. Amontoados de coisas que estreitavam as passagens e as divisões. 


Para o corredor davam quatro portas: a da cozinha, da casa de banho, do escritório e da sala. Só a cozinha tinha luz e ar de ser utilizada. Mesmo assim a mesa da cozinha era depósito de coisas. E era só isso que ela conseguia pensar: há coisas por todo o sítio. Caixas, roupas, revistas. Não havia sujidade, mas havia coisas.

As escadas adivinhavam-se por detrás de uma cortina pesada. 


Isto é um filme, não pode ser outra coisa. Esta frase não lhe saía da cabeça. Eu criei uma personagem, uma pessoa que não existe, e agora estou aqui, numa história que não existe, num mundo que não existe. Nada disto é real, é tudo um filme.



Ele ia dizendo coisas, e ela abanando a cabeça. Tudo tinha ficado assim depois "daquilo" ter acontecido, a vida tinha dado uma grande volta depois "daquilo", a casa nunca tinha estado assim. Sem falar do que "aquilo" era ou tinha sido, como se se esquecesse que ela tinha acabado de chegar e que, realmente, era por isso que tinha aceite ajudá-la. Porque ela não sabia de nada. 


Depois de alguns encontrões um ao outro e às coisas, ele disse que ela podia ocupar o piso de baixo, que de noite nunca era preciso nada. Havia uma cama na sala e roupa que lhe servia, de certeza. O que fosse preciso mais a seu tempo se arranjava. 


Pouca coisa, preciso de pouca coisa, já há algum tempo que vivo com pouca coisa. Chamo-me Ana (não chamas nada, estás a ser mentirosa). Acredito que vai correr tudo bem.


Dois sorrisos pouco convincentes. Vou lá acima explicar o que se passa e depois já subimos para que a possa conhecer. Foi isto que ele disse e ela percebeu que havia mesmo outra pessoa dentro de casa. E de repente, sentiu o peso da mentira e do segredo. 


E da minha consciencia. Senti o peso da minha consciência e acreditei, mais uma vez, que era um monstro.

terça-feira, 21 de março de 2017

Parte 2

Não foi fácil nem foi difícil. As pessoas olharam de lado e franziram o sobrolho, mas poucas tiveram a ousadia de fazer perguntas. As poucas que tiveram a coragem de as fazer, fizeram-nas de forma subtil, a tentar ver quando, na conversa, sobrava alguma informação que ajudasse a deslindar o caso.

Ao princípio era estranho. Só isso. Eu entrava e o silêncio aparecia comigo. Eu ouvia as pessoas respirar, à espera das minhas palavras. Não sei se alguma vez esperaram que eu começasse, em público, a contar a minha história. Se calhar algumas esperaram, por muito idiota que essa possibilidade fosse. Depois achei que, se calhar, esperavam relatos do que se passava lá em casa, como se eu servisse de agente infiltrado à sua curiosidade. Não sei.

No início foi o silêncio. Ele disse-lhe: sabe cuidar de pessoas que precisam? Ela respondeu: sei. Se não precisarem de cuidados específicos, sei. Ele abanou a cabeça. Ela não entendeu ao início, mas esse início durou poucos segundos. Ele endireitou-se, arrumou umas poucas coisas em cima do balcão e fechou a porta do café. Correu umas persianas e disse: podemos entrar em casa por trás. Era um filme, pensou ela. Foi o que ela pensou, tudo demasiado irreal para estar a acontecer. Mas estava, e ele já ia a sair pela porta ao lado das casas de banho e ela seguiu-o, depressa, com medo que ele se arrependesse. O corredor era escuro e saíram subitamente para a rua. Ficaram ambos encadeados e, nesse momento, em simultâneo, ambos pensaram que tudo aquilo era uma péssima ideia. A mão dele demorou-se nas chaves, que já estavam na fechadura. Isto é uma má ideia, mas a porta abriu-se e ambos entraram. Outra vez para a escuridão, que ficou ainda maior quando a porta se fechou na decisão de entrarem.

Foi uma loucura. Mas eu estava louca. Estava e estou, nunca me curei. Fiz o impensável e passei todos os momentos da minha vida, acordada e a dormir, a pensar nisso. Todos os momentos. Por isso aqueles tempos iniciais, de silêncio, foram bons. Eu não sabia falar, não sabia quem era, não sabia o que dizer. Não tinha inventado nenhuma história, não queria inventar, só queria estar calada Vivi todos os dias da minha vida à beira dum ataque de lágrimas e de arrependimento que nunca aconteceu. Não posso ser boa pessoa, não sou. Fiz o impensável e vivi com isso, morta por dentro, todos estes anos.

terça-feira, 14 de março de 2017

Parte 1

Fizeram-nas da cor da terra, às casas. Não se percebem ao longe, só quem as sabe lá. Mesmo ela, às vezes, tinha dificuldades em vê-las ao longe. Sorri.

Sorrio porque ainda me lembro de me ter perguntado onde estavam as casas, quando aqui cheguei pela primeira vez. Foi isso que me convenceu a ficar. Esta era uma cidade para pessoas escondidas, esta onde as casas não se vêem. Pessoas como eu. 
Foi há muito tempo. Não fui eu. Eu não sou a pessoa que tomou a decisão de ficar. Essa morreu quando tomou a decisão. Nasci eu nesse imediato, por necessidade, para poder ficar por aqui, escondida, embora não andasse ninguém atrás de mim. Já tinha passado demasiado tempo para alguém ainda me procurar. 

Abriu a porta e entrou. Não sabia o que dizer por isso foi sincera: preciso de ajuda. Preciso ficar aqui. O café estava vazio e o dono ficou uns instantes a olhar para ela, pensando se lhe falhava a memória e se aquela era, afinal, uma pessoa conhecida. Não era. Estava velho mas não era alguém que ele conhecesse. E de quem se pudesse ter esquecido. Tinha a certeza. Era uma rapariga ainda nova, sem os 40 anos feitos. Só não era normal porque ali não vinha parar ninguém novo assim. Muito menos a pedir ajuda. Mas o pedido era genuíno: os ombros baixos em derrota não deixavam margem para dúvidas. Não soube o que lhe dizer. Entre a estranheza, a desconfiança, o medo e a surpresa ficou mudo. O silêncio manteve-se. Não via grandes razões para a mandar embora mas não sabia como lhe dizer que por ele podia ficar, porque também não sabia bem o que isso queria dizer, ou como é que isso se fazia.  Ela disse: posso ajudar. O café estava vazio. Por isso ele encolheu os ombros. Ela percebeu: também posso ajudar com coisas em casa, a cuidar de alguém, a costurar, o que for.

Já não aguentava mais, essa é que é a verdade, e quando ela disse que podia cuidar de alguém, percebi que já não precisava de mais desculpas para a deixar ficar. Quis que ela ficasse assim que ela disse que queria, mas uma pessoa não abre assim a porta a alguém que acaba de aparecer, só porque sim. Estava farto de não ter com quem falar. Os dias eram eternos. No café todos me perguntavam por ela, todos queriam saber como ela estava ou como estava eu. Mas nunca ninguém se apresentou como uma verdadeira ajuda. Não posso dizer que era coscuvilhice. Também não era ausência de interesse. Só que a verdadeira ajuda nunca apareceu, nunca ninguém deu o passo que eu precisava que tivessem dado, porque nunca consegui pedir ajuda. Nunca lhes consegui dizer que precisava de ajuda eu, a história era tão má que ninguém se quis aproximar e eu também não sabia falar do que aconteceu. Toda a gente sabia e o assunto foi comentado até à exaustão. Sempre nas minhas costas. Nunca ninguém me disse nada, para além das trivialidades que se dizem sempre nestas ocasiões. Palavras meias sussurradas, frases meio comidas, que não se terminam. Eu percebia-os. Foi muito difícil. Tão difícil que nunca consegui falar sobre o que aconteceu. Com ninguém. Portanto, alguém que não soubesse o que tinha acontecido era a pessoa ideal para ficar connosco, para tratar dela. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

O dia da mulher ou do homem ou de quem for



Muito se diz e se escreve por estes dias. Das mulheres escravizadas, abusadas e silenciadas, de uma ou de outra forma. Dos comentários maldosos, depreciativos, da maldade entre mulheres.  Dos desafios que a actualidade trouxe à população feminina (parece-me que muitos deles mais nos países desenvolvidos do que nos outros) e das comparações culturais impossíveis entre o ocidente, o oriente e o médio oriente.


A minha opinião? Tudo isto é verdade mas, para mim, isto não deveria ser apresentado como necessidade de igualdade de género. Para mim isto induz em erro, um erro que na verdade nós mulheres também não queremos. Nós queremos igualdade de valor, pelo menos eu quero. Querem que olhem para o valor do que eu faço, e se eu for tão boa como um homem a fazê-lo, paguem-me como lhe pagam a ele, devem-me o mesmo crédito, o mesmo valor. Porque igual aos homens eu não quero ser. Quero ser mulher, como eles querem ser homens. 

Também se escreveu sobre o valor dos pais e das mães e das mães que são mãe e pai e dos pais que não querem saber dos filhos. E dos estereótipos que estão e que se mantêm. E hão de se manter, porque as mulheres e os homens fazem, tendencialmente, a parentalidade de forma diferente. As mães são diferentes dos pais, com o mesmo valor na sua diferença. Está tudo bem. O azul tem tanto valor como orada e não temos de trabalhar pra que haja só o amarelo ou o branco. Há mães más e mães boas, como há pais maus e bons. E nos divórcios há pessoas que se desinteressam dos filhos. E se a sociedade critica mais as mães, o que não deixa de ser verdade, o que seria fundamental defender era a avaliação do valor do que se faz e não associar, logo à partida, essa avaliação com o género da pessoa. Também nos casamentos ou ajuntamentos somos diferentes na parentalidade. Porque somos biologicamente seres distintos, com necessidades internas diferentes (esta cena de nos esquecermos do corpo também me incomoda, até parece que existimos só socialmente, o que está tremendamente provado que é mentira). Esta necessidade de uniformização radical, que elimina o que é realmente importante - o valor do que se faz - faz-me muita impressão. 

Muitas das pessoas que lutam sobre a igualdade de género são as mesmas que defendem poder decidir sozinhas sobre muitas coisas acerca dos seus filhos ou das suas gravidezes, ou inclusivamente se auto intitulam como super-heroínas pelo simples facto de serem mulheres. Podemos ser super-heroínas, mas pelo que fazemos. Nem todas somos super-heroínas. Na realidade, este termo tem um peso estúpido, porque acaba por nos exigir mais e mais e mais. Também há homens super-heróis. Ou não os há? Ou não há também a frase "os homens são todos iguais"? Eles não têm então direito aos mesmos direitos que se exigem? 

Há menos valor reconhecido às mulheres? Há, em muitas situações. Somos todos capazes de fazer as mesmas coisas? Não sei. Provavelmente, mas também quase de certeza de formas diferentes. Porque somos diferentes. Eu posso educar duas crianças baseadas na crença de que o seu valor é igual, porque vão poder ser duas excelentes pessoas. Não porque serão duas pessoas iguais.

No dia da Mulher, que se pensem nas pessoas, porque se há por aí muias pessoas do sexo masculino que nem no lixo mereciam estar, também as há do sexo oposto. Vamos lá lutar por ser reconhecidos, e não por estatutos que vêm com o pipi ou com a Polónia.