sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Se eu soubesse que ia ser assim

se eu soubesse que ia ser assim, acho que tinha feito tudo de forma diferente. não sei se tinha, ninguém sabe com certeza, porque a vida é só uma e não se vive em alternativa. mas acho que tinha. tinha feito tudo de forma diferente. se eu soubesse que ia ser assim, não me tinha agarrado a ti para depois te deixar, não te tinha arrastado no meio de tanta lama para depois te abandonar ao esquecimento e aos caídos nem sei onde, já não me lembro onde foi, tal era a desgraça que estava a minha cabeça. estava e está. a minha cabeça e a minha alma, não sei onde te abandonei e não tenho a certeza se sei porquê. se eu soubesse, tinha feito tanta coisa de forma diferente.
não sei se sinto o que digo, nem sei sequer sei se sinto. queria que não fossem verdade estas palavras, queria dizer que é tudo diferente, mas não é. sei que não devia ter feito o que fiz mas não sei se sinto tristeza ou arrependimento, só sinto consciência, mas a consciência é justiça, não é sentimento. sei que não fiz bem, mas é mentira dizer que me sinto mal. também não me sinto bem, só não sinto nada e queria ter feito tudo diferente. para agora, se calhar, poder sentir. sentir alguma coisa para lá deste embrutecimento, deste acumular de paragens a que obriguei o coração que agora já não sabe sentir. se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito muita coisa diferente.
não te vou pedir perdão, porque não sei bem o que aconteceu, e onde parou a minha mente, para te ter feito o que fiz. não sei onde te deixei, perdi-te, melhor para ti, provavelmente, porque se não sei de ti agora, se te perdi, de que te adiantava andar comigo, se não te soube trazer comigo? também não sei bem onde dei por tua falta, por isso posso ter-te deixado há tanto que não sei há quanto foi isso. adormeci ou parei, não sei, sei que não sei de nada e que se soubesse, ah, se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito tudo diferente. se não tudo, muita coisa, poderia eu ser o que não fui e o que não sou agora, seria eu melhor do que tu perdeste. como te perdi, agora que não sei onde estás. não sei tanta coisa que nem sequer sei se me conto mentiras e se na verdade não fui eu que te perdi, mas tu que me deixaste, depois de me veres arrastar-me na lama e a puxar-te para lá. não sei se me deixaste aos caídos porque viste finalmente que não sei andar de pé e que sou um peso inevitável e incomportável e me deixaste a mim, só a mim, e te foste andar para onde pudesses ser livre.
este saber de nada aprisiona-me e traz-me sempre onde sei que estou sem saber onde é e de como aqui se sai. estou nos meus limites e aqui estarei sempre, porque volta não volta, dou de fronte com paredes que não posso transpor. que são eu e que não mudam, porque se eu soubesse o que não sei, ah, se eu soubesse que ia ser assim, tinha feito tanta coisa diferente. tinha feito tudo diferente e tu estavas aqui, e havíamos de rir sobre estes devaneios, e não seriam devaneios a única coisa que a minha cabeça sabe fazer.
se eu soubesse que ia ser assim, tinha-te apertado a mão e tinha-te dito coisas bonitas, tinha-te acariciado o cabelo e tinha-te beijado os lábios, tinha sido contigo e comigo, o presente e o futuro. se eu soubesse que ia ser assim não me tinha perdido, tinha-me encontrado e mantido comigo, tinha sido firme e inabalável e não este peso insustentável que é a única coisa que sinto ser. sou um peso demasiado pesado, nem a cabeça consigo levantar, que trago o coração aos pés e só o consigo arrastar. se eu soubesse que ia ser assim, um deserto à minha frente para andar todo sem ti, se eu soubesse que ia ser assim, não tinha corrido para fora de ti, não te tinha escorraçado ou eu sei lá o que fiz, que não sei nada e queria saber como te fiz o que fiz, sei lá o que fiz, mas tu não estás aqui e algum perdão eu deveria ter de pedir.
se eu soubesse que as palavras chegavam para te trazer a mim, escreveria linhas sem fim, com todo o sentido que lhes quisesses dar, que lhes quisesses ler, porque sei que fiz mal, só não sei como, o quê nem quando, sei que não sei quem sou e por isso sei que todo o mal que te fiz foi real. só não me lembro qual foi. se eu soubesse que ia ser assim, pedia mil vezes perdão, mesmo que não o sinta, porque afinal alguma coisa sinto, e é a tua ausência em mim, aqui ao pé de mim, a saudade que me sufoca e me aperta. e agora que sei que não estás, nem onde, nem há quanto tempo, por mim que te quero aqui, sei que faria tanta coisa diferente, faria tudo, tudo do princípio até ao fim, para que o presente não fosse este, e o futuro todo um mundo que afinal não se há de abrir.

Que se lixem as datas, porque no Natal também se morre

Este título podia ser o início duma coisa má. Vou tentar que não seja. No Natal também se morre. E na passagem do ano. E no primeiro dia do ano novo. Morremos todos os dias. Porque os dias são todos iguais. Não é só no Natal que as famílias se reúnem. Ou é? É só nestes 15 dias que nos lembramos que a vida humana pode ter proximidade, carinho e emoções positivas? Ou as restantes 50 semanas do ano também podem ter isso? O meu novo ano começa quando eu faço anos ou quando chega o dia 1 de Janeiro? Ou quando eu quiser? Hoje não pode ser o início de um novo ano, só porque daqui a um ano fará um ano que estive aqui, e todo um ano passou e foram 365 dias de novas oportunidades? 
O meu avô tinha a árvore de Natal feita todo o ano. Porque o Natal é quando um homem quiser (= tenho preguiça de a desmontar, e daqui a 365 dias é Natal outra vez, é um instantinho, vais ver). E o ano novo também é quando um homem quiser. Comecem um projecto novo e daqui a um ano terá passado exactamente um ano. um ano de coisas novas, de um desafio novo. Façam Natal todos os dias, e o Natal será sempre quando vocês quiserem, família, prendas e overdose de calorias. Sempre. O tempo não é só dele, também é nosso, que se lixem as datas, tudo pode ser quando eu quiser. Porque o meu calendário não é o do ano civil, as resoluções para o ano que aí vem podem ser para os meus 34 anos, ou para o dia 1 de Janeiro ou para começar amanhã, e avaliar daqui a um ano (esqueçam lá que estou a escrever isto na véspera do ano novo). 
Que se lixem as datas, porque no Natal também se morre, e se vive e se nasce, e nem só no dia 1 de Janeiro as vidas mudam, porque podem não mudar, se nós não quisermos. Que se lixe o premeditado, os balanços inconsequentes, as listas de desejos mal mastigadas à mistura com passas de que poucos gostam. Matem o calendário e lembrem-se que Natal e Ano Novo são todos os dias, quando vocês quiserem, porque para engordar, mimar e mudar podemos sempre, todos os dias, quando quisermos. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Pelas eleições que se avizinham

 Amanhã é dia de eleições.

Faço parte dos órgãos sociais da OPP desde o início. O que a Ordem trouxe à profissão foi a possibilidade de nos manifestarmos oficialmente. Mais do que isso, deu-nos o direito de sermos ouvidos. Somos chamados agora a dar a nossa opinião sobre temáticas que há muito dominamos, mas sobre as quais nunca pudemos dizer muito. A Psicologia precisava de ter uma Ordem por tudo isto. Por isto e pela organização necessária à classe. Para que os profissionais competentes, éticos e preocupados activamente com o desenvolvimento da profissão e com as boas práticas obrigatórias não tivessem de partilhar a cena com curiosos, charlatões e outros que tais. Todos sabemos de histórias como estas. Todos. A arrumação da casa era necessária, o primeiro passo obrigatório.

Hoje, ao fim de 6 anos, estamos num limbo: a definição de 6 anos será de muitos ou poucos anos? Temos uma Ordem jovem, é certo, e o que quer isso dizer? Em temos de direitos e deveres? Da OPP e dos seus membros? O que temos agora que não tínhamos há 6 anos? 

A resposta é: muito mais do que tínhamos. Muito mais. Temos uma instituição que nos defende, que cria caminho e fala por nós. Não podemos, nem devemos, fingir que os 2 mandatos do professor Telmo Baptista foram inócuos, imperceptíveis. É mentira. É mentira que a a equipa que reuniu ao seu redor se tenha acomodado ao "tacho" (procurem informação sobre os cargos remunerados), é mentira que tenham gasto indevidamente dinheiro que não é seu (vejam os pareceres do Conselho Fiscal em funções, podem ser pedidos à Ordem), é mentira que no primeiro mandato da OPP não tenham acontecido discussões na Assembleia de Representantes, só por sermos todos da mesma lista (peçam as atas, podem ser pedidas à Ordem). São mentiras outras coisas. Estas não. Tal como não é mentira que a procura de informação fidedigna para que se possam tomar decisões acertadas seja fundamental para que possamos votar. 

Uma das críticas mais frequentes à lista que represento é a de que somos uma lista da "continuidade". Em nenhum sítio continuidade é igual a estagnação. Continuidade é percorrer um caminho, procurando a melhor forma de o fazer, conhecendo o passado e reconhecendo o presente, antes de nos lançarmos ao futuro.

Falou-se muito de futuro, como se esta lista só se preocupasse com o presente. Mas é no presente que se constrói o futuro. Aqui e agora. A tomar decisões sobre os colegas que somos todos nós, que vivemos num país em que a empregabilidade em Psicologia é baixa de há anos para cá, uma situação agravada pela crise económica mundial. Isto deve servir de desculpa? Não. Isto deve servir de contexto. Quem me conhece sabe que eu sou adepta do fazer. Mas isso não quer dizer fazer por fazer, ou recorrer constantemente à metodologia da tentativa e erro. Somos muitos e só uma organização organizada nos poderá levar a um momento melhor. É preciso mudar? Ou transformar? Continuar a construir? Mudar sim, mas para melhor, certo? Com objectivos realistas, promessas concretas e orientação para resultados. Sem fugas para a frente desnecessárias, sem acreditar que só o tudo diferente é melhor. 

Somos todos precisos, somos todos importantes. Amanhã e em todos os dias dos próximos 4 anos. Vamos mobilizar-nos. Vamos unir-nos e mostrar como um programa participado, uma classe envolvida e coesa pode trazer a Psicologia em Portugal para a frente. Vamos procurar quem nos responda às nossas perguntas sem rodeios ou sem levantar falsas questões ou criar focos em problemas que são, de todo, os menos importantes que nós enfrentamos.

Vamos. Votem lista C amanhã. Eu vou estar lá e assumo as palavras que estou a dizer hoje. Hoje, amanhã e todos os dias dos 4 anos de mandato.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Nós os de Novembro

Vamos partir do princípio que tudo o que é dito neste texto é facto.

Que queriam que fôssemos nós, os de Novembro? Que queriam, digam lá, nós que somos de um mês que começa com a noite das bruxas, que abre o dia de todos os santos, ao que se segue o dia das almas? Que queriam, digam lá vocês, que queriam de nós quando somos de um mês que levanta os mortos todos para lhe abrir a porta: os maus, os bons e os outros todos? Que queriam de nós que somos de um mês de Inverno que quase a meio se abre para o sol, num verão fingido, mas a mostrar-se outra vez no seu contrário? Que queriam de nós que somos de um mês que prepara a morte do mundo, porque é antes do inverno, que depois há de morrer para chegar à Primavera? Que queriam de nós que somos quase todos regidos pelo signo que todos olham de lado, porque traz consigo e dentro de si o veneno? Que queriam que nós, sendo quase todos do bicho venenoso, fôssemos? Debaixo da couraça e da negritude e do ferrão? 

Somos feios fortes e maus. Viemos para resistir e sempre que necessário ganhar. Viemos para fascinar e para estar escondidos à vista, sem querer liderar e a saber que não temos alternativa. Somos feios fortes e maus, energia em bruto pronta a explodir, para o melhor é para o pior. A ser centro de turbilhões que não nos agitam nem um fio do cabelo quando aprendemos a olhar para eles como eles são: consequências do que nos fizeram quando nos fizeram de Novembro.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Post que serve para as donas de casa e empregadoras de mulheres a dias

Para que não se diga que este blog é um pretensioso que só se debruça sobre assuntos sérios e psicológicos, assistam a este filme e agradeçam a quem teve o tempo para pensar nestas coisas...

sábado, 6 de agosto de 2016

Às vezes a subir, às vezes a descer

Mas sempre para a frente. A vida é um caminho que até se pode enrolar sobre si próprio, mas que nunca nos deixa andar para trás. Andamos sempre em frente. Sempre. Também não interessa se subimos a custo, se descemos desenfreados ou se flutuamos lenta e alegremente a direito. O inevitável é que seja para a frente. Direita, esquerda, curva apertada ou lomba discreta. Nada de nada. Tudo em frente.

Não me custa esta ideia do passado ser passado. Até gosto. A olhar para o meu rebento, que já se "tenta" empinar do alto dos seus 3 anos, penso que gostei de todas as fases que a vida dele me fez viver até agora e que não tenho saudades, daquelas saudades que nos fazem desejar que o tempo volte atrás, de quando ele era pequeno (ainda mais pequeno, claro). Foram coisas boas que se viveram, novas e maravilhosas, mas apesar de as ter amado intensamente, não consigo dizer que as queria outra vez, porque agora também são coisas boas, novas e maravilhosas as que se vivem. E assim serão sempre. 

Mas não sinto isto só com este aspecto particular do passar do tempo. Tudo tem o seu tempo, e poucas as vezes as coisas podem ser deslocadas no tempo. Não dá para fazer buffet da vida, em que enchemos o prato só com o que queremos comer. Se estou aqui sei que ganhei e perdi coisas, boas e más, que não trouxe comigo para a frente ou só as tenho por ter aqui chegado. É-me confortável a ideia do presente, desta prenda diária que tantas vezes me desespera e faz chorar. Quase no mesmo número de vezes em que rio e sorrio e amo. Aqui e não noutro momento, que já é outra vida, outra história, que já não sou esta eu e que, portanto, já não saberia estar com aquele momento como estive. Há muita coisa que penso que faria diferente, mas não senti até agora que gostaria muito de ter a possibilidade de voltar atrás. Com tudo o que aconteceu, com tudo o que ficou, com tudo o que se perdeu. O meu momento é agora. Como será amanhã e foi ontem. Agora. Tudo se faz agora, tudo se resolve agora. Nada se pode fazer ontem ou amanhã, que já foram agora e já tiveram o seu momento ou ainda nem chegaram e portanto nunca saberemos como serão agora, no seu momento. 

Este é o ritmo da vida. Para a frente, na sua cadência, que não nos respeita desejos ou impulsos. Que exige respeito e encolhe os ombros às nossas vontades de velocidade, rápida ou retrógrada. Este é o ritmo que é o nosso, mesmo que não o queiramos, que o quero. Porque em todos os meus momentos que já foram agora, tomei as decisões para estar aqui. E aqui énmaos à frente do que já foi. Posso ter voltado atrás, estar a repetir caminho, ou ter tomado um atalho. Mas estou sempre mais à frente agora do que já estive. Noutros agoras. Aqui é bom. E se for mau, mas der para mudar agora, podemos mudar. Se não esperamos que o agora da mudança chegue. Que há de chegar. À frente, no seu agora correcto.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Nem só de planos vivem as batalhas

Começar e acabar alguma coisa deve respeitar um plano. É muito mais provável que consigamos cumprir um objectivo se tivermos um plano acerca do mesmo. Um plano que tenha sido pensado cuidadosamente e tenha em conta as diferentes variáveis que atravessam o caminho que existe entre nós e o sucesso. Passamos muito da nossa vida a planear. E se não passamos, devíamos passar.
Mas, como tudo na vida, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Cingir-nos exclusivamente ao plano fará com que não tenhamos capacidade de improviso. Jogo de cintura. E na verdade, a adaptação de um plano às contrariedades da realidade que encontra poderá, com toda a certeza, criar uma solução mais adequada e resistente do que a que foi inicialmente antecipada.
Logo, começar e acabar uma coisa deve ter um início simples, que é o do conhecimento sincero e extenso sobre as nossas forças, facilidades e dificuldades. Sabermos exactamente do que somos capazes e do que não somos, reconhecer onde com toda a probabilidade vamos falhar e onde teremos sucesso será o início do melhor plano. Sem vergonha, sem o idealismo do politicamente correcto, sem a ideia absurda do absolutismo em qualquer das suas formas. A olhar para dentro e para fora, para o reflexo dos nossos olhos no espelho e saber honestamente o que lá está. Sem precisarmos de elaborar ou pintar de outra forma o que é. Reconhecendo-lhe as arestas e as falhas, mas também todo o seu potencial de crescimento. Somos a matéria prima de todos os nossos planos, porque nós somos efectivamente a única variável do plano que teremos a certeza que vamos controlar. Não vale a pena fingir. É na nossa natureza que reside o nosso futuro, a direcção para onde o nosso caminho se aponta. Se a matéria prima é uma, não podemos contar que o caminho se incline para o seu lado contrário.
E isto não quer dizer que estamos determinados inexoravelmente a um dado percurso, porque a mudança existe e somos bem capazes dela. Mas também esta capacidade de ouvir, sentir e fazer a mudança tem de ser da nossa natureza. Têm de estar em nós a coragem, a humildade e a inteligência necessária à mudança. 
Fazer planos para caminhar face a um objectivo é também, assim, mudar. Planeamos para deixar de estar onde e como estamos, planeamos quase sempre para melhor (ou então para evitar o pior). 
Planeiem olhando não só para fora, em tentativas inúteis de controlar o incontrolável. Planeiem olhando para dentro, criando úmeros de qualidades, capacidades e mais-valias internas. Planeiem olhando para a vossa tolerância à frustração, pensando e sentindo onde boa vais ajudar e vos vai falhar. Planeiem pensando onde irão buscar mais forças para continuar, quando as variáveis incontroláveis tomarem conta do vosso plano e, tantas vezes, do vosso mundo. Planeiem sem receio de falhar, porque é tão provável que isso aconteça..., planeiem sem receio de falhar porque ao conhecerem as vossas forças, capacidades e recursos, torna-se difícil que o vosso plano falhe. Mesmo que acabe por ser um plano completamente diferente do original, mesmo que o ponto da meta real diste quilómetros do ponto da meta pensado.
Planeiem-se e façam-senão caminho. Porque o plano somos só nós.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Disclaimer

Este post é sobre o processo eleitoral da Ordem dos Psicólogos, que já começou e que há de culminar em eleições ainda este ano.

Muitos sabem que faço parte, desde a sua criação, da Assembleia de Representantes da Ordem. O primeiro processo eleitoral, que se seguiu à publicação da lei que criava a Ordem dos Psicólogos, foi um processo grande e moroso porque envolveu a inscrição na Ordem de todos os psicólogos portugueses e só depois as eleições propriamente ditas. 
Tenho a sorte de conhecer o Bastonário. Tenho a sorte de o ter conhecido antes de ser Bastonário, tenho a sorte que tenha sido meu professor. Tenho a sorte de ter aprendido várias coisas com ele. Foi um processo difícil, que ele liderou. E foi só ele que apareceu com uma lista candidata. Só ele, mesmo quando já existiam vozes discordantes. 
Se só há uma lista é obviamente essa lista que ganha. As eleições foram pouco participadas, pensou-se que por esse facto. Mas nas eleições seguintes, com muitas vozes discordantes mais uma vez, só apareceu mais uma lista. Novo processo eleitoral, difícil, a lavar roupa suja. E somos psicólogos, profissionais treinados para criar soluções para os outros. Claramente não para nós, enquanto classe.
Vai começar outra vez, novo processo eleitoral. Até agora com duas listas candidatas. E já começou a lavagem da roupa suja. Por favor votem. Por favor informem-se. Não vou defender aqui , pelo menos não neste momento, qualquer candidato. Vou defender algo que parece que não conseguimos fazer: organização e coesão interna. Informação e não desinformação.
Sejamos agentes activos e conscientes no processo de crescimento necessário à nossa Ordem. 

sexta-feira, 15 de julho de 2016

E agora para uma coisa totalmente antiga....

O tribunal decidiu que o nosso ex-ministro Miguel Relvas não é licenciado. Aliás, o título da notícia era "Miguel Relvas perde a licenciatura por decisão do tribunal administrativo". Perdeu-a. Se calhar deixou-a cair e o tribunal não o deixou apanhá-la do chão. É isto? Claro que não. Não a perdeu, nunca a teve. Adquiriu uma licenciatura porque vivemos no país dos doutores, em que para nos ser reconhecido valor temos de ser doutores. Se não fosse dr não podia ser ministro, vá lá acontecer uma coisa dessas, um ministro competente (calma gente que não estou a avaliar o Relvas) não poderia ser sem ser dr. 
Aquele prefixo dr antes do nome faz diferença, sabe-se lá porquê. Não garante inteligência - sabemos disto - não garante trabalho - sabemos bem disto - e não garante felicidade. Também não garante avanço de espécie nenhuma, porque num país de licenciados, só licenciados, quem faz? Quem faz acontecer?
Sou totalmente contra a massificação das licenciaturas. Porque haverá esse de ser um objectivo do país? Alguém entende que obrigar quem não quer a tirar uma licenciatura - ou quem não consegue - não traz nada de bom ao país? Alguém entende que quando apresentamos este como o único factor de sucesso estamos rapidamente a desvalorizar todos os outros planos e projectos de vida? As cabeleireiras e os ladrilhadores não têm direito a ver reconhecido o seu valor enquanto profissionais? E as senhoras da limpeza ou as empregadas domésticas? As pessoas que trabalham nos departamentos da higiene urbana nas câmaras municipais ou nas empresas de recolha de resíduos? Será que estas vidas tem de ser avaliadas negativamente porque não têm uma licenciatura pelo meio? 
A inteligência não vem agarrada aos livros. Não é à toa que está já demonstrado que a inteligência se pode avaliar por diferentes é muito variadas vertentes, que tornam cada um de nós mais ou menos especialista numa determinada competência, em detrimento de outras. A escola e a formação escolar não dá muitas vezes a inteligência necessária à sobrevivência na sociedade actual. Não é a escola que dá isto. Também não é a escola que dá riqueza interior, aquela que também é necessária ao desenvolvimento e progresso de cada um enquanto pessoa e profissional. E por isso as cabeleireiras e os ladrilhadores podem ser pessoas muito mais competentes que muitos dos licenciados que por aí há. Conheço muitos.
Hoje, ao ouvir falar de formação profissional, penso em como seria bom que as licenciaturas não pudessem rótulos de "produto melhor" nas pessoas. Como seria bom que nos despedíssemos desta ideia errónea do prestígio social das licenciaturas. Título: Dr. Profissão: desempregado. 
Ser dr a qualquer custo, só porque sim, como se não houvesse percepção que um investimento de 4 anos (e alguns milhares de euros) tem consequências, e nem sempre positivas, para o resto da vida. Uma das coisas que mais me orgulho na vida profissional é ter conseguido ajudar a convencer uma das minhas "alunas" a seguir o que queria e não Psicologia. Pessoas felizes na sua profissão são mais activas, empenhadas, envolvidas e por isso mais rentáveis. Sem licenciaturas a atormentar o caminho. Não há que ter vergonha do que somos bons a fazer. É preciso é desenvolver essas competências, e não investir onde não vamos conseguir ter frutos. Sem medos. A pensar no desenvolvimento. Porque não é a insistir no mau que evoluímos. De todo. É a potenciarmo-nos nas nossas potencialidades que crescemos. Não todos pela mesma bitola, não todos com os mesmos padrões, recursos ou objectivos. E está tudo bem. Não somos todos iguais nem temos de ser. Temos de ser bons no que fazemos e, por aí sim, estabelecer uma igualdade de evolução. 

Respeitem os tempos!!!! Por favor

Post curto para indicações práticas sobre a importância de respeitar os tempos numa conferência, apresentação, seminários.... O que seja.

Antes disso, assumamos, nem todos fomos feitos para falar em público. De todo. Há quem fale durante horas com capacidade para manter o público atento, interessado, envolvido. É verdade. Mas também há quem vá perdendo, logo desde o início da sua intervenção, o público. Porque não se preparou, porque fala do que não sabe ou fala sem paixão. Há outros erros que vão acontecendo pelo meio, como observações dirigidas ao público incorrectas ou desadequadas... Já vi e ouvi tanta coisa... Enfim. Mas ainda por cima, cereja em cima do bolo, não respeitam o tempo.

E depois o público começa a ficar impaciente. Remexe-se na cadeira, olha para o lado, mexe no telemóvel. Viva o Wi-Fi que nos liberta a mente para outras coisas que não o que se passa a nossa frente. Em mau, muito mau. Ora bem, pessoas fofinhas: quando vocês não respeitam o tempo, as pessoas depois não fazem perguntas. Querem com todas as suas forças o coffee break, querem levantar-se, falar com quem está ao seu lado sem ser baixinho. Portanto vão bater palmas durante meio minuto - falsas, meus amigos, falsas, não tenham ilusões, são palmas de alívio - e debandar da sala. Assim mesmo, em debandada. Sem quererem saber de esclarecer dúvidas, fazer perguntas ou  o que seja. E a vossa comunicação foi assim estéril. Totalmente. O conhecimento nasce da partilha e da discussão. Não da declamação. Declamar não é comunicar. Poupem-se: a voz e o tempo. Cumpram o tempo. E o universo do conhecimento anda para a frente.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O título do post anterior não tem nada a ver com o post em si.

Embora pareça, e até encaixe. Parece porque encaixa, claro. Mas não tem mesmo nada a ver.
O título fala dum momento da minha vida que é quase sempre atormentador: o momento de adormecer. Que às vezes corre de forma muito suave e tranquila. E outras vezes é um terror. Porque o meu cérebro começa a produzir posts. A um ritmo alucinante. Aliás, acho que consigo ver as letras a aparecer numa suposta folha. E depois surge o momento crítico: tento lembrar-me ao máximo do que quero escrever (e logo tenho de pensar o post quase até ao fim) ou agarro em qualquer coisa e escrevo fisicamente o post (e adio o sono outra vez)? Isto acontece-me muito. Pior que isso, chega a acontecer-me com 2 posts ao mesmo tempo. 
São raras as vezes em que os escrevo no momento. Arrependo-me sempre. São sempre muito melhores na sua versão original, a que não escrevo, do que são na versão memorizada, aquela que escrevo. 
Acho que os meus posts são resultado do emaranhado que vive na minha cabeça durante o dia. Em que penso milhares de coisas em simultâneo, em que as coisas para fazer deviam cumprir uma lista mas acabam por se sentar umas ao colo das outras comigo a tentar acabá-las todas ao mesmo tempo. Acontece muito poucas vezes: acabarem todas ao mesmo tempo, claro. Ainda não me atraso muito, mas fico muito insatisfeita. Porque as coisas são muitas, todas importantes. E eu só uma. 
E é, acho, por isso que a minha veia artístico-literária se guarda para quando o silêncio se começa a instalar na minha cabeça. As palavras são para serem ouvidas, não feitas, e o meu cérebro sabe disso. E por isso guarda-as para o silêncio. 
E eu com tanto sono...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Isto às vezes não é fácil, é difícil. Muito mesmo.

Agora que já passou o mais entusiasmo, falemos da conquista do campeonato europeu de futebol pela selecção portuguesa. Não que nos tenha passado o entusiasmo a nós, mas que tenha passado o entusiasmo mais aos que contra nós marcharam. Avidamente, de línguas afiadas e palavras que pretendiam mortíferas. Não foram, como se demonstra: afinal fomos campeões. Antes de continuar, porque efectivamente quero falar mais de outras coisas do que de futebol, acho que há uma pergunta que não foi feita a todos os críticos: se jogámos assim tão mal, porque é que ninguém nos conseguiu ganhar? Vi os jogos todos e não vi porrada, não jogámos só à defesa, com toda a equipa dentro da área. Portanto... Não fomos melhor que eles, se calhar, porque não ganhámos os jogos em tempo regulamentar (mas ganhámos os jogos que interessavam, depois do tempo regulamentar, quando os jogos eram a eliminar). Mas eles também não foram melhores que nós. Tanto não foram que fomos nós os campeões. Viva Portugal!
Agora falemos do que também importa, do que este jogo nos mostra das piores qualidades humanas, dos que pequeninos não conseguem explicar os seus fracassos e empurram a responsabilidade para o sucesso dos outros. Desvalorizando-o, atribuindo-o à sorte, ridicularizando um brilho óbvio e tentando, sempre que possível, extingui-lo. O que isto me incomoda. Não fazem ideia. A pequenez humana nesta vertente é odiosa, vergonhosa, assassina. De que vale não saber dizer "ele é melhor do que eu a fazer isto"? Ou sequer dizer que "ele é tão bom como eu a fazer isto". Que ganho eu com isso, a não ser um inimigo? Como ajudo eu o mundo a avançar se ponho o avanço para trás das minhas costas, escondendo com a minha figura o sucesso de outra pessoa? O que a França fez, em conjunto com tantos outros jornalistas de diferentes nacionalidades, foi não saber lidar com a sua frustração, com a sua incapacidade de lidar com uma equipa coesa de futebol, como se viu, em que os jogadores entenderam finalmente que o conjunto é sempre maior do que a soma das partes, e que o espírito de equipa tem uma força mais do que extraordinária, sobre-humana. A maledicência foi só a reacção pequenina de quem não tem os ditos no sítio para dizer que foi pior do que o outro. Que não lhe chegou aos calcanhares. Aliás... Parece-me que pequenino e feio foi o futebol de Payet, jogada encomendada para matar o que eles sabiam que não iam conseguir contornar. Do que tinham medo. Depois a pisadela ao Quaresma e as jogadas sobre o Nani. Isso é ser pequenino é feio. Como sabemos que tantas pessoas fazem, comentários pelas costas a denegrir outras, a minar trabalho e relações, a assumir louros de coisas que não foram as suas mãos que fizeram. O que isto me incomoda. Não fazem ideia. Depois é difícil controlar o orgulho desmensurado de termos ultrapassado o campo de minas, de termos chegado ao fim vitoriosos, de podermos olhar para trás e fazer-lhes o manguito de lágrimas nos olhos. Filhos da puta que não nos viram como o que realmente somos: bons. Capazes. Esforçados e envolvidos. Filhos da puta que nos quiseram matar os sonhos com palavras e sem acções. Porque se sabam incapazes de nos parar. Filhos da puta.
A França foi espelho da arrogância que mascara o medo. E se eles me passarem à frente? O que faço eu? Como me mantenho capaz de prosseguir o meu caminho, sem me deixar morrer por causa de uma frustração, uma só? Ou mais que uma, como sabemos do Éder? As vidas difíceis não deviam ser demonstração que o sucesso é possível sempre? Mesmo que não como o imaginámos, mesmo que abrindo mão das nossas primeiras expectativas. Caralho para a pequenez humana. Que não sabe beber da felicidade alheia e procurá-la para si, sem querer a que é dos outros. Viram os islandeses? Quando perderam? Aquilo é ser grande em todos os momentos. Aceitar que ganhar implica perder. Sempre. Para sermos melhores, aprendermos sobre as nossas falhas e crescermos. Aprendam a humildade que vos atirará para a riqueza de espírito. Os islandeses vão continuar a trabalhar para atingir os seus objectivos. Aquilo foi um sonho, sim. Mas são estes sonhos que abrem a porta para a realidade do que é possível. 
Muitas vezes não estamos em equipa. Muitas vezes não estamos muitos contra o mundo, muitas vezes somos só nós.tambem não contra o mundo, mas contra uma alminha pequenina e desprezível que nos quer mal, que nos quer arrasar do seu caminho, porque já percebeu que não sabe como nos ultrapassar. Sem sequer considerar que muito mais ganharia se caminhasse connosco. Para onde fosse. Mas todos nós somos um mundo. Acreditem. E as palavras são vento. E poucos são os ventos que uma árvore não tolera. Acreditem.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

ó mar salgado

Tenho um mar salgado e imenso dentro de mim. Feito das lágrimas não choradas, engolidas e caladas. É um mar, que afoga e que se formou por vontade de afogar tristezas. Umas tão profundas quanto o mar sabe ser, tão devastadoras como ele pode ser. O meu mar ocupa em mim o mesmo espaço que o mar ocupa na Terra. O meu mar sabe ser mar. Tem muitas tempestades, mas sabe ser mar e mantê-las ao largo, onde as vagas não conseguem atingir terra e onde a vida que há em mim não se apaga nem é ameaçada por elas. O meu mar aprendeu a ser mar porque se foi o mar que deu berço à vida na terra também o meu a sabe alimentar. O meu mar não tem medo nem vergonha de existir. Se foi formado do que magoa sabe transformar-se e ser energia do que é bom. O mar é força, é abismo, é movimento e maré. É capricho, é onda e vida. Em si, por si e para quem dele precisa. O meu mar é feito de tristezas lavadas e despidas, agora mais puras do que já foram, tristezas que sabem que o que são é demasiado importante para se deixarem cair no esquecimento. O meu mar inunda e lava, o meu mar purifica. O meu mar no seu poder violento protege e absorve o impacto de tudo o que dentro de mim acontece, desvanece a energia nos seus círculos concêntricos, cada vez mais largos e suaves. E sempre que é preciso engole o que é preciso que desapareça da vista. Sem lhe perder o rasto, sem esquecer onde se afundou aquele pedaço de vida. Que não morre e que pode dar mais vida à vida que dentro do meu mar vive. O meu mar é estrada para destinos nunca antes vistos, basta que o queira navegar. Basta perder o medo de enfrentar tormentas e posso chegar onde não me conheço, com todas as riquezas que lá posso encontrar. Basta querer e o meu mundo é meu. Basta arriscar. O meu mar de tristezas feito pode ou não ser fronteira intransponível. Basta eu querer.

terça-feira, 14 de junho de 2016

as coisas que o silêncio endireita cá dentro

quando a vida é turbilhão, o silêncio interior é um bálsamo. quando o interior é turbilhão, o silêncio para fora ajuda a endireitar o que está torto por dentro. muitos silêncios escondem mais palavras do que o discurso. muitos silêncios gritam, muitos silêncios choram. muitos silêncios impedem atitudes impulsivas, das que sabemos que nos vamos arrepender. ou atitudes que sabemos que terão demasiadas consequências para lidarmos com elas inconsequentemente. o silêncio ajuda a arrumar porque nos concentramos cá dentro, não desperdiçamos energia lá fora. 
quando o silêncio me chega não sei se penso. acho que não. não me lembro dos pensamentos que tenho. não me lembro sequer de os ter. quando o silêncio me chega tudo se silencia. o meu cérebro desliga-se, protege-se da dor. os meus silêncios nunca são por coisas boas, nem por maior agitação. os meus silêncios são sofridos, dolorosos. acho que é o meu corpo a proteger-se de si próprio: do que sabe, do que sente, do que pensa. recolhe-se e ganha energias, não se esconde. sabe que tudo estará lá quando voltar, à minha espera, no mesmo sítio onde deixei tudo. e que tudo estará à espera de mudança, de movimento, de alteração. para que esse silêncio não se volte a repetir. os meus silêncios podem ser muito críticos: procuro primeiro em mim e depois nos outros o que falhou para o silêncio estar. dizem que o silêncio das mulheres é mau. sei que o dos homens é pior. "words create worlds. reality is silent". acho que este é o meu silêncio. quando a realidade se apresenta tal como é e eu a aceito, naquele momento, que não a posso contar de outra forma, pintar de outra cor. continuar a construir mundos com palavras que se desvanecem com o vento. o silêncio entra por mim quando olho para a realidade e sei que não me minto mais. que não há mais para dizer. só para fazer. e fazer não é simples. é preciso saber, ter certeza. organizar. e depois lidar com as consequências. a realidade quer-nos as mãos e o coração, não só a boca e a cabeça. a realidade quer-nos calados para não mentirmos, para não a enrolarmos, para não lhe perdermos tempo. a realidade quer-nos sem palavras e com acção. quando me chega o silêncio sei tudo isto e tenho medo.

sábado, 11 de junho de 2016

Um dia celebro o milhão de visitas

Hoje celebro as 5000!!!!!!!!!!!!!!! Yeiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

It's a kind of magic

Na suposição da beleza natural, humana ou não, surge-me sempre o conceito de magia. Há coisas que, de tão belas que são, são mágicas. Também há momentos mágicos, novamente pela sua beleza. Quando estamos com as pessoas certas, quando estamos a ouvir as coisas certas, quando o vento sopra de uma determinada maneira na praia e nos traz aquele cheiro a maresia misturado com um calor bom, quando o sol já se está a por. A magia sente-se nesses momentos, em que sorrimos bonito, aqueles sorrisos honestos, para ninguém, nem para nós. Sorrimos inevitavelmente, porque a magia nos obriga, porque é impossível não sorrir.
A magia vem sorrateira, testar-nos, saber se estamos para ela preparados. Os momentos mágicos perdem-se se não estivermos despertos e atentos para a sua existência. A magia existe mas só se nela acreditarmos. Se não, passa por nós e não se detém, tem mais por onde viver, mais onde tocar, não se desperdiça, sabe a sua importância e não se dá sem saber que vai ser recebida. A magia vive-se num momento, e depois segue o seu caminho. Foge-nos depois de nos emocionar, depois de nos encher o coração e os sentidos. Depois de nos mostrar como a magia é fantástica ela própria corre para longe de nós. Para nos fazer ansiar por mais, para nos mostrar como é mais do que nós, para nos fazer ver que sem magia a vida é só um passar de tempo inconsequente. Porque o coração não bate e o sorriso não aparece.
A vida tem magia escondida. Tem mesmo.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A filha da puta de vida de cá e a filha da putice da vida lá fora

Ora bem, este post é um manifesto pessoal (como todos os outros, já que sou eu que os escrevo, mas pronto). E é um manifesto em que me vou manifestar ambivalente acerca de várias coisas, não só apenas entre dois pontos.
Os primeiros dois são a felicidade e a tristeza acerca da vida de alguns amigos meus. A filha da puta de vida que se leva neste país interessa a muito pouca gente. Muito menos a pessoas que se empenharam na sua formação e no desenvolvimento das suas capacidades profissionais. Que se vêem a braços com chefias paradas no tempo intimidadas com as novas formas de pensar e de fazer as coisas. Acomodadas há tanto tempo nos seus locais de poder temem perdê-lo e boicotam activamente tudo o que de novo se tenta fazer. Ou então não suportam o sucesso dos seus colaboradores subalternos. Portugal vive destes ódiozinhos desprezíveis que nos agarram a uma fraca evolução enquanto comunidade, enquanto país, enquanto local onde vale a pena investir. Muitos amigos meus estavam e estão nesta situação. Com elevado potencial profissional, com ambição e empenho e sem grande futuro à vista, por tudo o que já escrevi. Pode pensar-se: desistir é fácil,  fazer diferente que é bom 'tá quieto! Sim, é verdade. Isto não é apenas uma coisa que possa ir ao fundo, se todos abandonarmos o barco. Isto é um país, terra de gente real, terra feita de pessoas para elas próprias, por isso convém não desistir assim facilmente. Concordo. Concordo tanto que estou por cá  (agora é por cá que estarei) e estando por cá não desisto, tento fazer o que está nas minhas mãos para que a coisa avance, para que a coisa evolua, para que a coisa melhor. Mas cansa. E às vezes desespera. Por isso, quando se fala na possibilidade de ir, eu sou sempre das primeiras a incentivar. Mea culpa. E até incentivo os meus amigos. E eles até vão. E porra, têm ido à séria. A filha da puta da vida lá fora ganha à filha da putice da vida que anda cá dentro e eles tomam as suas decisoes. Certas. São decisões certas, estas que eu aplaudo de pé. Mas fico sem amigos à mão! E agora os que cá estão vão odiar-me mas não odeiem. Eu sei que vocês estão cá, eu também estou, e somos amigos. Mas este último ano foi arrebatador, arrebanhador de amigos lá para fora. Nós ficamos cá, a tomar conta deste pedaço de terra, a tentar partir cabeças de pedra e tornar isto mais funcional, mais amigável à vida humana, mais capaz de nos retribuir o que lhe queremos dar. Para as vossas reformas, quando retornarem qual inglês na terceira idade à procura de um inverno gentil e um verão glorioso.

P.S.: quando vocês vierem vou para Bali. Só para ficar registado. 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

viver com agenda ou ao sabor da maré

há momentos na vida em que para chegar a todo o sítio temos de nos manter rigorosos à agenda. não vale a pena pensar de outro modo. temos de nos esquematizar interna e externamente para que tudo funcione, se não, tudo vai berrar. tudo. e não só o cumprimento de objectivos. a nossa sensação de frustração vai começar-nos  a berrar à séria. e aos ouvidos.
depois começa o jogo de cintura e da paciência. ainda não percebi muito bem o que é que comanda o quê: se a cintura a paciência ou se a paciência a cintura. explico: nem tudo depende de nós. há muito que é da nossa responsabilidade, da nossa iniciativa, da nossa agenda. que temos de marcar e cumprir acérrimamente face à possibilidade das consequências já anteriormente descritas. mas depois há o que não se cumpre por falta alheia. mas que temos de cumprir. o que leva ao reagendamento de um acontecimento que influencia todo o dia. e toda a semana. reagendamentos em cima de reagendamentos, objectivos que se querem cumpridos por cumprir. num loop que de repente parece tornar-se maré e tomar conta deste mar. e que o torna inavegável.
há momentos em que ao sabor da maré não faz mal. sabe bem. o tempo parece-nos o do mundo e uma mudança aqui e ali não faz mal. depois o nosso tempo muda e já o sabemos contado e importante. e uma mudança aqui e ali já é mais do que só uma mudança. sem sermos rígidos queremos ser rigorosos. precisamos de ser. precisamos de ver o nosso tempo bem posto, bem usado, rendido o mais que pode. precisamos de tempo concreto, concretizado, com resultados palpáveis para mostrar. e para além de não ser sempre possível, porque os imprevistos não são controláveis, o que insulta a nossa agenda é a aparente displicência com que alguns a tratam: ahh, esqueci-me, podemos remarcar? ahhh tem de cá estar exactamente às tantas horas e só lhe damos 5 min de tempo de antena... ahhh afinal estamos atrasados e vai ter de esperar... ahhh eu sei que disse que era imprescindível mas afinal vamos ter de modificar o que disse... ahh que porra pah! que enguiços são estes??? o tempo é contado e se não o podemos controlar, a ele e aos imprevistos, então controlemo-nos a nós, à nossa lista de prioridades e ao que efectivamente achamos que vamos conseguir fazer e ao que imprescindivelmente temos de fazer. o tempo é o que temos, não se fabrica,  não estica, não se multiplica. o que fazemos com ele meus amigos... já é outra história.

a propósito de conversas sérias (e da minha capacidade para as ter)

tenho um irmão. e dois primos. e a família acaba por aí no que diz respeito a miudagem (vamos imaginar que estamos na fase em que eu ainda era miúda). quando a minha prima (que é a mais nova) cresceu, o Natal deixou de ter aquela "cena" de Natal, aquele deslumbramento que o Natal tem (vejam o "The Rize of the Guardians"). nessa altura, havia (e ainda há) um "jogo" (não sei se podemos chamar-lhe jogo, mas não me ocorre outra palavra) que se fazia para prever quantos filhos ou filhas iríamos ter. eu e o meu irmão fizemo-lo e, no conjunto, nasceriam 7 crianças. lembro-me de o meu pai dizer que se viesse a ter 7 netos daria prenda de Natal a um de cada vez.
lembro-me também que, na altura, a ideia me pareceu fantástica. 7 crianças era um número espectacular. primos próximos, como seriam os meus filhos e os filhos do meu irmão. afinal não seria só capacidade da Filipa Vacondeus de alimentar 10 pessoas com 3 bifanas. lembro-me disto perfeitamente.
e depois crescemos e a vida mostra-se tal como é. nunca se mostra de outra maneira. e a ideia de ter tantas criancinhas perde um pouco o "cor-de-rosa" que a tinha enfeitado. as exigências são tantas e o tempo sempre o mesmo que faz confusão como se conseguiam organizar as mulheres do antigamente, que tinham as crianças em casa até aos 7 anos (quando entravam para a primária) e cuidavam da casa sem as ajudas que temos hoje. e todas as crianças vingaram e todas sobreviviam e muitas conseguiam chegar longe. a vida era diferente. e nós também, essa é que é a realidade. optar por umas coisas fará sempre com que outras caiam da nossa lista de prioridades. as opções também são tantas, actualmente, que fica difícil fazer escolhas, na verdade. e também há todo um outro nível de exigência que se tem sobre os pais e que os pais têm sobre os filhos. todos queremos ter filhos educados, bem formados, que frequentem actividades que os ajudem a desenvolver as suas capacidades. queremos que os nossos filhos tenham futuro, e isso exige dedicação de todas as partes envolvidas. porque a vida não é só a paternidade, nem pode ser: para que todas as opções e possibilidades se construam é preciso uma almofada (não só financeira) que permita aceder a tudo isto.
a isto junta-se o desejo do desenvolvimento e evolução profissionais, que nos fazem dedicar muito tempo ao trabalho. e o tempo é sempre o mesmo: 24h em cada dia, nem mais nem menos. o tempo que passamos com os nossos filhos se não tiver qualidade não interessa na quantidade. é verdade. mas as outras coisas existem para fazer, e a quantidade acaba por influenciar a qualidade. inevitavelmente. estamos cansados e as tarefas acumulam-se, os prazos e os objectivos também.
acumula-se o cansaço e eu sei bem o que o cansaço me faz. e a qualidade volta a ser posta em causa.
será mais fácil do que isto. claro que sim. é sempre mais fácil do que nós pensamos, na generalidade dos casos. parte sempre da forma como queremos espremer os limões que a vida nos dá: com mais ou menos agrura.
o desafio da eterna superação: como consigo ser hoje melhor que ontem, superar mais este degrau? como consigo aceitar o desafio e fazer uma limonada que para além de doce, refresque e anime? e com filhos à mistura, com crianças que nem sempre entendem o conceito do tempo esgotável, contado nas 24h?
com algum humor, vejam algumas estratégias que poderão ajudar no imediato.

http://www.ted.com/talks/nigel_marsh_how_to_make_work_life_balance_work

segunda-feira, 23 de maio de 2016


Uma pessoa que eu conheço disse, muitas vezes, uma frase que complementa esta. A frase é: "por dentro a água não lava". É como a frase da imagem. Não há maquilhagem que te ponha bonita por dentro, como não há água que lave o que por dentro é feio. Feio por fora maquilha-se, feio por dentro não passa, não sai. Não é que não dê para disfarçar, dá. é possível. Mas disfarça apenas até a "pintura" estalar. E quanto mais feio se é, mais depressa ela estala, de tantas camadas tiveram de ser pintadas.
Penso muito sobre este tipo de fealdade. Penso no porquê de ela se manter, nas suas causas e distingo-a forçosamente da doença mental. Há maldades no mundo que se originam na doença mental não diagnosticada. Durante muito tempo o preconceito com os psiquiatras, os malucos e o que é a doença mental fez com que as próprias famílias e amigos, vítimas de situações problemáticas causadas por pessoas que deveriam ser acompanhadas adequadamente, escondessem ou desvalorizassem o que acontecia, para não trazer o estigma social para a sua porta. Muito foi calado, ignorado e activamente esquecido. Havia medo do que os vizinhos iam dizer, medo do que significava ter uma pessoa destas em casa e, mais do que isso, o que não tem nome não existe, e por isso, quanto menos se falasse ou desse atenção a estes momentos e comportamentos, menor expressão e impacto tinham sobre a vida.
Não é disto que falo. Falo da fealdade porque sim. Da tristeza e frustração que são transformadas em cosias feias que vivem cá dentro e se direccionam para outras pessoas. Da falta de amor que se teve, do amor que não se guardou, das desilusões que nos corroeram os sonhos. De todas estas coisas que transformam as pessoas e as fazem feias. A inveja, o ciúme, o orgulho. O medo. Da satisfação de ver a miséria alheia, do querer que os outros percam coisas suas para que as possamos ter só para nós. Desta feiura que se pode maquilhar, mas que, como toda a fealdade maquilhada, mais dia menos dia é vista tal como é, sem truques nem pinturas. No seu esplendor aterrorizador.
Não me sinto só revoltada ou zangada com estas coisas, que também me sinto. O que me sinto também é triste. Deve ser triste viver assim. Sinto-me perdida, porque não compreendo, não entendo. Faz-me espécie, como se diz.
Visualmente parecem-me alambiques, destilando lenta e eficazmente o fel. O alambique também é bonito. Os de cobre então são lindos. Não deixam de alterar quem deles bebe. Não deixam de lhes alterar a visão. O juízo, a vida. Será que a maldade pode ser um vício?

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Embalada agora não travo

Ora bem..... Pegando e continuando com o tema do post anterior, que isto é material para render mais dois posts, com sorte e com jeitinho, raistaparta também devia ser uma palavra. Porque raistaparta (ou raistapartissem) não é a mesma coisa que raios te partam. Não é. Não é a mesma ideia, conceito, sentimento. Quando se ouve um raistaparta pensam-se outras coisas do que quando ouvimos um raios te partam. Inventam tanta coisa, podiam deixar-nos acrescentar o dicionário. Mas como não estou a pedir cortes, só aumentos, não me devem atender.

Em período de acrescentos, acrescentaria também o célebre (para os alunos de psicologia do meu ano) fascisnada - não me perguntem, é uma homenagem. Mas será uma mistura entre fascinada e excitada imagino eu. Acho que a pessoa que o disse também não sabia muito bem o que queria dizer. Não sabia nunca nem naquele momento. Brilhantismos de uma longa carreira académica.

Os meus actuais alunos teriam imensas palavras para acrescentar: méquié ( que também não é a mesma coisa que como é que é), soa (com um pequeno estalido de língua no início da palavra, diminutivo óbvio de pessoa), entre muitas outras. Na realidade, se calhar era preciso um dicionário só para eles, para suportar uma língua só deles. Porque não lhes chega sequer o dicionário de calão já existente. É todo um outro potencial linguístico, acreditem. Não nos metamos nisso, portanto. Já nos basta um português a ser corrigido por um acordo que claramente não reúne consenso, para ainda nos termos a braços com um outro tipo de português. Que escreve "tar" e "precisa mos" e "esperiência". Sem dó nem piedade nem remorso. Bola para a frente que agora há corretores automáticos em tudo o que se usa, que ninguém lê textos muitos extensos (dez linhas são a nova definição de livro), e que escrever enquanto se anda, estuda, come ou qualquer outra coisa não permite grande elaboração artística. 

Confusionista

Não percam tempo. Não me enganei, está bem escrito. E para quem como eu pensava desenganem-se. Confusionista existe, é uma palavra, o Priberam dá os seus significados (quem sabia que existia mantenha-se calado, qu'isso agora não interessa nada). 
Ora bem, eu, que acreditava que a minha empregada andava armada em Mia Coito, "brincriando com as palavras", vejo-me na situação de discordar da definição do Priberam. Gosto muito mais da definição que eu criei na minha cabeça para uma palavra que eu, no momento em que a ouvi, julguei que não existia. 

Assim, esqueçam o Priberam. Para mim, confusionista - que é quem tem tendência a confundir ou misturar - vai ser sempre uma mistura entre "confusão" e "ilusionista". E, sigam o meu raciocínio, tem muito mais lógica. Um confusionista é um mestre na criação da confusão. Não se limita a ter uma tendência, ele sabe fazê-lo. Ele torna as confusões a sua obra de arte, que deixa todos os que o rodeiam de boça aberta, espantados e banzados com as maravilhas que a mente e o engenho humano conseguem alcançar. No negativo, é claro. 

Para mim, na definição que eu criei para uma palavra que eu achava que não existia, um confusionista nunca é apanhado na sua própria teia. Ele sabe onde a ilusão vai começar, onde e quando, e sabe que a confusão vai estalar, onde e quando. Por isso, um confusionista escapa habilmente, qual Houdini, das situações por si criadas, deixando os seus espectadores enleados em situações tristes, difíceis ou quase impossiveisnde resolver. Imagino o confusionista de capa e cartola, quiçá até bengala, bem falante e sedutor, lançando o isco que outros hão de morder. 

Para mim, no fim do espectáculo o confusionista escapa-se, sem esperar por aplausos, rindo sozinho e com o ego aumentado por saber que ninguém viu chegar a confusão, da mesma forma que ainda ninguém viu como dela vai sair. E o confusionista já vai longe, pensando no próximo truque, na próxima apresentação, no próximo público. 

Assim é o meu confusionista. Que não é o do Priberam.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

viver é uma arte

insistir, persistir e não desistir. viver é um arte que exige um complexo e cansativo trabalho. viver não é sobreviver. para sobreviver o trabalho já é algum, mas de pouca complexidade. pode até ser um trabalho exigente, porque nos dias de hoje, até para sobreviver nos vemos em trabalhos. mas para viver, há toda uma outra quantidade de universos que se abre. portas e portas de opções, nem todas oportunidades, muitas vezes só provas de esforço. testes à paciência. ou lições que poderiam ser aprendidas de forma muito mais tranquila do que a forma como realmente as aprendemos.
viver é uma arte. uma escultura, um quadro, uma composição musical. onde todos os pormenores contam e tornam uma peça diferente da outra. viver é uma arte, uma obra de arte em construção, onde o autor não é sozinho, mas não sendo sozinho, porque não é o único a contribuir para o resultado final, tem de fazer como se fosse, assumindo as responsabilidades totais pelos resultados que quer obter. um teste à tolerância à frustração e à capacidade de insistir, persistir e não desistir. viver é a arte de fazer tudo isto. com desânimos e desistências à mistura. com desilusões e ilusões, desejos e sonhos interrompidos ou abandonados. viver é a arte de fazer acontecer o impossível com o possível que temos à mão, viver é a arte de nos transformarmos no que queremos ser todos os dias, quase como um teatro onde o personagem se vai moldando ao actor e o actor se torna, no fim, a personagem que construiu. viver é a arte de ser o que se quer antes de se ser e de passar a ser o que se desejou ser quando o trabalho acaba. que não acaba nunca.

terça-feira, 26 de abril de 2016

coisas novas e coisas velhas

Ainda há limpa-chaminés à antiga, com as vassouras de pau e a roupa coberta de fuligem.
Ainda há carros em que os piscas são extras que os donos não quiseram adquirir.
Ainda há fangios a conduzir Citroën Saxo.
Ainda há pessoas que ocupam duas vias, para tentarem ser as primeiras a chegar.
Ainda há preconceitos e medos associados a coisas como o cancro, a morte e a procura de ajuda.


Agora há empresas de contabilidade que, na conjuntura económica portuguesa atual, têm a coragem de assumir nomes como "Conta Oculta" - ninguém me disse, eu vi.
Agora há manias intermináveis com o running, a alimentação saudável e o mindfulness (nada contra as coisas em si, só contra as manias).
Agora há o uso indiscriminado e interminável dos sentimentos e dos afectos pela classe política.

terça-feira, 19 de abril de 2016

vamos só ali ao Calçado Guimarães

viagem simples, não fosse ir com as crianças. que depois de correrem a loja toda e estarem cansadas se decidem sentar. eis senão quando o mais pequeno acha que o melhor mesmo é subir para um dos bancos e sentar-se. eis senão quando o mais pequeno é pequeno demais para subir sem ajuda para cima do banco e ao fazê-lo se desequilibra. eis senão quando, para não cair, toma uma decisão que pretende conservar a sua integridade física. eis senão quando essa decisão passa por procurar apoio com as mãos. eis senão quando o apoio que encontra são as caixas de sapatos. que caem. e batem na próxima fila de caixas, que batem na próxima, que batem na próxima, que batem na próxima. e depois há doze pilhas de caixas de sapatos no chão. vezes 5 caixas por cada pilha. fora os sapatos que estão fora das caixas.
juro que foi um momento da minha vida em câmara lenta. Eu até me dirigi às caixas no primeiro segundo, que foi o tempo que demorei a entender que não valia a pena: aquele puzzle de dominó de caixas de sapatos a cair. e os olhos da funcionária atrás de mim, a olhar para a minha criança. a odiá-la de certeza. tenho a certeza.
arrumei tudo em tempo recorde, juro. fui uma funcionária do Calçado Guimarães altamente competente durante 10 minutos, a arrumar uma loja completamente desfeita em 3 segundos. não tive expressão emocional face à criança: afinal não acontece só aos outros. e quando acontece aos outros acredito que lhes aconteça o que aconteceu dentro da minha cabeça: o meu cérebro não conseguiu aceitar que aquilo fosse real, que estivesse mesmo a acontecer. portanto, não temos reacção. ficamos só a assistir, como se não fosse nada connosco. depois tentamos remediar a situação o mais depressa possível, para que o estado de dormência seja de tal forma que não tenhamos de processar a realidade e aquilo tudo seja só um momento de sonho de olhos abertos.
vamos só ali. sem vocês.  

Mais um capítulo (in)feliz do livro “as maravilhas da maternidade”


Hoje os miúdos não “atiram o pau ao gato” porque o gato não morre, vá-se lá pensar em gatos que morram. Coisa que os gatos nunca fizeram, gastar nenhuma das suas 7 vidas. As velhas também já não “matam gatos” porque não lhes batem com as pontas do sapato. Percebo agora uma certa perseguição, pelas canções infantis, da vida felina em geral. Mas não se cantam estas coisas porque as crianças não podem conviver com violência ou com a morte. Não vá dar-se o caso de traumatizar as crianças. Vêem desenhos animados que não contam histórias, que tentam impingir valores artificiais com manobras que muitos ainda não percebem. Dão-lhes soluções imediatas e impensáveis, que nunca encontrarão na vida real e que os fazem supor uma vida sem dificuldades, perigos ou ameaças. Crianças que ao mesmo tempo vêm outras crianças mortas na praia, nos escombros de uma guerra qualquer, ou têm acesso a jogos em que zombies explodem depois de metralhados, com pingos de sangue, miolos e restos de corpos pelo ecrã. Tudo normal.
Outra coisa que me irrita e incomoda é que não há diferenciação. Ganham todos, nunca ninguém chega em último, somos todos vitoriosos e nunca há erros. Os bons alunos são bons e os maus também, poucos são os que chumbam (Deus nos livre de tal acontecer) e castigos, punições ou que tais não devem acontecer. Não vá dar-se o caso de traumatizarmos as crianças. Se não conseguirem fazer as coisas, os professores têm de tentar de outra forma, ou diminuir a dificuldade do exercício.  Não me entendam mal,
Não me lembro de ter perseguido gatos porque cantei que a velha os matava com a ponta do sapato. Nunca me deu para isso. Nem aos meus outros colegas. Cantávamos as músicas e era só. Nem os meus pais se preocuparam se eu ia seguir pela rua fora a atirar paus ou aos pontapés aos bichanos. Não se preocupavam porque se preocupavam em ensinar diferenças entre o bem e o mal, o certo e o errado. Mal ou bem aceitavam que teríamos de aprender estas diferenças por nós, aceitavam que nós íamos cair e fazer mal, para depois podermos fazer bem.
Na minha altura havia bons alunos. E maus, os que chumbavam e passavam mal nas mãos dos professores. Não havia desculpas nem segundas tentativas, no máximo construíam-se planos de recuperação para os alunos que tinham muitas negativas conseguirem passar com notas a razar a positiva. Mas os planos não resultavam sempre e muitos repetiam anos intermináveis. Porque se aceitava que a escola não era para todos, porque nem todos podiam nem deviam nem queriam ser doutores. O mundo profissional era mais amplo, porque as licenciaturas não eram para todos. Se o queríamos tínhamos de tentar, uma e outra vez. Até conseguir. Ensinavam-nos a tolerância à frustração, não se curvavam caminhos rectos porque os caminhos eram para ser feitos pelas pessoas, e não para as pessoas. Aprendíamos a crescer, com as contrariedades que a vida tinha e nos apresentava.
Lembro-me de estar num intervalo e um colega ter perguntado a uma colega, que sempre tinha tido más notas: “que vais fazer depois do 12º ano?”. A resposta foi “tirar Medicina Dentária”. A resposta dele foi brilhante: riu-se na cara dela, na boa forma como os adolescentes conseguem ser maus uns para os outros. Riu-se e disse-lhe: “tu não tens notas para acabar o secundário, vais fazer com que os teus pais gastem quanto para acabares um curso de 6 anos?”. Foi mau? Sim. Mas foi realista. Ela não conseguiu entrar para medicina dentária. Nem na privada, é claro, porque na pública era completamente impossível. Foi mau? Se calhar não. Se calhar há alturas em que temos de saber efectivamente a verdade, a realidade. Acho que os miúdos devem ter contacto com os nãos e com as frustrações no seio familiar, onde há espaço para caírem amparados, onde por muito que doam, os nãos são ditos com amor e com compreensão. Porque vão ouvi-los inevitavelmente, de pessoas que não querem saber deles, que não se vão impressionar com as suas tristezas, e deverão nessa altura estar já preparados para os enfrentar.
Na escola das mães que não existe ninguém nos diz que dói dizer que não, que temos de os ouvir chorar e continuar a dizer que não, esperando que o carácter se forme em frente à contrariedade, percebendo que existem limites que não se podem contrariar ou ultrapassar.

e para terminar com uma canção infantil altamente traumatizante, aqui fica a letra do "there was an old lady"

There was an old woman who swallowed a fly,
I don't know why she swallowed a fly,Perhaps she'll die.

There was an old woman who swallowed a fly,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.

There was an old woman who swallowed a bird,
How absurd! to swallow a bird,
She swallowed the bird to catch the spider,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.


There was an old woman who swallowed a cat,
Imagine that! to swallow a cat,
She swallowed the cat to catch the bird,
She swallowed the bird to catch the spider,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.


There was an old woman who swallowed a dog,
What a hog! to swallow a dog,
She swallowed the dog to catch the cat,
She swallowed the cat to catch the bird,
She swallowed the bird to catch the spider,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.


There was an old woman who swallowed a goat,
Just opened her throat! to swallow a goat,
She swallowed the goat to catch the dog,
She swallowed the dog to catch the cat,
She swallowed the cat to catch the bird,
She swallowed the bird to catch the spider,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.


There was an old woman who swallowed a cow,
I don't know how she swallowed a cow!
She swallowed the cow to catch the goat,
She swallowed the goat to catch the dog,
She swallowed the dog to catch the cat,
She swallowed the cat to catch the bird,
She swallowed the bird to catch the spider,
That wriggled and jiggled and tickled inside her,
She swallowed the spider to catch the fly,
I don't know why she swallowed the fly,
Perhaps she'll die.


There was an old woman who swallowed a horse,


She's dead—of course!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A gente até tenta mas conseguir é que nem sempre se consegue

Começamos pelo início. Ou por cima. Ou pelo topo. Pelo cabelo, portanto. O shampoo e o amaciador têm de ser adequados ao tipo de cabelo: seco ou não, com caracóis ou não, com cor ou não. De preferência comprados no cabeleireiro ou numa loja específica, sem sal - porque faz mal ao cabelo, toda a gente sabe. O corte também é importante, porque se não for adequado à cara e ao estilo de vida, pareceremos eternas despenteadas ou, para não o parecermos, andaremos eternamente com o cabelo preso. E para isso é preciso ter o elástico certo. De preferência comprado na farmácia, na secção de dermocosmética.
Depois há a pele. Creme de dia, de noite, preferencialmente de perfumaria, o de dia sempre com factor SPF, para ajudar a combater as rugas. Mas precisamos de esfoliante, desmaquilhante e uma máscara. Esfoliem duas vezes por semana e façam a máscara. Depois precisamos da base certa, iluminador certo, blush certo. E dos pincéis. E de um primer para a cara e para as pálpebras e para os lábios: para a maquilhagem durar mais tempo. E isto sem falar das sombras, dos batons, dos lápis e dos riméis e dos eyeliners. A pele do corpo exige esfoliante (duas vezes por semana), creme hidratante e anticelulítico. De preferência aplicado após massagem com luva de crina.
As unhas e as mãos precisam de creme, estojo de unhas adequado, base que reforce a unha, vernizes bons e um topcoat que dê durabilidade ao verniz.
Escolham bem o perfume e a roupa e os sapatos: sobressaiam mas não chamem a atenção, porque normalmente isto acontece pelas piores razões. Saias muito curtas já não dão, nem calças muito justas: olhem as borregas e a celulite, as cuecas marcadas no rabo e as mamas a saltar do soutien - que também precisa ser o certo, para corrigir a postura e por o peito bonito à vista. Sapatos abertos só se os pés estiverem cuidados. Ténis só em ocasiões especiais.

A gente tenta. Tenta muito. Tenta e no meio até tenta não gastar muito dinheiro. Mas a gente tenta e até conseguir...

quinta-feira, 31 de março de 2016

E há aqueles dias em que tentamos furiosamente estacionar como deve ser, alinhando o nosso carro com o da frente e o de trás, para fazer esquecer o preconceito da mulher condutora. E tentamos até à exaustão e depois de exaustas desistimos, porque não somos capazes, porque o carro não alinha nem por nada com o de trás, meu Deus, onde falhei eu nas aulas de condução, afinal é verdade, sou mulher logo não condutora... E saímos do carro. Frustradas, de cabeça baixa, sem coragem para olhar em frente... 

E percebemos que o carro de trás está estacionado com uma das rodas em cima do passeio...

terça-feira, 22 de março de 2016

há sempre, sempre, sempre, mais do que um lado da mesma história

Mesmo que doa, assume. Mesmo que custe, não vires a cara a este facto óbvio. Não és só tu que sabes a história, não foste só tu a vivê-la. Se não a viveste, então esquece, não sabes da missa a metade, mesmo que acredites que ta contaram toda. Porque ninguém sabe a história toda, nem os que a viveram na primeira pessoa. Porque até esses se esquecem de ouvir o outro lado da história.

A presunção de que possuímos algo na totalidade nunca é boa. Muito menos quando estamos a falar de uma perspectiva sobre um facto. Quando nos toca, só queremos saber da parte que nos toca, de mais nada. E ainda bem que assim é, não nos queria a todos transformados na estátua da justiça, de olhos fechados e sempre com a balança na mão. Somos humanos, somos imparciais. Para mais que a venda nos olhos não resolvia o problema: não é só a ver que vemos apenas o que nos interessa, é também a ouvir. E a viver, e a escolher os amigos e naquilo em que acreditamos. Mesmo quando achamos que não, estamos a escolher, estamos a ser parciais.

E depois? Depois nada. Como tudo na vida esta atitude tem consequências, especialmente se levada ao extremo. Mas para qualquer extremo. Reconhecer que somos parciais deve manter-nos no equilíbrio possível, porque ao tentarmos ser totalmente imparciais contrariaremos a nossa condição de humanos. Não percebemos tudo, não temos de entender tudo e também não obteremos de aceitar. Temos limites que devemos respeitar. Só olharmos para o próprio umbigo também dá raia, porque há um mundo em torno, que nos toca e a quem tocamos. Que não pode nem deve ser ignorado, pela ferocidade com que pode reagir.

Ouçam-se. Por muito que doa. Que dói. Mas também há verdade do outro lado da história.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Chupadinhos até ao tutano

Hoje em dia trabalhar é um desafio. O mercado de trabalho é cada vez mais internacional, sem fronteiras e, consequentemente, sem horários.
O desafio é grande e muitas vezes recompensador: desafiamo-nos constantemente e em comparação com os melhores. E quando atingimos mais um sucesso, o sentimento de satisfação é grande. Pusemo-nos à prova e ganhámos, ultrapassámo-nos, e a eles também. Estamos orgulhosos.
Sabemos que somos bons: fazemos muito e cada vez mais, num ritmo estonteante de trabalho e de aumento de exigências. Trabalhamos em empresas cada vez maiores, à escala global, e sentimos que fazemos parte de algo grande, tão grande que nem o conseguimos entender na sua totalidade.
Este sentimento alimenta-nos, torna-nos dependente dele. Ficamos adictos a este frenesim constante. Estamos constantemente em multitasking e já não sabemos trabalhar ou estar de outra forma e olhamos de lado para quem não o faz, ou leva as coisas com mais calma. Somos fortes, somos melhores, somos tão bons.

Como todo e qualquer comportamento aditivo. a coisa só corre de feição durante algum tempo. às vezes mais, às vezes menos. Mas há sempre o momento da quebra. Em que, por alguma razão, o sentido vai-se perdendo, e o gozo que retirámos daquela vida sempre a abrir se perdeu algures. Procuramos e não o encontramos. Na eventualidade de conseguirmos fazer as alterações necessárias para o voltarmos a sentir, os momentos são curtos e sempre com menor intensidade. E cada vez menos frequentes. Começamos a fazer perguntas e a analisar mais criticamente o que nos rodeia. Queremos estabelecer novas metas mas, mais do que tudo, limites. Queremos saber que existimos para além do trabalho. E que somos devidamente recompensados por tudo o que fazemos infinitamente melhor do que os outros - não somos nós que o dizemos, são todas as coisas que fizemos infinitamente melhor do que os outros, e que foram reconhecidas por todos os que nos rodeiam, e chefiam, no momento em que as fizemos.

Mas a realidade é que não o reconheceram. Deram-nos palmadinhas nas costas e mais trabalho. Habituaram-nos e tornaram-nos dependentes. A chantagem emocional levada ao limite possível dentro do contexto empresarial: "se és assim tão bom deves conseguir fazer isto, não?". E nós fazemos uma e outra vez. Porque não queremos nem nos queremos desiludir. Até ao momento da quebra. Em que entramos em luta interna sobre o que somos e o que deveríamos ser. E as mazelas da chantagem emocional fazem-se sentir: a nossa auto-estima, batida que foi durante horas intermináveis, não nos deixa acreditar no que a nossa análise nos diz. Que fomos e estamos a ser chupadinhos até ao tutano, sem dó nem piedade. Que fazemos mais do que é humanamente possível para ser feito com qualidade, e mesmo assim, fazemo-lo com qualidade, que não estamos a exigir o mundo nem a construir castelos de nuvens sobre as nossas competências. Só a olhar para a realidade como ela é, como nós a fizemos e construímos.

O mundo profissional é e deve ser exigente. Mas os profissionais também. E as pessoas ainda mais.  

I´m a sucker for happy endings

Não sou a melhor pessoa do mundo. Não sou, nem sequer me dou muito a esse trabalho. Tento melhorar umas coisas, mas também gosto de ter os meus ressentimentos, os meus sentimentos negativos, as minhas pessoas odiadas. Às vezes sem motivos, só porque sim. Porque sou humana e não me cheira que me ponham, em versão figurino de cerâmica, em cima de um altar quando eu morrer. Não me cheira nem quero, que esta coisa da santidade dá trabalho mesmo post mortem... e eu quando morrer quero descansar.

Bem, sem outras divagações: não sou a melhor pessoa do mundo mas adoro finais felizes. Gosto de ver pessoas felizes. Não só no fim, mas também no meio e no início. Fico feliz por saber que as coisas correm bem, que as minhas amigas e amigos, ou até completos estranhos, atingem os seus objectivos. Gosto. Gosto de saber que tudo corre bem e fico contente quando isso acontece. Até nos filmes gosto de finais felizes.

Fico assim com um sorriso tontinho a ouvir, a sentir a felicidade dos outros. Felicidade dá energia. Dá coisas boas cá dentro. Mesmo quando a felicidade não me diz respeito directo a mim, sinto que me toca, que me abraça. Sinto a felicidade dos outros não como se fosse a minha, sinto-a apenas como ela é. Quente, dourada e redonda.

Habituei-me que a vida faz o que quer, porque o que controlamos é infinitamente menor do que o que não controlamos. Nessa hábito, habituei-me a esperar a que os momentos se desenrolem, que as coisas acontecem. A agir sempre que necessário, mas só quando necessário. Sinto que as pessoas felizes são assim, tomam a decisão certa no momento certo, e por vezes nem precisam de andar a correr atrás das coisas: são capazes de as apanhar no momento certo em que elas passam. Admiro a felicidade porque parte muitas vezes de decisões certas, às vezes arriscadas, às vezes inesperadas. Decisões que são baseadas em certezas, às vezes não palpáveis, certezas que temos cá dentro, certeza de que aquele é o nosso momento, a nossa pessoa, o nosso lugar.

Felicidade é também saber o que ser, onde estar e com quem estar. Felicidade é poder saber escolher, mesmo quando as escolhas são limitadas ou inexistentes, porque também podemos escolher como olhar para a vida e felicidade também é saber quando é preciso dar um passo para trás ou para o lado para, depois, quando for o momento certo, podermos andar em frente. Porque nos desviámos de um obstáculo intransponível. Felicidade é saber quem somos sem vergonhas ou mentiras. Não somos felizes sempre. Mas quando somos, fico feliz.

Gosto da luz nos olhos e nos sorrisos. E na voz. Gosto de ouvir pessoas felizes.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

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YYYYYYYEEEEEEEEEEEEEEEEEEIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII

Ando a "papar" "Fringe" como se não houvesse amanhã

O Fringe é uma série menos boa, de 2008, que eu sempre quis ver e que nunca consegui. Agora ando a vê-la. Inclui episódios onde pessoas infectadas com modificações de sífilis se têm de alimentar de medula óssea para sobreviver.

Ahhhh pois é. Bom como só eu sei escolher. Bem, pelo meio há toda uma teoria da conspiração que envolve a existência de universos paralelos que irão colidir. Só melhora não é? Mas, lá pelo meio também, falam de algo que pode passar facilmente despercebido, face ao tamanho dos outros non sense todos que por lá aparecem: do poder enorme que reservamos hoje para a tecnologia e de como cada vez mais é possível que, através dela, a Humanidade venha a sofrer consequências irreparáveis, até para a sua continuidade neste planeta.

Balelas. Mais do mesmo. Filosofia para burgueses (li isto no outro dia no Facebook e gostei). É verdade. Mas quando, no dia 26 de Dezembro, fico a saber por uma informação transmitida pelo meu telemóvel que outra pessoa, que não vejo há anos, recebeu um Iphone pelo Natal....

Venham lá os outros episódios do Fringe (são 5 temporadas e eu ainda vou na primeira. Não me sigam o exemplo, por favor).

Estão sempre a dizer-nos para não deixarmos a nossa criança interior morrer

Porque é bom rir e brincar, porque é bom sonhar e sorrir. Por essas coisas todas que as crianças fazem milhares de vezes melhor do que os adultos. Para mim, não deixar a nossa criança interior morrer é particularmente importante pela simplicidade de raciocínio.

Na cabeça das crianças tudo é simples e linear. Demasiado linear, obviamente. Mas nem tanto ao mar nem tanto à terra: na cabeça dos adultos as coisas tendem a ser demasiado curvilíneas e circulares. Tanto que muitas vezes nos perdemos dentro dos nossos próprios raciocínios altamente complexos e intrincados e tão, mas tão... burros. A distância que separa dois pontos não tem de ser sempre igual à distância que separa a Terra da Lua. Às vezes podemos desenhar só uma recta. E já está. Será assim tão complicado? Adoramos as meias palavras, as meias frases e os segundos sentidos. Evitamos os momentos de confronto directo e de verdade. Não somos definitivamente como as crianças que se zangam diariamente com os seus melhores amigos, lhes batem e chamam nomes e os odeiam de morte até ao dia seguinte, altura em que tranquilamente voltam a ser os seus melhores amigos. Que simpatia seria se alguns dos sentimentos dos adultos pudessem ser abordados dessa forma. Mas na realidade... até podem.

Às vezes as palavras só querem mesmo dizer o que dizem, nada mais e nada menos. E às vezes fazemos as coisas só porque sim, porque "porque sim" e "porque não" são respostas tão válidas como outras quaisquer. Porque são. às vezes são as coisas só porque sim. Porque nos apeteceu ou apetece. Ou porque não faz sentido, e se não faz sentido porque é que havemos de o fazer? Porquê? Porque é que criamos tantas expectativas sobre o comportamento alheio, quando na maior parte das vezes os efeitos desse mesmo comportamento são pouco mais do que irrelevantes para a nossa via e inclusivamente para a nossa convivência?

Tudo isto me surgiu na cabeça ao quarto dia em que, depois de levar o meu filho à escola no carrinho dele, encontrei a mesma criança que, do alto dos seus 3 anos (mais coisa menos coisa) perguntou (como nos outros três dias anteriores) porque vinha uma senhora a empurrar rua abaixo um carrinho de bebé sem bebé. Porquê, meu Deus, porquê vem esta alminha a empurrar um carrinho de bebé sem bebé lá dentro? Que sentido tem isto?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Quando a vida te segura

Tomamos decisões todos os dias. Umas mais pequenas, outras maiores. Outras que nos mandam para o desconhecido, que aumentam o nível de incerteza na nossa vida, que nos mostram o conforto que a certeza traz. Porque esse conforto desaparece e a certeza também.

Quando essa mudança é querida, batemo-nos por ela. Fazemos tudo o que nos é possível para que resulte. Mas como sempre e em todos os locais da vida, há momentos maus. Que nestes casos têm dois sentidos: são maus porque o são e porque alimentam o bichinho da incerteza. Aquele bichinho que nos rói a consciência e planta nos buracos que faz a pergunta "e se...". E se não tivesse feito, e se não tivesse dito, e se não tivesse virado ao invés de lá ficar?... 
Poucas são as vezes em que vemos claramente que a nossa decisão foi efetivamente a melhor, venham os maus momentos que vierem, façam-se os sacrifícios que tenham de ser feitos. Poucas são as vezes em que a vida nos segura, dando-nos a segurança que precisamos de ter para nos mantermos no nosso caminho. 
São poucas, mas acontecem. Felizmente.  

domingo, 17 de janeiro de 2016

Pensamentos depois de fim de semana dedicado à costura

1 - coser à máquina não é nem tão difícil nem tão fácil como se possa pensar.
2 - os truques e os pormenores a que dar atenção são mais que muitos (aprender a conduzir é pinners em relação a isto. A sério)
3 - porque é que não aprendi isto com as minhas avós que eram as duas costureiras de primeira? Porquê meu Deus, porquê? 
4 - há acessórios para tudo. E são precisos, acreditem.
5 - as máquinas novas são muito muito mais simples do que as antigas. Mas as antigas tinham uma mesa que as novas não têm. E faz tanta falta.
6 - coser implica mooonnnteeesss de espaço livre.
7 - viva o YouTube e os mais de milhares de vídeos que há sobre a costura. Pena que sejam quase todos em inglês e eu não faça ideia do que estão a dizer na maior parte das vezes.
8 - a quem está muito espantado com este meu hobbie não esteja. O próximo vai ser o restauro de móveis.
9 - já tinha muito onde gastar dinheiro (só não tinha o dinheiro) e agora quero ter aulas de costura (e continuo sem ter o dinheiro).
10  - balanço dos dois dias: um fecho numa camisola e um pijama transformado num robe (as costureiras melhores do que eu estão proibidas de se rir).
11 - tema excelente para reabrir as hostilidades aqui. Beijos