quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Aqui vamos nós 2016


A passagem do ano foi um momento que nunca me agradou muito. Esta "imposição" de ter de estar contente e animada e ter um programa para lá de espectacular, organizado logo em outubro, que garantisse diversão para lá de sobrenatural, que metesse os nossos amigos todos e nos fizesse estar de ressaca até dia 3 de janeiro nunca foi a minha onda. Aliás, ficava logo de mau humor quando se falava da passagem de ano. 
Tudo passa e agora já vivemos bem uma com a outra. Apesar de nunca manter fascinado o momento da passagem do ano, fascina-me a ideia de termos todo um novo ano de possibilidades e oportunidades. 365 dias de novas tentativas para melhores resultados. A possibilidade de viver. Não há nada que me fascine mais: tentar, fazer novo e diferente. Adoro.

Por isso, a todos, mesmo todos, que 2016 nos abra as portas e nos mostre quem podemos ser melhor do que fomos antes e nos traga as oportunidades de sucesso que desejamos. 

Mais que tudo, façam por ser felizes. Todos estes 365 dias. Sejam felizes. E mostrem à vida que a sabem viver.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Isto também é um post de Natal

Já fez dois anos que aderi ao PROVE. É um sistema através do qual, por uma quantia bastante simpática, tenho quinzenalmente um cabaz de verduras e frutas, tudo biológico. Gosto de encontrar as lagartas e os caracóis quando lavo os verdes. E de sacudir a terra das raízes. Sinto que estou a comer coisas a sério.

Vou buscar o cabaz ao CSP de SJB. À frente, um nível abaixo, estão as capelas mortuárias da igreja. Fui buscar o caba para o Natal: as couves, as batatas e as cenouras que competem ao bacalhau. Vinha carregada ao sair, satisfeita por saber que ia lavar couves com caracóis ou lagartas. E depois olhei para baixo. E à porta da capela mortuária estava um conjunto, não muito pequeno, de pessoas. Dia 23.

Não me mete medo a morte. Nem morrer. Hei de o fazer, espero e peço que tranquilamente. Mas esse estado de tranquilidade que peço não é só para mim. Peço-o também para quem fica. Mais até para quem fica do que para mim, que tenho algumas convicções sobre o que vou encontrar, convicções essas que me deixam relativamente tranquila. Pelo menos agora. A esta distância da morte (penso que ainda é alguma).

Morrer no Natal. É matar involuntariamente todos os Natais que hão de vir para os que cá ficaram. Se não todos, pelo menos muitos do Natais dos que cá ficam. O Natal é a família e morrer nesta altura é o corolário da expressão "só Deus tem os que mais ama". O Natal é a família e morrer no Natal é por à prova a família, a sua força e a capacidade de continuar a festejar o que o Natal é: a família. Que foi partida no momento da sua própria festa. Morrer no Natal é desafiar a força da união que existe entre os que ficam e o que vai, para que se continue a acreditar que esse laço continua a existir e por isso a família não partiu, só se distanciou, continua a ser quem é, quem sempre foi e há de ser.

Feliz Natal.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Antes que me esqueça

Há uns anos atrás, em estado ovo Kinder, jantei numa noite de Santo António na Esplanada da Mouraria. Sardinhas no pão, como se quer aos 13 de Junho.
Estava demasiado grávida já, e demasiado pesada. Ao lado da esplanada há umas escadas. Procurem-na no Google Maps, vão perceber onde é, e onde vão dar as benditas escadas. Estava demasiado grávida já, e demasiado pesada. Mas galguei as benditas escadas e mais o resto tudo que me faltou até às portas do castelo. Viva o Santo António. Estava demasiado grávida já, e demasiado gorda. Estava de saltos e na calçada portuguesa. Saltos de cunha, mas saltos à mesma. Cantaram-me o "quem será o pai da criança" às portas do castelo na noite de Santo António. 
Vivam os santos populares em Lisboa, que no meio da multidão bêbeda foi de certeza o santo António que me amparou na subida. E na descida, que foi muito pior que a subida. Nisso e no desgosto de saber que ia parir mais um para andar aos caídos nos santos, daqui a uns anos. Já não hão de faltar muitos, que isto é tudo a correr e em passo muito acelerado.
Dez dias depois pari. 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Boa condutora? Se não for Dezembro e não te chamares João...

Dezembro é mês de bater com o carro. É isso que acontece. Na minha vida de condutora, em Dezembro bate-se com o carro. Às vezes de forma assustadoramente realista e a ver a vidinha a andar para trás ou, se quiserem, rapidamente para a frente em direção ao seu fim. Outras vezes são só chatices, que desarranjam os dias e chateiam pela estupidez de onde nasceram.
Não é Dezembro que é o ponto comum. Ou melhor, não é só Dezembro. O outro fator comum é o condutor chamar-se João. Chamam-se todos João. Sempre.
Logo, se for Dezembro e te chamares João, foge. Este Dezembro já não precisas fugir. Já bati num João. 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Em dias que são horas que são anos


Há momentos em que recordar é reviver. Mesmo. Há horas em que a memória nos subtrai à nossa realidade e nos leva a um sítio do contínuo espaço/tempo que não existe a não ser na nossa cabeça e naquele momento. E voltamos a estar num sítio que já não existe, como se estivéssemos com o fantasma do passado do conto do Dickens. Mas no presente.

Tudo na vida tem um sentido. Mesmo que só tenha sentido naquele momento - momento em que normalmente não nos faz assim tanto sentido quanto isso. Pareço confusa mas não estou. Pensem num momento da vossa vida que foi estranho, mau e bom ao mesmo tempo. Encontram-no de certeza. De certeza que também se lembram que foi um momento difícil, que muitas vezes vos desesperou e que muitas vezes vos fez pedir que não estivessem ali. Só agora, tempo passado, conseguem recordar com um sorriso nos lábios o que passou. Mas não querem lá voltar, já não faz sentido. Só fez quando aconteceu e quando estava a acontecer não fazia assim tanto sentido. 

Há tempos tive um momento desses. Foi bom. Desses tempos guardo comigo memórias tão intensas e boas como guardo pessoas boas - essas mais do que memórias, trouxe-as comigo. Por tudo o que foi vivido nesse passado, marcámo-nos umas às outras. Somos só mulheres. Caímos ali, e para não cairmos lá de todo, agarrámo-nos umas às outras. Unhas e dentes, para não arrancarmos os nossos próprios cabelos. Não sei se chorámos muito, mas lembro-me que desesperámos muito.

Mas o que nós rimos. O que ainda conseguimos rir hoje, a lembrar de tudo o que era mau e ao mesmo tempo bom. Era só mau na altura, mas como as relações que ficaram são boas, de repente as memórias são só boas. Já não interessam as noites não dormidas, os insultos e insinuações estúpidas, a incompetência e as virilhas totais. Já passou. Agora é só riso. E as memórias que nos trazem um sorriso aos lábios. Mesmo aquelas das quais temos alguma vergonha. 

Há momentos da vida que só fazem sentido uma vez. Mas ainda bem que podem ser vividos. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

tenho aqui dois posts inacabados que hão de seguir para o "forno" ainda hoje. espero.

coincidences are God's work, not man's

A vida tem sempre o condão de me surpreender. Sempre. Muitas vezes de forma pequena, nos pormenores. Mas é nos pormenores que um plano razoável passa a ser um plano brilhante, ou ao contrário. São os pormenores que nos diferenciam uns dos outros, umas vidas das outras. Uns dias dos outros. São os pormenores que fazem a excelência do que quer que seja.
Num só dia conjugaram-se tantos acontecimentos que tenho para mim que esse será um dia que terei de guardar na memória, para me recordar de como Deus se pode expressar tanto na nossa vida de uma só vez, sem que tenha de fazer quase nada. Na verdade não foi apenas num dia, foram em dois. Mas isto da intervenção divina tem o que se lhe diga e como foi muita informação junta, ainda bem que foi dividida por 48h, e não veio toda concentrada em 24h.
Certo é que acabei as 48h de sorriso ténue nos lábios. Sussurram-me um nome ao ouvido. Fui à procura dele. Encontrei-o, depois outro e mais um. Primeiro franzi o sobrolho e quase que uma pergunta se formou na minha cabeça. Mas foi só quase. Porque alguns anos de desprendimento trazem-nos algum conforto. Sacudi a cabeça, deitei aquele início de pergunta borda fora, para não pesar. Aquele momento passou. Já não é meu. Olhei em volta e mais uma vez percebi que o sítio onde estou é onde quero estar.

nas mesmas 24h nasceu uma, morreu outra, fizeram-me uma oferta, renovei os votos duma amizade que já tem mais de uma década. nas outras percebi que os fins também são inícios, que os funerais nunca me disseram nada e cada vez menos, que os microfones nas igrejas aumentam o potencial de riso e que por muitas voltas que a vida dê, quem importa nunca deixara de importar, porque as desculpas são sempre possíveis e os perdões também.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

este post tem instruções

Para ler este post é preciso:

estar a ouvir o "Hopeless Wanderer" dos Mumford & Sons.
ler a letra do "Hopeless Wanderer"

"You heard my voice I came out of the woods by choice
Shelter also gave their shade
But in the dark I have no name

So leave that click in my head
And I will remember the words that you said
Left a clouded mind and a heavy heart
But I was sure we could see a new start

So when your hope's on fire
But you know your desire
Don't hold a glass over the flame
Don't let your heart grow cold
I will call you by name
I will share your road

But hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
And hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer

I wrestled long with my youth
We tried so hard to live in the truth
But do not tell me all is fine
When I lose my head, I lose my spine

So leave that click in my head
And I won't remember the words that you said
You brought me out from the cold
Now, how I long, how I long to grow old

So when your hope's on fire
But you know your desire
Don't hold a glass over the flame
Don't let your heart grow cold
I will call you by name
I will share your road

But hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
And hold me fast, Hold me fast
'Cause I'm a hopeless wanderer
I will learn, I will learn to love the skies I'm under
I will learn, I will learn to love the skies I'm under
The skies I'm under"


ler o post

a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. eu havia de ir para onde sopra o vento e voltar a ir sempre que ele roda. eu havia de ir onde muda a primavera e onde o rio se transforma em chuva. eu havia de usar os pés e as asas e ir onde o mundo roda. eu havia de andar o mundo tanto como ele anda sobre si. eu havia de ser ar e vento e chuva e as cores do arco íris. eu havia de ter sido feita de natureza, eu havia de não ter corpo nem olhos, eu havia de sentir e pertencer só, só sentir. sentir quando o vento chama e eu tinha de ir. eu havia de ir porque ele me chama muitas vezes. eu havia de ser solta, eu havia de estar com eles, eu havia de ser só, sem estar. 

a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. e deram-me um coração e umas mãos e uns pés. e um coração para amar. e muitos corações para amar. e eu em vez de ir fiquei. a mim deram-me corações para amar e eu já só ouço o vento às vezes. é mentira. eu ouço-o sempre que ele muda e sempre que ele me diz que vai. ou que vem. mas a mim deram-me corações para amar e eu já só o quero ouvir às vezes. quando quero sentir o que ele me dá. quando quero ser solta. e só sentir. a mim fizeram-me filha da mudança e do vento. e eu hei de ir. quando for hei de dar tantas voltas ao mundo quantas ele dá sobre si. 

agora tenho corações para amar. 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Na escola das mães...

Na escola das mães que não existe, ninguém nos ensina que vamos ser mães que fazem chorar os filhos. Mais: ninguém nos ensina que vamos ter de os magoar e fazê-los chorar, às vezes mais do que uma vez por dia. 
Ninguém nos diz que uma febre ou um dente a nascer são suficientes para nos cortar o coração ao meio, porque é preciso o supositório, é preciso o médico, é preciso o creme. Ninguém nos disse que obrigar as crianças a tolerar estas situações é impossível: elas não as toleram. Elas gritam e choram e, certamente, odeiam-nos porque não querem saber do que nós sabemos. E nós sabemos que as temos de obrigar, e ignorar o choro delas, e forçá-las a sentar e estar quietas, a pôr o supositório ou o creme, a abrir a boca para o médico ver as amígdalas. 
Ninguém nos disse que vamos ter de fazer isso tudo a ouvi-los chorar aos berros nos nossos ouvidos e mesmo assim fazer de conta que nada se passa. E continuar a obrigá-los. E continuar a fazê-los chorar. Mesmo quando nos pedem. Mesmo quando já choram ainda antes de estarmos ao pé deles. Só por nos sentirem chegar ou porque dizemos alguma coisa em particular. Ninguém nos disse que os vamos odiar nesses momentos porque nós odiamos a nós próprias e a esses momentos. Porque eles não percebem e podiam perceber. Que tudo o que fazemos é por eles e que, na verdade, está a custar-nos muito mais a nós do que a eles. Porque eles não percebem nem acreditariam em nós, que mantemos a cara serena e os gestos decididos. A fazê-los chorar e sofrer. Porque tem de ser. Porque só assim melhoram. Porque sim. 
Na esca das mães que não existe esqueceram-se de por muita matéria no programa.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Para ficar escrito

Há muito que não mantenho os registos. 

De repente os dois anos demonstraram-se em força. Dizes tudo, com muitos pontapés no português, mas toda a gente te percebe. E quando não percebe tu repetes, repetes até à exaustão, até conseguirmos nós dizer o que tu querias dizer. És o terrorista mais terrorista e mais fofinho que existe: tudo quando queres e te dá jeito. Teimoso. Tão teimoso. De birras com saltinhos e dança irritante à mistura. Os pesadelos que me matam as noites e o cérebro e me fazem ansiar por entrar em coma profundo, para conseguir descansar. 

Ama-la tanto que dói. Hoje doeu-me. Quando percebeste que ela não vinha. Mais uma birra. Mas esta doeu. Tanto amor concentrado em tão pouca quantidade de gente é brilhante.

Ela já é pessoa inteira. Tão inteira que me faz temer pela adolescência inteira dela. Vou morrer tantas vezes, antecipo já todas as mortes. Pela roupa, pelo cabelo, pelos sapatos, pelos amigos. Deus. As mulheres são mesmo outra coisa, doutra qualidade. Vejo-a querer ser mais e mais depressa do que devia ser: fui eu também assim? Quero ser crescida, porque é que nasci pequenina? Respondi-lhe que vai passar o tempo de pequenina a querer ser grande e o de grande a querer ser pequenina. Que cenas maradas se passam por aqui. 

Educar é ensinar a cair, deixar cair, ajudar a levantar, sacudir a poeira e ensinar a aprender com os erros da queda. E depois deixar cair outra vez, confiando na capacidade cada vez maior de se levantarem sozinhos. Para conseguirem crescer e voar sempre, mesmo quando não estivermos por perto. Educar é ensinar a olhar para aqui e lá para a frente, ensinar que cada passo certo é medido e que cada salto é um risco, e que ambos devem fazer parte de como andamos para a frente. Educar é amar os defeitos e tentar dobrá-los para que não os magoem a eles, que nós amamos ainda mais.

Crescem tão depressa que se não escrever não vou ser capaz de me lembrar.

3 a caminho dos 30

Doem-nos as negras do caminho. Que são nossas, foi o caminho que as fez em nós. Mossas maiores e mais pequenas, mais superficiais e mais profundas. Numa onda muito Spice Girl "when two become one" cá vamos indo. Ainda muito no princípio mas já com muita história para contar. História e estórias, episódios mais ou menos tontos, mais ou menos malucos, mais ou menos deprimentes. Mas estamos cá. 

Felizes e contentes? Sempre que possível, que nem sempre é. Uns dias mais que outros. Amar é isto, é destruir fronteiras para construir pontes que têm tantas vezes de ser destruídas e reconstruídas, tal como os destinos vão mudando, ou as formas de os atingir. Amar é andar às turras e gritar o mesmo, a duas vozes, um contra o outro e contra o mundo e depois só contra o mundo. Amar é saber que estamos acompanhados na cama pela pessoa certa, tenha o dia corrido mal ou bem. Amar é querer estar a bordo quando a tempestade se aproxima e fazer figas para que o barco sobreviva intacto e mais forte à chuva e ao vento. Amar é diferente todos os dias, é diferente de pessoa para pessoa, de casal para casal. 

Mas há 3 anos que somos dois a querer ser um e eu espero que sejam muito mais do que 3. Mesmo sem que tenhamos dito as palavras, que seja até que a morte nos separe.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

a propósito de Sísifo... ou keep rolling, rolling, rolling yeah

ora as conversas às vezes são inteligentes, valha-nos isso, e até a mitologia grega consegue ser citada. não estamos mal e podemos, de vez em quando, orgulhar-nos das nossas capacidades.

ora então voltemos a Sísifo e às suas pedras. e ao movimento inútil das suas pedras. ontem, por causa do post de ontem, e por causa dos buracos onde nos encontramos e onde perduramos, falou-se de Sísifo e a questão levanta-se: o que ensina Sísifo? A capacidade de não desistir ou a persistência no erro?

Ninguém sai do seu buraco a não ser que queira. A não ser que dentro de si alguma campainha toque e determine que está na hora de andar para a frente. ninguém se mexe a não ser que, mais ou menos de repente, a sua cabeça e o seu coração reconheçam como erro o que se andou a fazer repetidamente. isso sei eu. eu sou psicóloga e sei que as pessoas põe os pés ao caminho quando querem - e este quando querem quer também dizer quando conseguem, quando finalmente as coisas passam a fazer sentido ou a deixar de o ter. o que os outros nos vão dizendo, à medida que vamos cavando o nosso buraco tem pouco que se lhe diga, tem pouco efeito, pouco impacto. no fundo, no fundo, lá no fundo do nosso buraco, não lhes reconhecemos capacidade ou valor ou sequer conhecimentos para que possam alvitrar sobre o que se passa connosco. e continuamos a cavar.

mas na realidade, em muitos momentos, sabemos que eles têm razão. até podemos achar que. a viver a nossa vida, cavariam um buraco tão grande, ou até maior, do que o nosso. sabemos que falam da boca para fora, mas sabemos que têm razão. que o erro existe, está lá, para toda a gente ver. para nós às vezes é tão doloroso que nos entra pelos olhos dentro. persistimos porque queremos ou porque não conseguimos deixar de persistir. estamos como Sísifo agarrados às nossas pedras e ao seu movimento inútil. e continuamos a cavar, mesmo quando metade da nossa cabeça já nos grita: PÁRA. e nós continuamos.

para mim, é deixar as pedras onde estão. saltar-lhes por cima, sacudir a cabeça e as mãos e pensar que não temos de morrer com tudo resolvido. às vezes, há coisas que não se resolvem. pelo menos não neste tempo de vida. saltar-lhes por cima usando-as como degraus: transformar fraquezas em forças, assumir o porquê de termos cavado o buraco, assumir as razões feias, porcas e más que nos levaram a cavar o buraco e usar isso como escudo, como lança e como bengala e andar para a frente sabendo do que nos faz cair. sem medo. as pedras hão de resvalar, todos sabemos. nada na vida se mantém, tudo é temporário. já o disse tantas vezes: até a vida é temporária.

Sísifo não ensina, porque Sísifo estava a aprender: o seu arrastar de pedras foi castigo de se meter com quem mais mandava. quem mais manda que eu aqui, só eu. só eu me posso condenar a arrastar pedras.    

domingo, 27 de setembro de 2015

às vezes a vida aponta-nos uma arma à cabeça (dos buracos onde nos metemos sem nos apercebermos)

Avisos: este post contém calão. Este post é teu X.

Nunca senti o frio de uma arma apontada à cabeça. Felizmente, Nunca estive numa situação limite dessas. Mas não é preciso isso para sentir que tenho uma arma apontada à cabeça. A vida faz o favor de me fazer isso de vez em quando. Só para me mostrar quem manda. Ou para me mostrar a merda que fiz durante não sei quanto tempo e que fui ignorando. E que agora se transformou nesta linda situação onde me encontro e de onde não me posso mexer.

É mentira. É claro que me posso mexer. Não há arma. E a vida não tem propriamente um corpo. Portanto não vai disparar, bater-me ou correr atrás de mim. Posso sair daqui. É só dar um passo em frente. Aliás, há todo um coro de vozes das pessoas que dizem que gostam de mim e que se preocupam comigo que pedem para eu me mexer.

Fodasse, e para onde? Para onde é a saída que eu estou aqui a magicar há tempos infindos e ainda não a vi? Para onde é, digam lá almas iluminadas? Como é que eu saio deste filhadaputa de buraco que fui cavando, sem pá e sem deixar entulho (para onde foi o entulho? Um buraco deste tamanho só pode causar imenso entulho. Onde está o entulho que eu não o vejo porra)? Um buraco muito bonitinho, muito arranjadinho e limpinho (já perguntei onde está a merda do entulho??), mas um buraco, um buraco onde eu não quero estar, de onde eu queria tanto sair.

E quando eu tenho esta ideia vem a vida lembrar-me de todos os avisos que me foi fazendo, a cabra. Eu sei que me avisou. Eu sei. Não sei porque não a ouvi, mas agora ela passou-se dos cornos e deixou-me aqui, a mim, que me esforcei sempre e tanto para que tudo corresse bem, para que todos estivessem satisfeitos, para que não houvesse problema algum. E a vida foi-me avisando: olha para ti. Olha para ti. Olha para ti. E eu não olhei. Se tivesse olhado tinha de ter feito qualquer coisa. E não fiz. Havia já demasiado em jogo. Muita coisa a perder. Muita coisa difícil de ganhar. Muito mais luta, muito mais esforço. E tudo isto cansa. E cansa muito.

Ninguém tem forças sempre e para sempre e para tudo. Uma pessoa cansa-se. Quero cá saber da arma. Estou aqui e daqui não me vou mexer. Chamem-lhe comodismo ou maluquice. Quero cá saber. Falar é fácil. Cavei um buraco, é verdade. E depois? Adianta chorar sobre o leite derramado? Não. A vida não volta para trás por pena de nós. Pelo contrário, a puta até se põe a gozar connosco. Hás de aprender, nem que seja à força, é o que ela nos diz. Acreditem em mim e não confiem nela. a vida é do caralho e no fim, ganha sempre ela: nós morremos e ela continua.

É o meu buraco. Fui eu que o fiz. Deixa-mo cá gozar. Afinal, é fruto do meu trabalho.   

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Por comparação

Por comparação sou a pessoa mais feliz do mundo - calma gente, não estou a dizer que sou infeliz, nem muito nem pouco, que não sou: fazer o favor de ler o post até ao fim.
Medir-nos usando a régua dos outros é um dos maiores erros que podemos fazer. É isto. E isto funciona quer quando nos medimos pela régua dos que estão melhores que nós, quer quando nos medimos pela régua de quem está pior do que nós. 
Em palavras simples, eu sei que estou muito melhor do que as pessoas que, neste momento, atravessam alguns países da Europa, ao frio e à fome, com os filhos nos braços, para tentarem chegar a outro país, com uma língua distante da sua onde, com sorte, serão aceites e encontrarão melhores condições do que as que tinham no seu país. Digo com sorte porque até mesmo atingindo o objectivo da chegada poderão não atingir o objectivo da permanência. Eu sei que nem sequer sei o que é pensar estar assim.
Também sei que há pessoas que estão melhor do que eu: mais felizes, menos preocupadas, mais tranquilas do que eu. Com mais segurança no futuro, menos dúvidas e ansiedades quanto ao que conseguiremos fazer ou dar aos filhos.
Mas saber isto adianta pouco à minha vida. No limite, pode prejudicar os meus próprios planos para o futuro, se me deixar enredar quer no comodismo que deriva da ideia "há pessoas muito piores do que eu, não me posso queixar de nada, deixa-te lá estar quieta". Ou se me deixar no negativismo que a inveja pode causar "nunca hei de ter o que aquela tem, por isso mais vale estar quieta". Viver em comparação põe em comparação o que está por fora. E não o que está por dentro. Não conseguimos comprar o que somos e a nossa história com a história de qualquer outra pessoa. Não somos essa pessoa, não lhe vivemos a vida. Vivemos a nossa. 
Por favor não me interpretem mal. A tragédia humanitária dos refugiados não me passa ao lado. O que estou a escrever tem outro propósito e outro motivo. O que estou a escrever é para me relembrar que quero ter sempre um outro sítio onde chegar: que me faça melhor, a mim e a quem me rodeia. E para me relembrar que para esse objectivo acontecer são os meus pés que lá me vão levar. Isto tudo porque ando a passar alguns dos meus dias com miúdos que não têm objectivos. Que não têm expectativas. Que não se têm respeito porque nunca foram respeitados, porque as pessoas que as rodeiam não se respeitam. Porque, como percebi hoje, vivem em comparações inúteis e autodestrutivas que as mantêm num ciclo sem futuro. Para elas e para quem vem a seguir a elas. É triste como é fácil matar para sempre a vida futura de alguém. De uma família inteira, durante muitas gerações. 
Até aparecer alguém que tenha a coragem de quebrar o ciclo. Só que quebrar estes ciclos é difícil, porque quem os quer quebrar há de ser encarado como uma ovelha negra, como um maniento, arrogante, não há de ter apoios e há de ser olhado com desconfiança. É triste ver isto acontecer. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Já houve muita maneira de o pôr

Já disseram "isto é uma droga". Já disseram "podem tirar as pessoas dos paliativos mas não os paliativos das pessoas". É um bicho que nos muda por dentro. Tipo bicho da Madeira, mas que em vez de destruir constrói. Ou destrói o que lá estava para construir uma cosia nova.

Este texto vem muito fora de tempo. Vem muito tarde. Desculpem. Mas mesmo agora, a escrevê-lo, sei que as minhas palavras não vão chegar para dizer tanta coisa que só nós sabemos. Melhor assim talvez. Imagino que o V., se alguma vez ler isto, se ria e fale do excesso de sentimentalismo. Talvez tenha razão. Talvez seja um exagero, mas na verdade, foi exageradamente que senti a minha saída. Vir-me embora não foi difícil. Difícil foi vocês ficarem. Não porque acho que fiquem mal ou por outra razão qualquer. Apenas porque não vos pude trazer comigo. 

Já lá estive. Já não sei aquelas paredes como minhas, já não sei aqueles toques, aqueles truques, já nada daquilo sou eu, a minha vida. Já nem sequer desejo ou tenho saudades. Não sei se alguma vez sequer senti saudades. Mas vocês são outra história. Vocês são a minha história, a história dos meus últimos 9 anos. Das caras novas, e foram tantas para mim, das discussões velhas, dos desafios e dos fracassos. Os almoços, os jantares, os casamentos e os miúdos. Nove anos de mudança constante e de constantes constâncias. Vocês são outra história. Das conversas pseudo consultas, dos cigarros e das escadas. Dos risos às gargalhadas, dos doces, da louça desaparecida ou suja no lava louça, nunca arrumada nos sítios certos. Sabe Deus o mistério dos talheres desaparecidos.

Acontecem tantas coisas em nove anos. Tantas que não têm conta nem dão para contar. Ficam cá dentro. Para não esquecer. Porque vocês são outra história.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Top 5 dos arrependimentos no fim de vida

1 - ter vivido a vida que os outros esperavam que vivesse, ao invés da vida que queria ter vivido

2 - ter trabalhado de mais

3 - não ter expressado as emoções da melhor forma

4 - não ter mantido o contacto com os meus amigos

5 - não me ter permitido ser mais feliz.

Isto não é invenção minha. a fonte é o The Guardian, que publicou um estudo realizado por uma enfermeira britânica, em Unidades de Cuidados Paliativos, e que nas suas conversas com os seus doentes, recolheu a informação necessária para construir este top 5.
Eu já sabia isto. Eu já vi isto, eu já ouvi isto. Muitas vezes, de muitas formas, até quando uma pessoa que teve uma carreira brilhante, das mais brilhantes que conheci, me disse que nada disso interessava, compreendia agora, porque não tinha acompanhado a família.
Mas ler um estudo, publicado numa outra língua, com validade científica, é outra coisa. Tem outro impacto. Sobre mim, que me habituei a seleccionar muito bem o que lia e a veracidade do que era dito. E ao ter sobre mim, tem forçosamente sobre a minha vida. Tem de ter. É obrigatório que tenha. "Sê a mudança que queres que aconteça". Temos de pensar sobre isto. A vida é a que há. Não há rosas, nem nuvens de algodão doce. Há o que há. E nem sempre é fácil olhar para o que há e descobrir-lhe algo de positivo, ou de bom. Mas o esforço é uma obrigação. Se quero a minha vida melhor. O queixume e a lamuria, a falta de planeamento e empenho, o cansaço de que tudo o que é mau, de tudo o que tolhe e encolhe, de todas as decisões que nos sentimos obrigados a tomar fazem-nos pequenos. Cada vez mais pequenos. Temos medo, porque achamos conforto no que não nos obriga a arriscar.

Um dia, vi no TED uma palestra sobre como podemos utilizar o medo a nosso favor. Recorrendo à "productive paranoia", uma estratégia que nos obriga a enunciar tudo o que pode correr mal e o que poderemos fazer para ultrapassar ou evitar esses acontecimentos. Fi-lo. Estou numa situação privilegiada, não tenham dúvidas, que eu também não as tenho. Não tive só coragem, tive e tenho muitas ajudas. Mas podia não o ter feito. Podia ter assumido que o risco era demasiado grande e que era preciso esperar pela melhor altura. Pelas condições certas. Podia ter esperado. E no fim os meus arrependimentos fazerem parte daquele top 5.

Juntem-se. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

no meio das coisas todas que existem para dizer, ouça-se primeiro isto

You say you're not gonna fight
'Cause no one would fight for you
And you think there's not enough love
And no one to give it to
And you're sure you've hurt for so long
You've got nothing left to lose
So you say you're not gonna fight
'Cause no one would fight for you

You say the weight of the world
Has kept you from letting go
And you think compassion's a flaw
And you'll never let it show
And you're sure you've hurt in a way
That no one will ever know
But someday the weight of the world
Will give you the strength to go

Hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
So hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
So hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
Just hold on, the weight of the world
Will give you the strength to go
 lamechiches via "Robot Boy" dos Linkin Park

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Estou a tentar voltar

Normalmente não me calo por não ter nada para dizer. Na amador parte das vezes é exactamente o contrário. 
Calo-me porque tenho a cabeça cheia de coisas, pensamentos, dúvidas e cenas semelhantes, que se enrodilham, misturam, dão nós. Esta sobrepopulação cerebral só por si é cansativa, o que me deixa depois sem energia para tentar desembaraçar o que para aqui vai.
Foi o que me aconteceu agora. Cenas a mais na mesma vida, só uma voz para as contar, e aí uma pessoa para as resolver. Passou o mais tumultuoso, vem aí o pior. Para depois chegar ao melhor, espero. 
Voltei. E há tanta coisa para dizer.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Para além das provas científicas da vida depois da morte....

.... Tenho provas inequívocas da existência do superego. 

Ora bem.... Este mês é especial. Muito especial. Por muitas razões. Ando a mil. Mil milhões. 
Uma amiga mandou-me um sms "almoçamos?". Não podia responder no momento, ainda por cima ia dizer que não. Nunca mais me lembrei. Nunca mais. Até que este sábado, mais precisamente na noite de sábado para domingo, o meu superego lembrou-se de me lembrar. 
Sonhei que a minha mãe estava zangadíssima comigo, a insistir que enviasse um ramo de flores à minha amiga, para agradecer o almoço que ela nos tinha enviado às duas. E ligava-me insistentemente para me dizer que eu nunca fazia as coisas quando devia. 

Acordei e andei a arranjar forma de pedir desculpa. A minha colega tirou psicologia clínica, vertente dinâmica. Até aqui o destino me castiga. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Vida para além da morte? Já acreditava nesta hipótese, mas agora... Agora tenho provas científicas da sua existência!

Ora bem.... A minha vida de monótona não tem mesmo nada. E este post tem a colaboração não voluntária da V - que quando soube da história me mandou um sms que começava por "OMFG" tal como eu esperaria dela.

Há muitos anos, mesmo muitos, conheci uma pessoa. Podia escrever tive a infelicidade de conhecer uma pessoa, mas não precisamos de chegar aí. Conheci uma pessoa e quase que tive uma relação com ela. Quase. As coisas eram engraçadas, eu estava num período esquisito da vida e achei que aquilo me ia dar um empurrão para sair do buraco. E ele beijava bem. Saímos algumas vezes e uma vez tive de sair para ir salvar a minha amiga V de cometer um assassinato. Sem exageros. Ela estava mesmo capaz de matar a pessoa e eu achei melhor, apesar de tudo, por a amizade acima do que estava a acontecer. Deus não dorme e eu devia ter percebido que era Ele, através da minha muito agnóstica amiga V, que me estava a salvar dum precipício. Onde eu teimosamente vim a cair sozinha e voluntariamente. 
Na realidade, a minha expectativa daquela relação acabou por se concretizar, apenas duma forma muito diferente daquele que eu tinha antecipado. Tive o meu desejado empurrão e saí do sítio esquisito onde estava. Mas porque fugi, a bater com os calcanhares no rabo, do que me estava a acontecer.
A coisa acabou mal. Não a soube acabar bem mas também não me preocupei muito em acabá-la bem. Tudo tranquilo, fui explícita a fugir. Mesmo explícita. Algum tempo depois fui até má quando respondi a uma sms. Mesmo má. A tentar matar a cena. 
Agora, quase dez anos depois recebo um sms - mal de quem não muda de número de telemóvel - "olá miúda". Não fazia ideia de quem era o número. E depois soube. E depois começam as perguntas: A sério? Mas mesmo a sério? Miúda???? Respira fundo. Muito fundo. E bloqueia o número no Whatsapp.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

o silêncio, deixa-me ileso...

assusta-te o futuro? não. pratica o desapego. aceita o que vem, o que está, porque com tombos e resvalos, toda a vida acaba por se encaixar, fazer sentido, progredir. basta que a aceitemos como ela se apresenta.

bonitas frases, bonito de dizer, difícil de pensar, difícil de sentir, difícil de fazer. a raiva. sabe-me muitas vezes a boca às raivas que calo, que tenho de calar. para não partir para a estupidez. tenho muitos momentos de cartoon na minha cabeça: de repente sou um boneco em desenhos animados que estou, qual Homer Simpson, lançada à garganta da criatura a quem estou a fazer saltar os olhos das órbitas. tenho muitos momentos assim. é o que me ajuda a voltar a respirar, é o que me permite o pequeno escape onde posso "fazer" o que eu queria: revoltar-me, gritar, estas coisas todas que aprendi a calar cá fora, ditas e postas fora do peito. a zanga personificada naquele momento cartoon dentro da minha cabeça: sou o Homer Simpson e aperto o pescoço às merdas que me põem no caminho.

aceitar o que vem e o que está é bonito e fácil quando isso não implica ter de aceitar uma besta qualquer a dizer umas quaisquer bestialidades sobre coisas verdadeiramente importantes. esta é a parte mais difícil. cala-te minha besta. cala-te, por favor. o silêncio é um bem tão precioso, porque não te calas tu?! porque será que o silêncio perdeu valor? agora escrevemos mais do que falamos, mas escrever também é falar. e falamos e opinamos mas não nos damos ao trabalho de ouvir o que estamos a dizer, nem de ver o dano que causamos com as nossas palavras. ou se calhar não o queremos ver: uma das formas mais fáceis de atenuarmos o nosso sofrimento pode ser criar uma onda de sofrimento geral. deixamos de estar sozinhos e o sofrimento é mais tolerável.

por isso há muitas bestas por aí, a dizer bestialidades. a causar o caos que sentem nas suas vidas nas vidas alheias. muitas muitas muitas.

a importância dos dois dígitos

raismapartam se não seria mais fácil eu ser uma pessoa efusiva e que soubesse expressar siginficativamente melhor as emoções fisicamente. mas não sou. já o disse noutras alturas: não sou efusiva, sou intensa.

conhecer alguém há mais de dois dígitos, que não seja família, é para mim um marco importante. talvez porque tenha conservado poucas amizades do antigamente: fui (me) perdendo (d)as pessoas, que passadas não se fizeram presente. conhecer, aqui, não quer dizer conhecer, quer dizer conhecer, gostar, ser amiga. por isso, quando passo os dois dígitos com alguém estou a atingir um marco verdadeiramente importante.

dez anos é muito ano, muito dia, muita hora. dez anos é muito tempo. se a isso juntarmos que foram mesmo quase dez anos, porque houve muita hora de convivência diária. o tempo é ainda maior.
se a este facto juntarmos que nesta grande convivência foram vividos muitos e muitos e ainda mais momentos intensos, o tempo que já era muito, volta a esticar. se a estes dois factos juntarmos que em muitos desses momentos intensos, esta pessoa, que nós conhecemos há mais de dez anos foi o nosso apoio, o nosso escudo, a nossa crítica e o nosso ânimo, voltamos a esticar o tempo já esticado que já era grande.

às vezes paro, tenho parado e olhado para o que está e o que foi e o que há de ser. paro para pensar e penso que não há nada em que pensar. o que está a acontecer não é emoção só, é vida, é mais que nós e está para além de nós. ficam memórias e pedaços de coração agarrados uns aos outros.
um dia havias de cá estar. hoje é o dia.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Eu sou mãe e também vou às festas dos meus filhos

Mas vamos lá bem a ver pais/avós/tios deste país: para que são as cenas menos próprias de braços no ar, aos saltinhos, no meio do público, a chamar o vosso filho/neto/sobrinho???? Dizei-me pessoas, para quê? 
Quando eles são mais crescidos, até é um comportamento mais ou menos tolerável, mas corremos sempre o risco de os desconcentrar, e fazer com que se esqueçam do que têm de dizer ou de fazer. E nós estamos lá para os ver a eles. Não o contrário. Eu consigo acreditar que eles se lembram de vocês os terem deixado lá e de lhes terem dito que vão estar no público a filmar e tirar fotos e a ver. Eles sabem que vocês lá estão, gostam do vosso apoio, mas provavelmente estão nervosos e o melhor mesmo é não os chamarem. A sério.
Mas o pior é mesmo quando são mais pequenitos. Nestas idades eu sou um bocadinho contra as festas do colégio. As crianças têm dificuldade em gostar de estar a fazer aquilo, perdem-se nas coreografias e nunca na vida se irão lembrar que aos 18 meses fizeram uma figuraça na festa da escola. E provavelmente porque em todas as fotos estão a chorar porque vos viram a acenar, a atirar beijinhos e cenas parecidas e, como é óbvio, quiseram abandonar o palco. Movimento que foi contrariado pela educadora e, como é óbvio, resultou num coro brilhante e contagioso de gritos lancinantes e lágrimas gordas.
Podíamos ficar por aqui mas depois há o momento final, a cereja em cima do bolo: a devolução das crianças. Pais, calma. Elas não se perdem nos bastidores e as educadoras não querem ficar com elas. Portanto, mais segundo menos segundo, terão o vosso filho de volta. Mas para que isso aconteça, se calhar desimpedir o acesso à porta é boa ideia. Para que as outras crianças que não as vossas possam ser entregues aos pais. As educadoras chamam por vocês. Garanto-vos.
Posto isto, tirem fotos, filmem, batam muitas palmas no fim, sorriam, riam e babem de orgulho à medida que o petiz vai evoluindo. Mas tudo sem cenas macacas desnecessárias, há que manter o nível. As crianças agradecem.

Olhós namorados, primos e casados...

Eu sou do tempo em que se cantava isto aos amigos, para os irritar, quando uma rapariga sentava mais próxima dum rapaz. Tinha uma continuação, mas já não me lembro.

A intimidade não é amor. Não é sexo. Não é nudez. A intimidade é estarmos dispostos e à vontade para nós expormos, numa relação em que dois são um, naquele momento. A intimidade é boa e assustadora, porque acontece quando estamos mais vulneráveis, mas nos quisemos pôr assim. Naquele momento, quem connosco está podia tirar-nos tudo, de supetão, mas não o faz porque está exactamente na mesma situação. Pusemo-nos, despidos de tudo o que nos protege, nas mãos um do outro. E percebemos a força que assim se cria, na perfeita consciência um do outro, das nossas virtudes e defeitos, dos nossos limites e da perfeição da imperfeição humana. Encaixamos nas limitações do outro, quando ele encaixa nas nossas. Peças imperfeitas para criar uma máquina humana fantástica. A intimidade não acontece porque se cria, só. Tem também de acontecer por ela, naquelas magias únicas das relações humanas. Naquela delicadeza bonita dos actos de amor cuidados e profundos, puros, do dar porque sim, porque é o que faz sentido, porque o momento assim nos pede.

A intimidade é dizer é isto que sou e é disto que sou feita. Sabendo que vai existir um sorriso de compreensão nos outros olhos que também me estão a ver assim. A intimidade acontece no amor, na nudez, no sexo. A intimidade acontece quando contamos um segredo, ou ouvimos uma confissão. A intimidade exige uma proximidade que não é só física, é das almas que se tocam. 

Mais uma lição aprendida com humildade. Hoje. 

Tudo na vida é temporário, até a vida

Agora já se pode falar da coisa como ela é, sem disfarces, e sem meias palavras. 
Não foi um sítio fácil de atingir, e não o atingi sozinha. Passaram muitos momentos de incerteza, de pouca certeza e de desespero. Mas já cá estou e daqui não saio. Só para a frente, que para trás não há caminho. 
Quando comecei a falar na minha decisão, que estava há muito tomada e era uma certeza clara, senti, como já tinha acontecido noutros momentos da minha vida que nada seria como dantes. Não havia um retorno daquele ponto, o caminho que me tinha levado até ali tinha desaparecido: não havia como voltar atrás. Isso não me intimidou. Estava no sítio certo à hora certa, porque em mim, cá dentro, a decisão tomou o seu espaço e abriu-me os olhos. E eu vi claramente outras coisas que lá estavam e ainda não haviam sido vistas. E essa visão tranquilizou-me, o sentido construiu-se e tudo ficou bem dentro de mim. 
Tudo continua bem dentro de mim. Mas vou morrer de saudades vossas. E isso é algo inominável, que não tem tamanho nem peso, mas que me enche até eu ter de constantemente não pensar nisso, para não ter de me responder à pergunta como vou eu fazer sem vocês ao meu lado.
Estas são só palavras poucas. Sei que quando o momento chegar hei de ser capaz de escrever o que todos vocês merecem ouvir. De como são grandes e gigantes todos os dias, de como me orgulho de tudo e de todos. Sempre, mesmo nos dias maus. Porque somos. E vocês são e eu fui e sou convosco.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FDP das coincidências das datas

Hoje é dia 29 de Junho. Hoje, se fosse vivo o meu avô faria 83 anos.O meu avô morreu há quase 4 anos. Falo nele muitas vezes, porque o que lhe aconteceu no fim de vida e que. no limite, causou a morte dele foi de livro. Como trabalho na área em que trabalho, o que aconteceu ao meu avô e com o meu avô marcou-me de muitas maneiras. E mostrou-me o que é importante fazermos na vida. O meu avô foi operado duas vezes, porque quis, sempre sabendo que podia morrer. E fê-lo porque a vida não tem, nem deve, de ser vivida só porque sim, ou só nas condições em que se apresenta. Às vezes é preciso arriscar, mesmo que isso queira dizer que pomos em risco a vida em si.
Hoje, por muitas razões, ainda bem que era o aniversário dele. Porque, de outra maneira, teria sido muito difícil ver este dia acabar.
Não vou dizer parabéns avô. Espero que ele tenha conseguido seguira  sua vida e que não viva agarrado ao que e a quem cá deixou (sim, eu acredito nestas coisas). E por isso não o quero prender como meu. Já foi. Mas ainda bem que hoje é o dia em que ele fazia anos. E ainda bem que foi meu avô.

Eu e o Walt Disney

Nas histórias de encantar as madrastas são más. bem, não são só más: a da Branca de Neve era bruxa e tentou matá-la, o que cai um bocadinho para lá da categoria de má. Nós, portugueses, temos uma expressão que demonstra o lado habitualmente negativo desta palavra: "a vida é madrasta". Tantas vezes dita, esta frase feita é dita sem termos muita atenção às palavras que a constituem.
E aqui começa a minha saga.

As amigas da minha enteada começam a perceber que eu existo. E a dar-me importância. Na realidade, acho que encaram a experiência de falar comigo quase como eu encaro a experiência da montanha russa. Olho para ela e sei que é um desafio, sei que é assustadora, sei que me vai custar e me vai por o coração aos pulos. Mas vou na mesma, só para no fim me poder rir e dizer: consegui.

É neste espírito que me abordam estas pessoas pequeninas, Um misto de "eu não tenho medo de ti mas é melhor que não te chegues muito perto que eu não tenho a certeza que a coragem chegue para tudo". Olham para mim e começam pela pergunta de teste "és a mãe?" (já sabem a resposta, estão só a testar-me). Respondo que não e dou seguimento à conversa, tal como querem que aconteça: "sou a madrasta". Sorriem: encontraram o bicho e o bicho assumiu-se. Vitória, primeira vitória. Às vezes repetem a palavra, em estilo interrogativo "a madrasta?". Sim, sou eu. E depois apressam-se a perguntar "mas és boazinha não és?". Acho que precisam de se assegurar que a amiga não está nas mãos de uma psicopata qualquer que vai tentar sufocá-la com uma fruta qualquer. Na última conversa, tive de explicar o que é uma madrasta. como é que ela surge. Tentem explicar a uma criança que sou madrasta porque vivo com o pai da criança: como é que uma figura tão má como é a de uma madrasta nasce da convivência entre duas pessoas na mesma casa. É brilhante. Tenho de sorrir. Este medo misto de assombro e de descoberta - afinal as histórias de encantar não contam a história toda - é maravilhoso. E assustador. Pressupõem que sou má porque nas histórias as madrastas são más. fazem mal e têm um péssimo fundo. E não entendem como pode ela fazer-me festas e dar-me beijinhos. O mundo delas entra em contradição na minha presença. Eu vou contra o meu papel, contra a herança que o Walt Disney me deixou, quando criou o filme da Branca de Neve, e depois da Cinderella e, mais recentemente, o da Rapunzel. Eu não sou o que o Walt Disney andou a dizer que as madrastas são.

Se vocês vissem a cara dos outros adultos que ouvem estas conversas quando eu as tenho. Não sei o que receiam mais: que eu não seja capaz de ter esta conversa adequadamente ou que eu seja capaz de a ter. Acho que mesmo quando somos adultos as dúvidas persistem quanto à qualidade das madrastas que por aí há. Mas eu sou das boazinhas, prometo.

Aviso à navegação

Hoje, em princípio, este blog será aumentado de forma considerável, fruto dos posts que ando a escrever, mentalmente, de há uns dias para cá. Aguentem-se.

Somas e subtracções

De sexta a sábado estive quase 21 horas acordada. As últimas 2 quase a entrar em desespero total. De olhos abertos mas já com o corpo a dormir, queria mexer-me e o esforço tinha de ser sobre-humano. A fabulosa frase "a maternidade faz parte duma experiência que pretende provar que o sono não é essencial à vida humana" ressoa muitas vezes na minas cabeça. Somam-se as horas de cansaço. Mais umas quantas nesta senda interminável da infância dos nossos filhos. A puxar a corda uma e outra vez. admiro como o corpo funciona depois duma noite daquelas. E o que é certo é que funcionou, mais um bocadinho menos um bocadinho.

O momento não foi de soma. Foi de multiplicação a potenciação. Até o coração rebentar e eu me ver a sentir coisas nunca sentidas. Os miúdos a ver televisão de mão dada. Assim, espontaneamente. Explode-me o coração neste turbilhão de sentimentos positivos. Afinal no meio das coisas menos positivas que me vejo a fazer, muitas condicionadas pelo sono, muitas pelos meus defeitos e muitas pelo que não sei fazer, estão a acontecer coisas positivas. Não as faço sozinha, não dependem só de mim, e muito depende unicamente deles, dos putos maravilhosos que eles são e que construíram, tão pequenos, uma relação como esta. Abraçam-se sem ninguém lhes dizer o que quer que seja, acordam-se e odeiam-se e amam-se como irmãos. Somam-se as coisas positivas. E ultrapassam o que perco com as subtracções constantes às minhas horas de descanso.

Um dia hei de dormir tudo. Na altura que se hão de odiar e discutir e eu de perder o sono outra vez, a pensar em estratégias para que voltem a ser o que são agora.

Se calhar as somas e subtracções anulam-se, no final das contas. Mas as marcas que deixam as somas são maravilhosas, para lá do explicável, e neste ponto que se assenta a maravilha de termos filhos.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Vou dizer-te a ti o que não lhe disse a ela

Mas provavelmente não. Queria dizer-te que escrevi isto para ti. Como escrevi para ela, não isto, mas outras coisas, e não lhe disse. Não disse porque não podia, porque os limites são os limites e ainda existem alguns que não sei como quebrar, rodear, esticar. Não lhe disse como gostei de escrever as palavras dela, como me fizeram sentido e como me fizeram sentido as palavras que ela me disse. Todas elas.
A merda é mesmo nunca mais irem acontecer aquelas nossas boas conversas. Essa é que é a grande verdade. É tão difícil ter uma boa conversa sobre a vida que quando a vida nos rouba oportunidades para as ter, se torna só estúpido. Odiei quando me lembraste disso. Tens toda a razão. Nunca mais vamos ter aquelas conversas boas. 
Não vais saber disto porque provavelmente ela vai morrer hoje. Se é que já não morreu. E amanhã, quando eu aí chegar, tu já não vais estar e provavelmente vamo-nos "perder" e, sem ela, será que as conversas vão ser as mesmas ou ter o mesmo sabor? 
Claro que não. Íamos olhar uma para a outra e lembrarmo-nos de hoje, quando chorámos as duas agarradas e tivemos pena, tu claramente mais do que eu, e por razões óbvias, mas eu também muita, de ela ir morrer, estar a morrer.
Vou deixar-te então assim, na minha ideia guardada e perfeita de como foi conhecer-vos, de como tivemos boas conversas, daquelas raras, daquelas enormes, daquelas que me fazem sorrir e chorar ao mesmo tempo. Vou deixar-te como ela perfeita, porque foi o que vocês foram e transmitiram ao mundo: a perfeição possível quando o mundo desaba e nos foge o chão.
Merda.

O problema é ignorarmos o instinto

Vou dar um exemplo simples. Muitos de nós bebemos menos água do que deveríamos beber. Muitas vezes porque nos (des)educamos a não beber, das mais variadas formas. Se respeitássemos o nosso instinto, à partida, beberíamos a água necessária para estarmos bem: os restantes animais só bebem menos água do que a que devem quando a ela não têm acesso em quantidades suficientes. 

A vozinha que vive dentro da nossa cabeça (que muitos descrentes nestas coisas desvalorizam), para mim, está lá a representar o nosso instinto para as situações mais evoluídas, para as situações humanas, as que nos diferenciam do restante mundo animal. A famosa expressão do "eu bem sabia" existe por alguma razão. A vozinha fala e orienta-nos. E nós vamos muitas vezes contra ela. Acreditar no instinto é um movimento de fé. Fé em nós, nas nossas capacidades, na avaliação inconsciente que já fizemos da situação, mesmo ainda antes de pensarmos conscientemente sobre ela. Acreditar que a vozinha está certa é um risco. Porque muitas vezes também ela nos lança numa direcção inesperada, numa direcção em que não tínhamos pensado com cuidado, lança-nos em direcção a um desafio maior do que aquele a que, conscientemente, nos propomos. 

Acho que é perceptível, a esta altura do blog, que me interessa como a nossa parte animal nos afecta a parte humana (isto como se os humanos pudessem não ser animais). Gosto da ideia de sermos unos, coesos, uma parte refém da outra e vice versa, gosto de como a nossa parte humana consegue forçar a nossa parte animal a ultrapassar os seus limites. Mas gosto de como a nossa parte animal nos condiciona e nos molda e como encontrou formas de se manifestar mesmo agora, que tentamos a todo o instante provar que não somos animais. E esta vozinha é sem sombra de dúvidas (minhas é claro) uma dessas formas.

É de confiar? O que é o instinto, a vozinha? Será que, por muitas vezes que possa ter estado certa no passado, está certa agora, desta vez? Porque nos puxa tantas vezes para o desconhecido, ou simplesmente afasta do conhecido? E quando nos diz "não vás por aí", que está a querer assinalar?

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Acreditar em sinais

Tudo o que fazemos, vemos ou sentimos passa por um processo de interpretação - primeiro automático e inconsciente, um processo dos nossos órgãos dos sentidos e do cérebro. Depois um processo semi consciente, onde as nossas memórias ajudam a seleccionar quais as informações que são mais relevantes e têm mais impacto sobre nós. E depois um processo totalmente consciente, durante o qual reflectimos sobre a informação que nos rodeia, que nos chegou, e decidimos o que fazer com ela. 
Tudo é interpretação e por isso tudo é enviesado. Somos sempre parciais na nossa própria vida, o que realmente não importa, porque não há sequer outra forma das coisas acontecerem. 
Assim sendo, podemos livremente interpretar o que nos vai acontecendo e construir uma história que é a nossa, que também é o que geralmente fazemos. Nas coisas maiores, pelo menos. Tentamos encaixar as nossas escolhas num quadro amplo, que nos faça entender o passado e planear o futuro. 
E depois acontecem pequenas coisas. Coisas que poderíamos deixar passar em branco, sem lhes atenção, pouca ou muita, que podíamos deixar cair no esquecimento. Coisas que para outros parecem insignificantes. Mas que se as seleccionarmos, se lhes dermos um papel no nosso quadro, passam a ser peças fundamentais para a harmonia da imagem final.
Podemos pensar a vida como nos dá jeito. E, às vezes, por nos dar jeito, podemos interpretar acontecimentos aleatórios como sinais de que estamos no caminho certo. Que mal haverá nisto? Nenhum, parece-me. 
Hoje, fechei mais um pouco da porta, e fiquei um pouco mais tranquila.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

No rescaldo das festas

Em pós casamentos, é fácil retomar o tema do amor. Li o blog da Margarida Rebelo Pinto (não morri nem me caiu nenhum dentinho, mas estou a falar disto para evitar ideias de plágio e maldizer). Ela falava sobre as diferenças entre o amor é a paixão. Acho que era isto. Afinal acho que dizer que li o blog é dizer uma mentira: passei os olhos, de viés, por um post do blog dela, que alguém tinha postado através dum link no Facebook.
É fácil falarmos e escrevermos sobre o amor, a sua presença ou ausência, porque o amor é universal. Sentimo-lo por pessoas, animais de estimação, momentos ou coisas. O amor está cá dentro, como uma necessidade à espera de ser satisfeita. 
Mas deste amor, do amor que acontece entre duas pessoas, há sempre mais alguma coisa a dizer. É sempre possível riscar mais algumas palavras no extenso conjunto de textos já escritos sobre a temática até porque, julgamos nós, e talvez acertadamente, a nossa história de amor é diferente das outras que já ouvimos.
Não sou romântica. Ou sou e não demonstro. O princípio do amor acontece. A continuação do amor construímos. Porque o amor é um sentimento de compromisso, não é um sentimento que caia há primeira contrariedade, ao primeiro dia menos bom. Não é sentimento que caia ao fim de um ano mau. Não cai e não o devemos deixar cair. Porque o amor enraíza e dá flor, é como uma árvore: está viva no inverno, quando é mais feia e sem folhas. Mas mesmo feia precisa de ser cuidada, precisa beber e ter sítio por onde crescer, precisa de quem o sabia podar, para rebentar mais forte da próxima vez. 
O amor é assim, quase como a fé: não se explica e só se sente, às vezes nem o sentimos, mas sabemos que ele lá está, e não deixamos de acreditar nisso. Pomo-nos é a trabalhar para que ele volte a aparecer mais depressa. Às vezes perde-se no meio das outras coisas todas, às vezes é pequeno mas nós sabemo-lo enorme: é por isso que continuamos a dizer que amamos quando tudo parece perdido, é a essa bengala que nos agarramos para continuar e levantar depois de termos tropeçado, sozinhos ou juntos. 

O amor perdura, é a árvore que há de voltar a florir quando o sol voltar.

sábado, 13 de junho de 2015

Somos muito mais e muito menos do que aquilo que pensamos ser


Cai-me muito cabelo. Há muito tempo. E agora caem-me os cabelos brancos. Porra. Agora vou ter de deixar algum tempo a pensar nisto. Não estou preparada para ter o cabelo todo branco. Mesmo. Não sei como vou reagir. E o tempo que é preciso no cabeleireiro para pintar o cabelo? Fico dormente. E como tenho de estar muito tempo sem óculos não consigo nem ler nem aproveitar de outra forma o tempo. E dói-me a cabeça. Enfim.

É o tempo a passar, a contar. Na minha necessária humildade de ser mais uma pessoa, no meio de tantas, cresce-me uma pressão dentro do peito. Passam os dias feitos anos e que tenho eu para amostra? As conversas últimas têm sido boas para pensar. Tento estar mais disponível para ouvir, para aprender e para mudar. Tento. Tento ver e ouvir para além do que acontece, ver a forma como o hoje se pode reflectir positivamente no futuro, se souber aceitar e viver o presente.

Ser mais uma pessoa, dentro de mais um corpo, com tudo o que a isso está associado devia lembrar-nos do nosso encaixe na ordem natural das coisas. Como eu há muitos mais. Não há problema. Mesmo. Foi assim que foi e é assim que há de ser, sempre. Acho que nos esquecemos muitas vezes desta nossa faceta incontornável: sermos humanos é sermos animais. E isto dá-nos à mercê da Natureza, sem alternativas. Somos capazes de criar a nossa liberdade até um certo ponto: até onde ela nos deixar. Vivo tranquila com essa ideia, da mesma forma que vivo tranquila que um dia o meu tempo deixará de contar, que acabará, vivo tranquila com a ideia de que hei de morrer. 

Não me assusta o fim. Assusta-me chegar ao fim sem nada para mostrar de relevante. Quero chegar e fazer balanços positivos, orgulhar-me da maior parte das coisas que fiz e da pessoa em que me tornei. Persegue-me esta inquietação. Vejo vidas que não entendo e aponta-me o dedo do preconceito: quem sou eu para julgar? Que percebo eu? A vida é todos os dias diferente e todos os dias igual - se a vida é aprendizagem, há de se repetir até aprendermos. Aprender é fazer diferente, e isso é ja fazer melhor: quebrar o ciclo, andar para a frente. Mesmo que seja depois para rever o percurso.

Penso muito nisto. Penso na M e na P e na A e em como me puseram num lugar privilegiado para observar a essência da vida, para me obrigarem a pensar, questionar, bater com a cabeça e voltar a bater, e fazer diferente e melhor. 

Aceitar os meus limites e reconhecer as minhas potencialidades e franzir o sobrolho enquanto me pergunto se não andamos todos às avessas: as minhas potencialidades humanas são infinitas na relação com o outro e não noutros sítios.

Penso muito nisto.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Quando elas nos entram pelos olhos dentro, é difícil não as ver (à M e à P) - muitas asneiras daqui em diante

É fácil de dizer: tenho uma filha da puta cá dentro que me está a comer. Já me fez vomitar chorar querer morrer e querer viver só para lhe provar que sou melhor do que ela, mesmo enquanto se banqueteia com o meu corpo. Tenho uma merda cá dentro que me atormenta, que me assusta todos os dias, mesmo quando não penso nela. Mas penso nela há demasiado tempo, vivo com esta besta há demasiadas horas de demasiados dias de demasiados anos. 

O tempo que às vezes parece todo igual não é. Hoje há tratamento, amanhã há esperança, depois só quero desaparecer e afogar-me nas minhas próprias lágrimas. Aprendi há muito tempo e rapidamente que facilmente morremos disto. Não desta merda em que o meu corpo se está a transformar. Morremos facilmente deste carrossel de emoções que nos traz a todos os extremos da mente humana no mesmo dia, duas e três vezes, às vezes mais. 

Supero-me todos os dias. A pessoa que fui já nem me lembro de como era. Mas acho que já não me lembro de quem era a semana passada, já aconteceram tantas coisas entre esse dia e hoje que já sou outra pessoa. Sou uma pessoa muito diferente, espero ser uma pessoa melhor. As pessoas vêm e vão, novas e velhas, amigas de sempre e caras novas e todas falam do mesmo da mesma forma: que guerreira sou, que sorte têm de me conhecer, que grande testemunho vou deixar no mundo, com tão pouco tempo de passagem.

Caralho para esta merda toda. Às vezes dava a minha doença toda para ser uma pessoa medíocre, mas viva, uma pessoa medíocre viva, é uma ideia de realidade que tantas vezes me parece a melhor do mundo. Gostava de viver sem este medo de morrer hoje, agora ou daqui a bocado, de o meu corpo explodir ou implodir, ruim em porcaria putrefacta. Gostava que o ar me cheirasse ao que cheira o de todas as outras pessoas, e de não me cheirar maravilhosamente bem depois duma crise de falta de ar ou de dor que já passou, como se conseguir respirar normalmente fosse a melhor coisa do mundo. Quando para as pessoas medíocres, que não vão deixar nada de si no mundo, nem bom nem mau, que vão viver as suas vidinhas nem felizes nem infelizes, de quem ninguém se vai lembrar daqui a duas gerações, o ar cheira sempre ao mesmo, a coisas tranquilas, cômodas e monótonas. Falta-me a cor cinzenta na vida.

Na minha vida há um preto de fundo que tento todos os dias pintar de outras cores. Tudo o que leram até agora é verdade e mentira. É verdade porque nem sempre as forças me têm à tona de tal forma que não consiga ver só o preto e a degradação física que de mim se apoderou. Há momentos em que me podia enterrar viva e esperar a morte real, porque morta já estou, por dentro, por fora, sem pés para dar nem mais um passo. Há momentos em que eu já não existo, já cá não estou. 

Mas depois há os momentos em que sou eu e esta pessoa nova que em mim nasceu e que já sou eu. Uma pessoa que decidiu mostrar a esta merda que me está a comer por dentro que o que come não sou eu, é só a carne onde eu por acaso vivo. Eu sou o que cá vou deixar, e o que cá vou deixar é do tamanho do mundo que eu sou, porque eu sou um mundo de coisas boas, de mudança, de objectivos alcançados. Eu construí o que aprendi e o que consegui ensinar com o que vivi. 

Esta merda está-me a comer e vai matar-me. Eu sei. Todos sabem, e eu já cresci de tal maneira que já aceitei essa realidade, sem medos. Já morri tantas vezes durante este percurso que uma a mais ou a menos não faz diferença. Falo pouco disso. Não tenho medo mas estou assustada. Sei lá o que é morrer ponto final. De todas as vezes que morri, mesmo as mais más, foram só mortes temporárias. Sei lá eu o que me espera ou quem me espera, ou se é só um fim sem direito a epílogo. Vou morrer sem medo mas estou assustada de morte. 

Tenho uma filha da puta cá dentro que me está a matar. Mas eu já nasci outra pessoa, e ela só está a matar quem já não existe.

terça-feira, 2 de junho de 2015

as trepadeiras

as trepadeiras são verdadeiros habitantes do mundo selvagem. gosto delas. gosto da maneira como crescem independentes do chão mas agarradas a tudo o que lhes possa servir de apoio. gosto de como são oportunistas mas o compensam com a beleza do cair das suas folhas ou do equilibrismo perfeito quando passam dum ponto de apoio pra o próximo, a criar um arco perfeito. Gosto da sua desorganização organizada, natural, de força a crescer para cima e para a frente e para onde der para crescer. Gosto de trepadeiras por serem aparentemente independentes mas daquele tipo de independência que gosta de mimo. Porque aprendem e aceitam quando as moldamos, e podemos facilmente levá-las a fazer os arcos e as voltas que queremos, dando-lhes os pontos de apoio que nos interessam. Continuam livres e fortes e selvagens, mas em convivência connosco, a seduzir-nós com a sua beleza e com a ideia de que as domámos, quando estamos nós domados por aquela força brutal que só estas plantas que crescem sabe Deus como nos fazem sentir.

se quiser, este espaço pode ser seu

Escrevo muito sobre outras pessoas e às vezes  para uma pessoa em particular, seja ela quem for. Quem me inspirar ou me marcar. Ou só porque sim, às vezes sem grandes justificações - porque não as há.
No outro dia, no emprego, aconteceu uma coisa. E uma pessoa disse-me: "não me digas que agora também vou parar ao teu blog?!" e eu respondi: "podes ter a certeza!". Tenho a certeza que a maneira como ela pensou que poderia "cá vir parar" não é esta. Mas é assim que a cá vou por.


Trabalhamos a mil. A mais de mil, a gerir mais de mil coisas ao mesmo tempo, a pensar, fazer, perguntar e responder, tudo ao mesmo tempo, tudo com qualidade e um sorriso, mesmo quando estamos desfeitos ou preparados para nos atirarmos à jugular da pessoa que está à nossa frente. Trabalhamos e rimo-nos, para aliviar o stress constante e a pressão sempre em crescente. Para esquecer as nuvens cinzentas, tantas vezes negras, que pairam sobre a vida de quem nós ajudamos. Rimo-nos muito. As gargalhadas são sempre presentes, são presentes por serem prendas no nosso dia a dia, que nos levam para outros sítios, ou que pelo menos, por momentos, nos tiram dali.

Estou velha. De cada vez que vêm novos, vêm mais novos. Eu também estou mais velha. Riem muito os mais novos, e ainda bem. Rio-me muito com eles, e vejo-os crescer como profissionais como ninguém, a um ritmo impressionante, e com uma qualidade também ela impressionante. Vêm novos e trabalham como quase como se fossem velhos na profissão, em pouco tempo, a reagir duma forma estonteantemente positiva ao stress constante e à pressão sempre em crescente. Vêm novos e não saem velhos cansados, mas experientes no confronto diário de desafios constantes e dos mais difíceis: as pessoas em sofrimento e a capacidade própria de resistência à frustração. São quase heróis: trabalham horas a fio, noites a fio, dormem pouco e aceitam que têm de trabalhar muito para serem melhores.

Este espaço também é teu, que nunca viste os desenhos animados do Bocas ou que tinhas algumas dúvidas sobre o Mad Max original. Que és mais nova que o meu irmão. E provavelmente que a minha prima. E isto para mim é assustador. A tua idade. Mas rimo-nos muito. E isso é o mais importante.

domingo, 31 de maio de 2015

Hoje falei do silêncio

E de como gosto de o ouvir. Gosto dos momentos em que consigo não pensar e que estou só a sentir o silêncio. Em que ouço o vento ou os pássaros, ou só a vida à minha volta, o passar do tempo. Que também tem o seu som, a sua melodia própria. 

Mas gosto ainda mais do silêncio na escuridão. Gosto de apagar as luzes à noite e de estar acordada e de ouvir o silêncio no escuro. É aconchegante. Os momentos de estar sozinha comigo mesma sabem-me melhor assim. Sem fazer nada ou com uma pequena luz, para ler, ou a ver um filme. Gosto da penumbra.

Vejo mal, uso óculos. Mas movimento-me à noite como se sentisse as coisas, sem precisar de as ver. Os miúdos perguntam-me muitas vezes se vejo no escuro. Sei o sítio das coisas, o meu corpo sabe onde não bater, para onde estender as mãos para chegar às coisas. No escuro vejo bem sem ver. Porque sinto. Porque não dependo dos olhos. No escuro sou mais livre. No escuro e no silêncio. Estou livre e comigo.

O prometido é devido

Há dias, ela publicou uma foto duma praia, uma foto linda, para dizer ao mundo onde estava. Eu estava a trabalhar. (A inveja mata, às vezes momentaneamente. É uma ruindade que arruina o coração). Tive de a mandar passear. Não se atormenta o dia duma pessoa assim. Mas eu gosto dela. 

Ela tomou decisões que poucas teriam tomado, assumiu-as e agora vive o resultado de tudo o que plantou. Coisas boas, felizes, positivas. Que contagiam até quem a rodeia. Que facilmente se rói de inveja. Não pelas fotos, só. Pela boa forma física, pelo sorriso, pelas escolhas saudáveis que lhe saem tão facilmente, sem sacrifício. Pelo yoga, pelas corridas, pelo crossfit. Pelo creme de aveia que ela come à sobremesa (que nem sequer cai dentro da minha categoria de doces). 

Acho que olhando agora seremos poucos os que pensam que se calhar houve dias maus e difíceis. Eu não sei se os houve, mas imagino que sim. E por isso, ainda mais por isso, valem tanto os sorrisos e a boa disposição. E por isso não lhe sei ter inveja, só admiração.

sábado, 30 de maio de 2015

Às mães e pais das pessoas piqueninas

É sábado e eles ignoram isso, levantam-se até mais cedo do que nos dias de semana e chamam-nos. Chamam-nos muitas e tantas outras vezes. E nós levantamos-nos e vamos e fazemos. E fazemos os pequenos almoços, lavamos dentes, penteamos cabelos e saímos de casa com um objectivo: cansá-los. Está bom tempo, vamos para a rua queimar energia, por favor. E eles correm e gritam e caem e magoam-se, e nós gritamos e damos beijinhos e desesperamos.
E de repente a hora começa a aproximar-se e nós até começamos a respirar mais fundo. Vem aí a hora da sesta. Que espectáculo, a sesta. Que coisa tão bem inventada para promover a sanidade parental aos fins de semana. 
E de repente eles estão a dormir. E na nossa cabeça atropelam-se as melhores ideias para aproveitar aquela hora, hora e meia. Com sorte, mais a chegar às duas. Podíamos ler, ou aproveitar e ver um episódio da série que ficou a meio, ou sentarmo-nos no sofá a usufruir do silêncio. Ou enroscar-nos e estarmos juntos quietos no sofá. Tanta coisa boa para fazer e tão pouco tempo. Vamos então escolher o livro, ou a posição mais confortável para estarmos, ou..... 
Acabou-se o tempo. Já acordaram. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Não te iludas, que eu não me deixo iludir

A vida é o que é. 

Já escrevi este post dúzias de vezes e tantas vezes o apaguei. Interessa-me pouco dizer banalidades, porque de banalidades mascaradas de coisas importantes está este mundo cheio - a internet então nem se fala. 

A vida é o que é e manter-se-á nesse estado amorfo enquanto não lhe pusermos as mãos e a ajustarmos a nós. Já basta o que não controlamos para ainda abrirmos mão daquilo que podemos controlar. Adiantam de pouco as queixas, as lamúrias. A vida não nos ouve. Não quer saber, não se interessa. Porque a vida fala todos os dias connosco e nós fazemos muitas vezes, tantas vezes, ouvidos moucos. Podia estar a falar num sentido mais transcendente da questão, mas até nem estou. A vida fala connosco através de quem nos rodeia, das nossas reacções, dos desafios que ultrapassamos e dos que falhamos. A vida mostra-nos todos os dias onde investir em nós, o que mudar, o que continuar a fazer da mesma forma, porque já acertámos na receita. 

A vida fala e nós não a ouvimos. E portanto a vida continua a ser o que é, porque enquanto nós formos o que somos, ela também não há de mudar. Não tem essa necessidade, nós também não a temos.

Não te iludas, que eu também já não: queres que ela se preocupe contigo, preocupa-te tu primeiro com ela. E vais ver como a vossa relação muda automaticamente para melhor. Sem ilusões ou desilusões. Porque a vida há de continuar a ser o que é, mas se eu for o que sou quando o quero ser, também assim há de ser a vida.

domingo, 24 de maio de 2015

Reduzir palavras a números

Na maior parte das vezes, usamos as palavras para nos explicarmos. Para comunicar, para expressar ideias, transmitir informações. As palavras são mais ricas, a sua união torna possível a construção de uma rede infinita de frases que tentarão transmitir a riqueza do pensamento mais intrincado. Para que quem quer que as leia ou ouça consiga reproduzir na sua cabeça esse mesmo pensamento, admirá-lo pela sua beleza ou estranhá-lo na sua complexidade.
As palavras servem-nos todos os momentos do dia, porque sem discurso não há pensamento. As palavras amparam, acariciam, matam ou fazem matar. Li na net no outro dia uma frase que dizia mais ou menos isto: "digas o que disseres, da maneira que disseres, vai haver sempre alguém que compreende outra coisa completamente diferente da que disseste". E esta possibilidade é real, não é uma percentagem a descurar. E agora já estamos a falar de números. Que têm, em si, muito menos probabilidade de serem interpretados de diferentes formas.
Para um matemático apaixonado, os números têm tanta ou mais beleza que as palavras, e um matemático saberá acrescentar que os números estão em todo o lado, até mesmo nos momentos em que nos parecem mais longe. Os números criam a beleza natural, como desde a Antiguidade a matemática demonstrou, com a proporção áurea, não são uma exclusiva criação humana para ordenar o mundo desorganizado.
Em 40 minutos mudaram 8 anos e meio. E em menos de 10 minutos, quase 11 anos. Os primeiros criam um novo momento. Os últimos um momento final. É assim que a vida muda, muitas vezes sem muitas palavras e muitas vezes sem beleza alguma.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

As datas não importam

Porque não são as datas que marcam a tua falta em mim. Não sou de guardar o passado ou sequer de me lembrar de dias em particular. Fazes falta todos os dias, mesmo naqueles em que não me lembro de ti. Porque irás dentro de mim sempre, todos os segundos que passarem do tempo que cá hei de estar. Porque há uma parte de mim que és tu, que tu moldaste e construíste e que nunca perderá o teu toque.
Podia dizer muito mais coisas. Como me lembrei de ti quando casei ou quando fui mãe ou quando vejo pessoas parecidas contigo. Porque as há. Não eras única, ninguém é, nem eu pressuponho ser. Mas havia uma parte de ti que era minha, e isso sim, mais ninguém tem. E isso foi contigo e não há de voltar.
Hei de ter lágrimas nos olhos todos os dias em que me lembrar de ti assim, como quando estou a escrever estas palavras. Não me importa isso. É da falta que me fazes e vais fazer. E do cheiro que ainda sei sentir, quando me quero lembrar de ti.

terça-feira, 19 de maio de 2015

da violência que é o uso indevido do poder

O poder deveria ser reservado a quem não o quer. Porque, normalmente, quem o persegue não tem capacidade para o ter. Estas frases não são minhas, mas não tenho a certeza onde as ouvi. Mas não podia concordar mais.

O poder pode ser uma droga. Se a personalidade que o tem for semelhante à dos dependentes de substâncias, facilmente teremos um dependente de poder. E essa é uma ideia terrível. E pior do que "eu faço porque posso" é "eu faço-te porque posso". Esta é uma ideia ainda mais terrível. A manifestação do poder para influenciar deliberada e negativamente a vida de terceiros, consciente das consequências das nossas acções, dá ao poder o carácter mais negativo que ele pode ter. E o poder protege, de uma forma muito clara, quem manda. Quanto mais não seja porque quem não manda, e  é violentado na sua pessoa, seja em que contexto for, está abaixo na hierarquia e não tem forma, nem apoio, para ripostar na mesma moeda. Porque os custos de tal resposta podem ser muito altos e fora do alcance de quem desejava poder responder na mesma moeda.

O poder existe. E há pessoas que o querem. Algumas vezes desesperadamente. Porque só a mandar se sentem pessoas. Porque "não existem más pessoas, só pessoas pobres de espírito" esta posse de poder dá-lhes uma ilusão de riqueza, quando tudo o que têm é um peito cheio de nada e uma cabeça com coisa nenhuma. Muito se tem inscrito, também por causa da crise que se vive actualmente, sobre os chefes e os lideres, e de como um bom líder pode mudar o mundo de muitas pessoas de uma forma muito positiva, nomeadamente por conseguir mantê-las satisfeitas, interessadas e envolvidas no seu trabalho. Isto, tendo em conta que cada vez trabalhamos mais, durante mais horas, e cada vez o fazemos mais durante o nosso tempo familiar, pode ser muito importante. E podemos estar a descurar a importância de termos verdadeiros líderes à frente das equipas de trabalho e das empresas, pessoas que consigam dar de si, para envolver quem com eles trabalha. Pessoas com capacidade de domar o poder, e não serem domadas por ele.

As manifestações abusivas de poder incomodam-me. E ainda mais me incomoda a minha incapacidade de resposta na hora.

Adenda ao post anterior

Ora bem.... venha lá o 34º não é? Simmmmmm.... :) Benficaaaaaaaaaaaaa

E depois... Análise realista da questão: somos campeões antes de tempo (leia-se antes do final do campeonato) porque... os outros empataram. Que raio de fim. Tanto tempo e tantos jogos a marcar golos e os jogos que decidem o campeonato mais cedo são empates... Um bocadinho insípido não?

E depois... Que tipo de espírito demoníaco-animalesco tomou conta destas pessoas que se dizem amantes de desporto? O estádio do Guimarães, o armazém do Guimarães (aquelas pessoas pareciam estar numa Primark sem caixa de pagamento!), a porrada, os desacatos à porta do estádio do Sporting, supostos adeptos de outras equipas envolvidos em confrontos no Marquês de Pombal, uma suposta festa que termina com o pedido de um jogador à calma.

E depois... o que é isto pessoas? Quem são estas pessoas que vocês têm guardadas aí dentro que são capazes de fazer estas coisas? O que são estas coisas que vocês dizem, fazem e escrevem para toda a gente ver?

Sim. Foi o 34º. Mas por tudo, desta vez, não soube tão à Benfica.

domingo, 17 de maio de 2015

antes de coisas interessantes inteligentes e que promovam a introspecção....

VIVÓ BENFICA.

Tenho uma certa dificuldade entender esta fidelização a um clube de futebol. Eu nem sequer gosto de jogar à bola: uso óculos desde os 8 anos e posso garantir-vos que levar uma bolada na cara é doloroso (já me aconteceu) e que levar uma bolada na cara quando a bola bate primeiro nos óculos é muito mais doloroso (também já me aconteceu). Para além da dor, há sempre aquele momento fofinho em que tememos que, contra tudo o que o oculista nos disse sobre as nossas novas lentes XPTO, o vidro (que nem sequer é vidro) se estilhace em pedaços e nos cegue. Não é um momento a repetir. E se com uma bola de andebol é mau, com uma de futebol é bastante pior. Para além da razão dos óculos, nunca fui muito boa a jogar, não acerto um passo, e tenho fraca visão de jogo.

Por todas estas razões, não percebo honestamente esta cena clubística. Que eu tenho. Não fico doente quando o Benfica perde, não pago cotas, não sou sócia, não deixo de fazer coisas se o Benfica está a jogar. Não tenho quaisquer expectativas que os meus filhos venham a ser do Benfica - hão de torcer por quem quiserem - e não vou tomar atitudes nenhumas para que se interessem mais pelo Benfica do que por outro clube (o meu avô, que era do Sporting, quis oferecer-me uma Abelha Maia, daquelas que se punha a moedinha, para eu passar a ser do Sporting). Não me lembro de quando fui a última vez ao estádio e nem sequer tenho palavras para a quantidade de dinheiro e corrupção que uma coisa como o futebol movimenta.

Mas sou do Benfica. E gosto de ver jogos, quando jogam bem, gosto quando marcam golos e hoje, por razões óbvias, quero que o Benfica ganhe ao Guimarães. Mas porque quero que o Benfica ganhe, não porque quero que o Guimarães perca. E não, desculpem, não é a mesma coisa, porque o fundamento é diferente. Mesmo que, por razões óbvias, eu tenha perfeita consciência que o Benfica só ganha porque o Guimarães perde.

Vivó Benfica (e o Jesus, que sempre "acarditou" nos jogadores dele e nas suas capacidades, que não esmoreceu quando deixámos a "Xampionjs" e que tratou os problemas como "pinners" que eram).

quarta-feira, 13 de maio de 2015

não tenhas medo, o c@#al&%

assim, meio disfarçada (mas muito mal), está para ali uma asneirona no título.
ora bem....................... a vida deve ser aproveitada, como se não houvesse outra porque até para as pessoas que acreditam que há mais do que uma, cada uma é única e não se cruzam logo, há que viver cada uma como se fosse única. para tal, é importante que vivamos de acordo com o que sentimos e pensamos, tentando-nos adaptar à realidade, porque a vida não é sempre como nós queremos e, muitas vezes (às vezes mais vezes do que as que gostaríamos) há sapos que temos de engolir. uns mais fáceis do que outros, mas isso também faz parte do crescimento. reconhecemos as nossas forças e capacidades quando a situação não é favorável porque a expressão "a necessidade cria o engenho" existe na sabedoria popular porque é verdadeira. crescemos em confronto com a adversidade porque nos pomos à prova. se não houver desafio, não há como saber no que somos bons e no que somos bons onde não pensávamos que pudéssemos ser. este último ponto - o de nos adaptarmos ao que nos rodeia - não invalida que, em muitos momentos, possamos adaptar a realidade ao que sentimos e pensamos. e aí criamos mudança.
criamos mudança no que nos rodeia, em quem nos rodeia e em nós. porque os momentos de mudança são sempre momentos de desafio, de crise. porque cortamos com o que está passado para construir o que é presente e lançar escadas para o futuro. construímos grandes e pequenas coisas, mudamos muito e pequenas coisas, às vezes fundamentais. pomo-nos à prova e podemos ser mais felizes. porque mesmo que não experimentemos totalmente o sucesso, experimentamos pelo menos o sucesso de tentar, de fazer, de mostrar que somos capazes de nos pormos a mexer. e com sorte, arrastamos pessoas connosco, criamos movimento.
somos responsáveis por tudo isto. pelo viver em equilíbrio com o que há, o que queríamos que houvesse e o que podemos ter. não em termos de coisas palpáveis, mas em termos de vida. que vida quero eu para mim, como me satisfaço enquanto indivíduo, o que me motiva e me faz vibrar.

que palavras tão bonitinhas e tão bem encadeadas. e o medo porra? o medo do passo, do desconhecido, do falhanço? o medo que pode tantas vezes levar-nos a preferir o conforto dum sítio mau ao invés do desafio do inexplorado? as certezas do que nos deixa triste face à incertezas do que nos pode vir a fazer tão feliz. o medo é mau. mas também é meu. e não se deixa apagar como se de um simples fogareiro se tratasse. não tenhas medo. mas tenho. tenho muito medo.  

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Duas horas para se falar do que pode levar uma vida a alcançar

Aviso à navegação: este post já existiu. Entretanto eu, no auge da minha sabedoria informática, apaguei-o. E agora vou reescrevê-lo. E portanto, para que se saiba que eu o reconheço, este post não terá tanta qualidade como o post inicial. Para que se saiba também, já me chamei muitos nomes e disse todas as asneiras que conheço.
E depois fiz zen e cenas e vou voltar a escrever. Mas isto não tem metade da piada, ora que porra.

Ora bem. Fomos hoje (fomos porque não fui sozinha) ao primeiro encontro do Observador. Que foi sobre a felicidade. Seis pessoas para falar de felicidade. Três das quais psicólogos. Muito poderia escrever sobre este ponto. Uma das psicólogas falou sobre economia, e mais um tanto se poderia escrever sobre esse ponto também. Mas essas considerações acontecerão no futuro (porque já que estou a reescrever isto, posso definitivamente pensar melhor sobre o tema e depois partilhar aquilo que me aprouver, para me vingar - de mim própria note-se).

Este é um tema, o da felicidade, que me é muito caro. Cada vez mais. Gosto de ouvir o que os outros têm a dizer sobre o tema: o conceito é múltiplo e quase infinito, por isso acabamos sempre por concluir coisas novas até acerca do que nós próprios pensamos.

Ora para quem não foi, faço um pequeno resumo e convido-vos a pensar um bocadinho sobre o tema (e esta era a parte do post anterior em que eu, sem querer ou fazer esforço algum para isso, tinha feito um resumo em dez pontos, do mais fantástico que há. Porra para mim):

1. A felicidade não é um objectivo. É uma forma de estar na vida que tem consequências práticas sobre nós, sobre como vivemos e pensamos e nos comportamos
2. A felicidade está muito relacionada com o conceito de verdade, particularmente na forma como somos verdadeiros connosco próprios
3. Os dois pontos anteriores chamam a atenção para a noção de responsabilidade: somos responsáveis  por fazer a felicidade acontecer, não meros receptores de uma felicidade que por acaso nos acontece
4. A infelicidade é tão importante como a felicidade, porque na manifestação dos sentimentos negativos compreendemos a importância dos sentimentos positivos e os momentos de crise são, na maior parte das vezes, momentos "bons" roque nos desafiam e nos mostram o que temos cá dentro de melhor
5. A mera ideia de que podemos ser mais felizes amanhã do que fomos hoje pode ser suficiente para nos manter envolvidos na nossa própria vida: não é preciso experimentarmos a felicidade, a sua ideia pode ser o suficiente
6. E se a pergunta for "o que é preciso para me fazer infeliz"?
7. Existem dois tipos de factores preditores da felicidade: os externos (particularmente a satisfação com as nossas relações interpessoais) e os internos (nomeadamente a extroversão e o neuroticismo)
8. Os países mais ricos são mais felizes: porque são democracias há mais tempo, porque são mais organizados, porque há menos corrupção e as pessoas confiam mais nas instituições
9. Felicidade é pensar: porque é através do pensamento que nós criamos, desafiamos e somos livres
10. Os latinos vivem a felicidade mais na relação com os outros e os nórdicos mais na relação consigo e com o que acontece
11. Em Portugal está a fazer-se investigação científica nesta área que é única no mundo e que já conseguiu identificar que a felicidade causa alterações reais a nível psíquico e físico (inclusivamente a nível molecular

(Como é que escrevi mais um ponto?????? Que nervos que me faço!!!)

Ora bem, depois deste momento pós criativo idiota.....

Os encontros do Observador vão continuar a acontecer, mantenham-se atentos. Este encheu, acredito que os próximos também. Como tinha escrito no outro post, o original bonito, só decorei a data de 19 de novembro, que há de ser o encontro sobre os sentidos, mas o próximo é sobre tecnologia e futuro, há de haver um sobre empreendedorismo e inovação e os outros olhem.... Façam-se à vida e procurem. Eu quero ir ao de novembro.

Vou voltar a escrever sobre isto. Isso é certo.